sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Dias inconvenientes

A incapacidade de enfrentar uma realidade na qual pirâmides desabam e lugares-comuns neoliberais não funcionam leva à busca de bodes expiatórios. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Stephen Jafee/ AFP

A incapacidade de enfrentar uma realidade na qual pirâmides desabam e lugares-comuns neoliberais não funcionam leva à busca de bodes expiatórios

Publicado no jornal britânico Telegraph, excertos de uma nova edição de Freefall (Queda Livre), livro de Joseph Stiglitz originalmente lançado em janeiro, caíram como bombas na mídia europeia. Revisto e atualizado para incorporar oito meses de eventos mais recentes, incluindo a crise europeia e suas repercussões, ficou bem mais sombrio no que se refere às perspectivas da economia dos países ricos e à extensão das fraudes do setor financeiro.
Nesse período, escreve o ex-economista-chefe do Banco Mundial, desintegrou-se o consenso inicial do G-20 em favor de medidas concertadas de caráter keynesiano. Viram-se governos e economistas aceitarem uma “nova normalidade” de desemprego alto, baixo crescimento e desmantelamento de serviços públicos. É a “doença japonesa”, com décadas de estagnação à vista e agravada: no Japão, ao menos o desemprego permaneceu relativamente baixo e a coesão social ainda não foi seriamente abalada.
Os mesmos bancos e analistas financeiros, cujos erros e fraudes criaram a crise, exigem cortes de gastos dos governos que os socorreram e contribuem assim para que ela se torne mais persistente, em seu próprio prejuízo. Foi o que aconteceu com a Espanha: assim que atendeu à pressão dos bancos e anunciou cortes de gastos públicos, seus títulos de dívida foram rebaixados, pois isso reduziria seu crescimento, segundo as agências de classificação. Como se diz em português, presa por ter cão, presa por não tê-lo.
A Irlanda, o “Tigre Celta” de há alguns anos, cuja liderança em crescimento econômico na Europa Ocidental era atribuída às virtudes da desregulamentação de seu setor financeiro, não hesitou ante a crise e foi a primeira a embarcar na “política de austeridade”. Hoje, seus títulos pagam o segundo maior prêmio de risco da União Europeia, menor apenas que o da Grécia. Os 420 pontos-base do seu risco-país praticamente igualam os do Iraque (457) e do falido Dubai (436) e superam amplamente o Líbano (299) e o Vietnã (268), para não falar da Rússia (175) ou do Brasil (144).
Para Stiglitz, se os EUA criaram a crise, é a Europa que mais a alimenta. E sugere soluções drásticas: uma paradoxal saída da Alemanha do euro – impulsionou sua criação e praticamente controla o Banco Central Europeu, mas agora seus interesses estão em conflito com a maior parte da região – ou a divisão da Zona do Euro em duas regiões e duas moedas, ideia já ventilada por outros economistas pouco ortodoxos.
Se essas ideias soam inusitadas e radicais, é uma virtude. Nada é mais perigoso e contraproducente, nestes dias, que o apego desesperado das elites políticas, midiáticas e econômicas às práticas que fizeram suas fortunas nos anos de prosperidade. Estas dependem do lugar-comum de que com livre mercado, desregulamentação e austeridade fiscal todos os problemas se reduzem a dois tipos: os que se resolvem sozinhos e os que não têm solução.
Ao mesmo tempo que silencia alternativas e trava a discussão de questões fundamentais, essa atitude estimula a busca de bodes expiatórios para problemas sociais e econômicos generalizados – conspirações, imigrantes estrangeiros, o marxismo, os ciganos, os árabes, os turcos. Nem sempre com os resultados esperados, é verdade: na França, a campanha de Nicolas Sarkozy contra os ciganos romenos, mesmo com apoio popular, não impediu os sindicatos de promoverem contra sua reforma da aposentadoria a maior greve desde 1995. Mas sempre se abre caminho à aceitação como normal de teorias conspiratórias e de teses xenófobas e maniqueístas para tentar explicar por que um sistema supostamente perfeito e harmonioso parou de funcionar.
Não apenas em cartazes e palavras de ordem de comícios do Tea Party e de seus equivalentes europeus, mas também, por exemplo, em artigos nas páginas da Forbes, uma das bíblias (junto com a Fortune) do capitalismo dos EUA. Na edição da segunda quinzena de setembro, o neoconservador evangélico Dinesh D’Souza – ele mesmo imigrante indiano, com pais originários da ex-colônia portuguesa de Goa – chama Barack Obama de “o presidente mais antiempresarial em uma geração, talvez na história dos EUA”. Não por ser “sem noção em relação aos negócios” ou “socialista ao estilo europeu”. Segundo ele, essas acusações comuns na comunidade empresarial não são falsas, mas “inadequadas”: o pecado mortal de Obama é o “anticolonialismo”.
D’Souza dá como exemplo “comportamentos estranhos” como defender o direito dos muçulmanos a construir uma mesquita em Manhattan e aprovar um empréstimo do Eximbank para a Petrobras explorar petróleo no mar, enquanto a mesma atividade estava suspensa nos EUA, devido ao vazamento no Golfo do México. E atribui essa postura à herança do pai de Obama, “um homem da tribo Luo que cresceu no Quênia”. Qualquer dissenso em relação ao que a comunidade empresarial dos EUA pensa serem seus interesses faz de um presidente um agente de interesses anticoloniais estrangeiros transmitidos de pai para filho, mesmo se esse mesmo presidente também ordena a escalada da intervenção militar do Pentágono no Afeganistão e Oriente Médio.
E o dissenso é, na prática, realmente pequeno, a ponto de integrantes do establishment, como o economista Paul Krugman ou o investidor George Soros, que nada têm de revolucionários comunistas, criticarem a timidez de Obama ao evitar a estatização dos grandes bancos e propor pacotes de estímulos insuficientes para conter o aumento do desemprego. Assunto do dia dos dois lados do Atlântico, tanto que o Nobel de Economia foi, desta vez, concedido a três economistas (Christoper Pissarides, Peter Diamond e Dale Mortensen) que estudaram fatores que impedem o mercado de trabalho de funcionar suavemente e sem choques, de acordo com a utopia liberal.
Mas mesmo visões embasadas no keynesianismo têm dificuldade em apontar uma proposta realista. Krugman admite que um pacote das dimensões necessárias talvez não fosse politicamente viável (embora censure Obama por não tentar) e que mesmo o New Deal de Roosevelt serviu apenas para amenizar a crise de 1929, enquanto a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial não gerou um pretexto politicamente aceitável para a enorme escalada de gastos públicos necessária para tirar a economia do atoleiro.
Na falta de uma receita clara, essas visões centristas acabam por procurar seus próprios bodes expiatórios – acompanhe-se, por exemplo, a crescente insistência de Krugman em impor sanções à China para obrigá-la a valorizar sua moeda em relação ao dólar.
A postura da China em relação aos EUA é análoga à da Alemanha em relação à Grécia e demais países devedores da Europa. Para proteger os interesses imediatos de seus exportadores e não arriscar a sua estabilidade econômica e política, ambos querem manter a atual paridade cambial e pressionam os devedores a pagar as contas apertando cintos e cortando gastos e salários, mesmo que isso prejudique sua capacidade de importar. A guerra cambial é a mesma: a diferença é que os EUA têm mais poder de fogo para se defender, emitem e controlam a moeda que denomina a sua própria dívida (enquanto Grécia, Portugal e Espanha têm suas dívidas em moe­da emitida e controlada, na prática, pela Alemanha) e têm o apoio da maior parte da mídia global, razão pela qual os chineses são vistos como vilões e os alemães como gente austera e trabalhadora, que defende seriedade e bons princípios comerciais.
Como mostrou a reunião do FMI e do Banco Mundial em Washington, e provavelmente confirmará a reunião do G-20 em Seul, nenhum lado quer ceder a uma negociação que distribua razoavelmente os custos do ajuste. Todos esperam recuperar ou manter sua própria “normalidade” à custa dos países mais fracos, assim como, dentro de cada país, banqueiros e empresários tentam manter a sua à custa dos trabalhadores, e parte destes, por sua vez, tenta se proteger expulsando os que estão em condições ainda piores, como os imigrantes sem documentos.
Mas a “normalidade” dos anos 90 não voltará. Não só as relações de poder econômico entre EUA, o Ocidente e o resto do mundo se modificam de maneira irreversível, como é cada vez mais claro que a prosperidade do auge neoliberal foi toda ela uma fraude, uma pirâmide financeira ou esquema Ponzi em escala gigantesca, sem substância por trás: ações em Bolsa cotadas com base em fantasias impossíveis sobre crescimento ilimitado, empréstimos hipotecários a devedores incapazes de pagá-los e derivativos incompreensíveis baseados em avaliações irreais dos riscos dessas dívidas.
Verdade ainda mais inconveniente – mesmo difícil de admitir para neoclássicos, keynesianos e até parte da própria esquerda – é que a própria base real dessa prosperidade virtual e fictícia é de certa forma uma pirâmide, no sentido em que se baseia em sacar recursos finitos enquanto se alimenta a ilusão de que isso poderá continuar para sempre. Pouco importa se esses recursos são o bolso de otários, o salário de trabalhadores ou reservas minerais, florestais e energéticas. A longo prazo, não haverá economia sustentável sem redistribuição e planejamento em escala mundial.

Antonio Luiz M. C. Costa

Antonio Luiz M.C.Costa é editor de internacional de CartaCapital e também escreve sobre ciência e ficção científica.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Auditoria comprova sumiço de recursos federais em SP


 
Governador eleito terá de dar conta de verba assim que assumir o estado

Por Leandro Fortes

Quando assumir, pela terceira vez, o governo do estado de São Paulo em 1º de janeiro de 2011, o tucano Geraldo Alckmin terá que prestar contas de um sumiço milionário de recursos federais do Ministério da Saúde dimensionado, em março passado, pelo Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (Denasus). O dinheiro, quase 400 milhões de reais, deveria ter sido usado para garantir remédios de graça para 40 milhões de cidadãos, mas desapareceu na contabilidade dos governos do PSDB nos últimos 10 anos. Por recomendação dos auditores, com base na lei, o governo paulista terá que explicar onde foram parar essas verbas do SUS e, em seguida, ressarcir a União pelo prejuízo.
O relatório do Denasus foi feito a partir de auditorias realizadas em 21 estados. Na contabilidade que vai de janeiro de 1999 e junho de 2009. Por insuficiência de técnicos, restam ainda seis estados a serem auditados. O número de auditores-farmacêuticos do País, os únicos credenciados para esse tipo de fiscalização, não chega a 20. Nesse caso, eles focaram apenas a área de Assistência Farmacêutica Básica, uma das de maior impacto social do SUS. A auditoria foi pedida pelo Departamento de Assistência Farmacêutica (DAF), ligado à Secretaria de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, para verificar denúncias de desvios de repasses de recursos do SUS para compra e distribuição de medicamentos nos sistemas estaduais de saúde.
O caso de São Paulo não tem parâmetro em nenhuma das demais 20 unidades da federação analisadas pelo Denasus até março de 2010, data de fechamento do relatório final. Depois de vasculhar todas as nuances do modelo de gestão de saúde estadual no setor de medicamentos, os analistas demoraram 10 meses para fechar o texto. No fim das contas, os auditores conseguiram construir um retrato bem acabado do modo tucano de gerenciar a saúde pública, inclusive durante o mandato de José Serra, candidato do PSDB à presidência. No todo, o período analisado atinge os governos de Mário Covas (primeiro ano do segundo mandato, até ele falecer, em março de 2001); dois governos de Geraldo Alckmin (de março de 2001 a março de 2006, quando ele renunciou para ser candidato a presidente); o breve período de Cláudio Lembo, do DEM (até janeiro de 2007); e a gestão de Serra, até março de 2010, um mês antes de ele renunciar para disputar a eleição.
Ao se debruçarem sobre as contas da Secretaria Estadual de Saúde, os auditores descobriram um rombo formidável no setor de medicamentos: 350 milhões de reais repassados pelo SUS para o programa de assistência farmacêutica básica no estado simplesmente desapareceram. O dinheiro deveria ter sido usado para garantir aos usuários potenciais do SUS acesso gratuito a remédios, sobretudo os mais caros, destinados a tratamentos de doenças crônicas e terminais. É um buraco e tanto, mas não é o único.
A avaliação dos auditores detectou, ainda, uma malandragem contábil que permitiu ao governo paulista internalizar 44 milhões de reais do SUS nas contas como se fossem recursos estaduais. Ou seja, pegaram dinheiro repassado pelo governo federal para comprar remédios e misturaram com as receitas estaduais numa conta única da Secretaria de Fazenda, de forma ilegal. A Constituição Federal determina que para gerenciar dinheiro do SUS os estados abram uma conta específica, de movimentação transparente e facilmente auditável, de modo a garantir a plena fiscalização do Ministério da Saúde e da sociedade. Em São Paulo essa regra não foi seguida. O Denasus constatou que os recursos federais do SUS continuam movimentados na Conta Única do Estado. Os valores são transferidos imediatamente depois de depositados pelo ministério e pelo Fundo Nacional de Saúde (FNS), por meio de Transferência Eletrônica de Dados (TED).
Em fevereiro, reportagem de CartaCapital demonstrou que em três dos mais desenvolvidos estados do País, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, todos governados pelo PSDB, e no Distrito Federal, durante a gestão do DEM, os recursos do SUS foram, ao longo dos últimos quatro anos, aplicados no mercado financeiro. O fato foi constatado pelo Denasus após um processo de auditoria em todas as 27 unidades da federação. Trata-se de manobra contábil ilegal para incrementar programas estaduais de choque de gestão, como manda a cartilha liberal seguida pelos tucanos e reforçada, agora, na campanha presidencial. Ao todo, de acordo com os auditores, o prejuízo gerado aos sistemas de saúde desses estados passava, à época, de 6,5 bilhões de reais, dos quais mais de 1 bilhão de reais apenas em São Paulo.
Ao analisar as contas paulistas, o Denasus descobriu que somente entre 2006 e 2009, nos governos de Alckmin e Serra, dos 77,8 milhões de reais do SUS aplicados no mercado financeiro paulista, 39,1 milhões deveriam ter sido destinados para programas de assistência farmacêutica – cerca de 11% do montante apurado, agora, apenas no setor de medicamentos, pelos auditores do Denasus. Além do dinheiro de remédios para pacientes pobres, a primeira auditoria descobriu outros desvios de dinheiro para aplicação no mercado financeiro: 12,2 milhões dos programas de gestão, 15,7 da vigilância epidemiológica, 7,7 milhões do combate a DST/Aids e 4,3 milhões da vigilância epidemiológica.
A análise ano a ano dos auditores demonstra ainda uma prática sistemática de utilização de remédios em desacordo com a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) estabelecida pelo Ministério da Saúde, atualizada anualmente. A lista engloba medicamentos usados nas doenças mais comuns pelos brasileiros, entre os quais antibióticos, antiinflamatórios, antiácidos e remédios para dor de cabeça.  Entre 2006 e 2008, por exemplo, dos 178 medicamentos indicados por um acordo entre a Secretaria de Saúde de São Paulo e o programa de Assistência Farmacêutica Básica do Ministério da Saúde, 37 (20,7%) não atendiam à lista da Rename.
Além disso, o Denasus constatou outra falha. Em 2008, durante o governo Serra, 11,8 milhões do Fundo Nacional de Saúde repassados à Secretaria de Saúde de São Paulo para a compra de remédios foram contabilizados como “contrapartida estadual” no acordo de Assistência Farmacêutica Básica. Ou seja, o governo paulista, depois de jogar o recurso federal na vala comum da Conta Única do Estado, contabilizou o dinheiro como oriundo de receitas estaduais, e não como recurso recebido dos cofres da União.
Apenas em maio, dois meses depois de terminada a auditoria do Denasus, a Secretaria Estadual de Saúde resolveu se manifestar oficialmente sobre os itens detectados pelos auditores. Ao todo, o secretário Luís Roberto Barradas Barata, apontado como responsável direto pelas irregularidades por que era o gestor do sistema, encaminhou 19 justificativas ao Denasus, mas nenhuma delas foi acatada. “Não houve alteração no entendimento inicial da equipe, ficando, portanto, mantidas todas as constatações registradas no relatório final”, escreveram, na conclusão do trabalho, os auditores-farmacêuticos.
Barata faleceu em 17 de julho passado, dois meses depois de o Denasus invalidar as justificativas enviadas por ele. Por essa razão, a discussão entre o Ministério da Saúde e o governo de São Paulo sobre o sumiço dos 400 milhões de reais devidos ao programa de Assistência Farmacêutica Básica vai ser retomada somente no próximo ano, de forma institucional.

Leandro Fortes

Leandro Fortes é jornalista, professor e escritor, autor dos livros Jornalismo Investigativo, Cayman: o dossiê do medo e Fragmentos da Grande Guerra, entre outros. Mantém um blog chamado Brasília eu Vi. http://brasiliaeuvi.wordpress.com

JN e o meteorito de papel

Por Washington Araújo em 26/10/2010
Ânimos exaltados fazem aflorar ainda mais a partidarização da imprensa no corrente pleito de 2010. Esta é uma campanha presidencial sui generis. Tudo o que não é fato vira notícia e tudo o que tem potencial de notícia deixa de ser divulgado. Chama a atenção o vocabulário corriqueiro dos candidatos à Presidência da República: o adversário é sempre mentiroso, não importa qual seja a situação, a mentira antecede o depoimento, a desfaçatez nubla a face da verdade e o que acusa o outro de mentiroso o faz sem a contração de qualquer músculo facial.
Na tarde da quarta-feira (20/10), no Rio de Janeiro, tivemos o próprio "Efeito Borboleta": uma simples bolinha de papel, pesando não mais que 5 ou 8 gramas, bateu na cabeça do candidato José Serra. Mas foi suficiente para produzido o festejado efeito cinematográfico: ocupou espaço nobre no Jornal Nacional, edição mais que caprichada com direito a inserção de vídeo com foto, de entrevista de médico com áudio de repórter, ampliações desmesuradas com o intuito nada ingênuo de transformar o choque de uma bolinha de papel sobre um ser humano com a gravidade e contundência de meteorito se chocando com o planeta Terra.
Fabricação de realidadesA idéia da TV Globo era usar todos os recursos de dramaturgia acessíveis. Apenas a emissora líder não contava com o baixo desempenho da protagonista... Com uma bolinha de papel não dá para escrever capítulo muito emocionante, algo que seja digno de novela das 9.
A edição pareceu resultante de vitamina de atleta olímpico e tinha de tudo mesmo: bolinha de papel tocando o lado esquerdo da calva do presidenciável, caminhada de 20 minutos, presidenciável atendendo chamada no telefone celular, presidenciável passando a mão levemente sobre o lado direito da calva, presidenciável entrando na van, depois saindo da van, voltando a caminhar, e tudo isso tendo como pano de fundo bandeiras vermelhas e azuis, gritos, gente alvoroçada.
Depois corta para entrada do presidenciável em hospital, sinais de tontura e as primeiras aspas ouvidas por testemunhas de que "estou meio grogue". Depois saindo de clínica de saúde com médico dizendo que "o candidato não sofreu qualquer arranhão... nada externo".
Foi esse enredo que atravessou os programas dos presidenciáveis. O de José Serra, carregado de dramaticidade, tendo a locução de repórter desconhecida emulando a voz de Ilze Scamparini, aquela correspondente da TV Globo para assuntos do Vaticano e também da Itália em geral. O estilo de enunciar crise cardinalícia ou mesmo morte do pontífice ou então a eleição do novo sucessor no trono de Pedro. Impressiona a avidez com que emissoras de televisão se sentem tão à vontade para criar a realidade que lhes pareça melhor, mais adequada, conveniente ou ao menos plausível.
"Misterioso caso"Na quinta-feira (21/10), temos discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva embrulhando os parágrafos acima e amarrando todo esse minitiroteiro com barbantes apertados. O aperto de quem denuncia o conteúdo do pacote como farsa, nada mais que farsa. Até o goleiro Rojas, aquele que simulou ter sido atingido por foguete em jogo no Rio de Janeiro, foi mencionado na fala presidencial. Uma vez mais o pano de fundo era desmascarar mais mentiras, mais inverdades, mais falsidade, mais realidade fabricadas.
Na edição do Jornal Nacional de quinta-feira (21/10), repetição de cenas do arquivo do dia anterior acrescidas de aula sobre bolinha de papel, rolo de fita crepe e a teoria pouco convincente – penso – de dois eventos estanques, isolados, completamente distintos. A aula foi ministrada com raro didatismo pelo ex-professor da Unicamp Ricardo Molina de Figueiredo em um veículo e em um horário em que cada segundo vale literalmente ouro em pó. Onde a eternidade é condensada aos 5, 10 ou 15 segundos de matéria levada ao ar.
A TV Globo, ao escolher o especialista Molina, deixou claro que neste jogo quer maior protagonismo. Afinal é o mesmo Molina quem vem abastecendo dezenas de matérias produzidas pelo mesmo Jornal Nacional ao longo das décadas: Seu nome se encontra de alguma forma envolvido com casos como a compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso; o acidente aéreo com os integrantes da banda Mamonas Assassinas; o pagamento de suborno no caso Waldomiro Diniz; as mortes de Celso Daniel e de Paulo César Farias; os atentados do PCC em São Paulo; e o caso da menina Eloá, em São Paulo.
Apesar da notoriedade, em suas aparições na mídia, o ex-professor Molina comumente faz declarações sobre ações da perícia criminal oficial, mesmo sem nunca ter sido perito criminal oficial. Certamente passará a lustrar mais sua fama com este "misterioso caso da bolinha de papel" na reta final da campanha presidencial de 2010.
De joelhosChegamos a uma encruzilhada perigosa em que a credibilidade de boa parte de nossa grande imprensa parece uma vez mais afundar: se dispomos das conclusões e se estas parecem sólidas, quase pétreas, por que não montar as variáveis do problema que possam se harmonizar de forma indolor e quase imperceptível com as conclusões? E é um processo retroalimentado diariamente: primeiro surge na coluna do jornalista Merval Pereira, depois ganha mais substância com o comentário da historiadora Lucia Hippolito na rádio CBN e pronto: logo os engenhosos e incompletos raciocínios pautarão as falas do presidenciável José Serra ao longo do dia.
Para chegar a tais conclusões basta um pouco de paciência: visitar os blogs dos citados e conferir vídeos no Youtube do presidenciável, em especial aqueles com suas aparições nos telejornais das TVs Globo, SBT, Record e Band.
O que é mais escasso no episódio é a ausência total de análises profundas sobre o acirramento de ânimos de parte a parte. O excesso de uso dos carimbos contendo palavras como "mentira", "inverdade", "falsidade". Revistas e jornais proclamam completa independência dos partidos postulantes à Presidência da República ao tempo em que os profissionais que assinam as matérias, colunas e também os simulacros de reportagens não fazem outra coisa que fazer diária e semanalmente sua profissão de fé na capacidade e experiência demonstrados por seu candidato ao Palácio do Planalto. Tal profissão de fé é sempre recorrente como recorrente tem sido a demonização do tal "outro lado" que atende também pelo nome de "campanha adversária".
Como linha auxiliar da oposição, parte considerável da grande mídia verbaliza o que pode ser apenas intuído por esta campanha. E se a "campanha adversária" decide não deixar passar em branco tão engenhosa estratégia partidária, então veremos que 10 em 10 vezes esta será atacada como atentatória à liberdade de imprensa, estará mostrando ranço autoritário, demonstrará assimetria entre a liturgia que se espera de detentor de cargo público e a função de militante político.
Ao momento, a profundidade a que me refiro é tal que uma formiga de joelhos poderia atravessar sem o menor risco de afogamento.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Diminuir o poder dos responsáveis


A acadêmica que serviu no FMI defende restrições aos bancos
Diretora do Centro de Economia Internacional da Universidade de Maryland, Carmen Reinhart deu, no início do mês, uma concorridíssima palestra na Universidade de Yale sobre as razões e especificidades da mais recente crise financeira global. Reinhart, que conversou com exclusividade com a CartaCapital depois de também apresentar sua visão – pessimista – do cenário econômico global no simpósio anual do Federal Reserve (FED), é uma das autoras de Oito Séculos de Delírio Financeiro, publicado no Brasil pela Campus e um best-seller nos EUA, resultado do minucioso estudo das crises financeiras planetárias nos últimos 800 anos. Seu parceiro na empreitada – o livro é considerado obrigatório para se entender os motivos da atual crise financeira global – foi o professor Ken Rogoff, da Universidade de Harvard, colega de Reinhart no FMI, no qual ocupou o cargo de economista-chefe entre 2001 e 2003.
A acadêmica norte-americana de origem cubana diz que a crise deve durar pelo menos mais uma década, que os emergentes devem sair lucrando com a retração do crescimento dos países desenvolvidos, concorda com o governo Lula sobre a necessidade de reformulação do FMI e do Banco Mundial e manda um recado para quem vier substituir o ex-líder operário: a política cambial precisa ser mais incisiva mas é necessário ao mesmo tempo reconhecer que o Real será um moeda mais forte nos próximos anos e diminuir gradativamente os juros internos afim de diminuir a atração dos investidores externos.
Abaixo segue a íntegra da conversa com a tão assertiva quanto simpática professora Carmen Reinhart:
CartaCapital: Passados dois anos da explosão da crise, qual o balanço da resposta do governo Obama à maior recessão econômica nos EUA desde os anos 30?
Carmen Reinhart
: Um mix de medidas boas e ruins. Estou desapontada com o fato de estarmos repetindo os erros do Japão e não ser agressivos na reforma dos balanços do setor bancário. O Tesouro se intimidou frente ao tamanho do problema e hoje, aqui nos EUA, vamos fingindo que está tudo bem no setor bancário, que há mais transparência na área de investimentos e de crédito, e não há. Neste aspecto, a política do governo Obama foi bem falha. Mas tanto a velocidade dos pacotes de estímulo econômico quanto a nova política monetária são pontos positivos. Claro, houve falha na hora de se transformar o estímulo em política real, em sua execução, mas o movimento de se fazer algo grande e rápido foi adequado.
CC: A senhora não concorda então com seu colega Paul Krugman, que aponta o tamanho dos pacotes de estímulo econômico – segundo ele muito tímidos – como a principal razão para a economia norte-americana não ter voltado a deslanchar este ano…
CR
: O problema foi a eficiência do governo, a capacidade de transformar a injeção de recursos em ações que gerassem emprego, que esquentassem a economia. O problema não é o tamanho do estímulo, mas a maneira como o investimento foi executado. Sim, no furacão da crise, no começo do governo Obama, o estímulo poderia ser maior. Mas esta crise não começou com uma deficiência de políticas do Poder Executivo ou de uma retração natural da demanda. A crise foi causada exclusivamente pelo setor financeiro,  pela baderna que lá se instaurou. É importante relembrar as pessoas da origem desta crise. Agora estamos reagindo, aqui nos EUA, não às causas da crise, mas aos resultados desta crise – o desemprego brutal e as deficiências na demanda. Esta crise não vai se resolver até que o setor financeiro lide com suas profundas deficiências.

CC: Não há como verificar de fato a natureza das operações do setor financeiro, por conta da inexistência real do que aqui se chama de “clean balance sheet”…
CR: Exato! Há todos os investimentos e empréstimos que não se explicam. O setor financeiro não é regido por regras normais, de qualquer outra indústria. É exatamente como  a crise japonesa, com o governo dando garantia aos bancos em empréstimos que, novamente, não se justificam. O governo induz os bancos a um delay, ao lucro relacionado com o atraso não-punido, que é muito problemático. Este é um problema sério, fundamental para a resolução da crise, que não se resolve nem desvalorizando o dólar nem colocando mais dinheiro na economia. Uma das maiores lições do caso do Japão foi que o adiamento da decisão de depreciar os valores das dívidas foi letal para a recuperação econômica do país.
CC: Japão e EUA são duas sociedades bem diversas. Durante o período mais duro da estagnação japonesa o partido governista manteve-se no poder. Mas aqui nos EUA há indícios de que o governo Obama pagará um preço caro nas eleições de 3 de novembro…
CR: Sim, especialmente porque as pessoas, os eleitores, não parecem entender que o alto índice de desemprego é resultado de uma recessão anormal. Não enfrentávamos uma crise tão severa desde 1930.

CC: A senhora diria que a administração democrata não conseguiu explicar para os eleitores que vive-se um período extraordinário?
CR: O governo Obama tem sido extremamente relutante em revelar a dimensão real da crise para a população. Em Oito Séculos mostramos que a mesma ideia de excepcionalismo econômico – “as regras que se aplicam a outros países, não se aplicam ao mercado norte-americano_ usada no boom econômico, repete-se na crise. Ninguém concorda que precisamos olhar para o Japão. Ora, somos os EUA, não precisamos de reforma financeira ou bancária.

CC: A senhora insiste neste tópico…
CR: Sim, e a América Latina é o melhor exemplo do momento. Vocês viveram uma década em que os grandes montantes de endividamento paralisaram as economias. É o que hoje enfrentamos nos EUA e nas economias dos países desenvolvidos. Na América Latina as conseqüências do chamado debt overhang são muito mais severas, porque se perde acesso ao capital internacional. Mas o jogo não é o mesmo com as economias desenvolvidas, exceção feita recentemente à Comunidade Européia, no caso da Grécia. Mas o importante é saber que o problema é o mesmo que vocês enfrentaram, e por conta disso, não adianta o governo Obama tentar resolver com política monetária e estímulo. Não vai adiantar. Vocês, no Brasil, sabem bem disso.

CC: Voltando às eleições, a senhora vê alguma perspectiva de o quadro se reverter a médio prazo, ferindo menos a tentativa de reeleição de Obama em 2012?
CR
: Não. Estudei o chamado Index de Miséria e sua relação com o ciclo eleitoral em todas as crises econômicas da democracia americana. Desemprego e inflação, juntos, determinam o resultado das eleições. De todas elas desde a fundação do país. Por isso, no encontro do FED, disse claramente que era pessimista no que se refere a uma recuperação a médio prazo da economia americana. Meu tema foi Depois da queda e mostrei que a década após uma crise financeira é sempre muito ruim tanto em relação ao crescimento do PIB quanto da geração de empregos.

CC: E anteriormente não haviam outros complicadores, como a transferência contínua de empregos, antes e durante a crise, para economias em desenvolvimento, como China e Índia…
CR: Você está absolutamente correto. Por isso precisamos olhar para a Crise de 1930, as crises japonesas e a nórdica, eminentemente bancária, nos anos 90, mas levando em conta que elas não aconteceram em um mundo globalizado como o de agora. Os mercados emergentes estão se saindo bem neste momento, este não é o fim do mundo, mas esta é uma década que, se repetir o padrão das 15 outras crises mais severas desde a Segunda Guerra Mundial, será de crescimento zero de comércio e de índice desemprego 5% mais alto do que o normal.
CC: A senhora diria que é também uma constante a diminuição de poder global das economias mais afetadas pelas crises, no caso, hoje, os EUA?
CR: Sim, é inevitável. Países credores, historicamente, tem mais influência política, com ou sem crise. E não há país credor mais importante hoje do que a China. É quem tende a aumentar o poder global neste momento.

CC: E o Brasil?
CR: O Brasil está numa posição forte, especialmente porque decidiu corajosamente combater a dívida externa e, em menor nível, a interna. Exatamente quando as grandes economias e os países emergentes do Leste Europeu acumulavam dívidas. Não me canso de frisar a importância de o Brasil ter limado sua dívida externa. Trata-se hoje de uma economia muito mais resistente. Pense numa casa. Se você pede dinheiro emprestado para pagar a hipoteca e o salário do chefe da família é cortado, a coisa fica complicada. Como pagar a hipoteca? Os países do Leste Europeu estão tendo de lidar com esta realidade. Agora, no caso do Brasil, é como se o salário tivesse sido cortado, mas o chefe da família foi prudente, não contraiu dívidas, pode enfrentar o choque de forma bem mais suave. Há algo importante para se dizer: m relação às grandes economias do planeta, aos mercados emergentes e à sua própria História, o Brasil nunca esteve em posição tão privilegiada, em termos de endividamento, quanto durante a crise financeira global. A questão agora é se o novo governo manterá esta lição para o futuro.
CC: A senhora poderia ser mais explícita?
CR
: A tentação óbvia é a de se contrair empréstimos. Investidores, no momento, estão se atracando para aplicar no Brasil. Mas já vimos este filme antes.

CC: Incluindo a sobre-valorização do Real frente ao Dólar…
CR: Sim, e o governo Lula está repetindo a estratégia de aumentar ou criar taxas na tentativa de inibir a fome dos investidores, como já se fez antes em Brasília. Sou velha ao ponto de lembrar dos primeiros momentos do Plano Real, do influxo absurdo de capital e depois da dolorosa desvalorização feita no governo FHC. O problema era o mesmo. E veja bem, sou favorável a  mecanismos mais rígidos de controle de capital. Mas o que de fato me preocupa é que, se as taxas de juros continuarem altas, não tem jeito, pode-se interferir o quanto Brasília quiser, investidores estrangeiros continuarão a achar a taxa de retorno uma das mais atraentes do planeta, ainda mais em um momento que a maioria das economias reduz drasticamente os juros, como os EUA. E o que ainda não foi bem digerida, para ser educada, nos meios econômicos brasileiros, é a lição aprendida por países que conseguiram controlar este fluxo de capital estrangeiro, como o Chile, que investiram pesado na redução dos juros internos. E, goste-se ou não, os setores produtivos brasileiros teráo de se adaptar gradualmente à idéia de um Real mais forte. Não digo isso por ser dogmática. Mas os efeitos de crises como a que vivemos agora são imensos, intensos e persistentes.

CC: O que o novo governo deve fazer então?
CR: Não há como lutar indefinidamente, com sucesso, contra alguma apreciação da moeda, com o nível atual de mobilidade de capital no planeta. Sei que ninguém quer ouvir isso agora, especialmente às vésperas de uma eleição tão importante, mas o novo governo precisará reduzir os gastos fiscais, que pressionam o câmbio, e também o investimento público em bens não-comerciáveis. Que ninguém no Brasil espere que os juros nos EUA vão subir a curto prazo, a política é exatamente a inversa. Não há bala de prata neste caso para quem vier a suceder Lula.

CC: De qualquer modo, nos próximos 10 anos, se a senhora tivesse de fazer a palestra que fez para o FED para economistas brasileiros, diria que o horizonte no Brasil é um pouco melhor do que o dos EUA?
CR
: Sem dúvida nenhuma. No entanto, declarações prematuras de vitória são os tendões de Aquiles dos mercados emergentes. Em 1998, antes da desvalorização do Real, a Argentina era a queridinha, o exemplo a ser seguido, pela comunidade financeira internacional. Precisamos ser cautelosos, embora esta década parece estar mesmo ser destinada a ser dos mercados emergentes. Que o Brasil seja cauteloso e use este cenário para não contrair dívidas. De novo: a tentação é grande.

CC: A senhora trabalhou no FMI. Concorda com a posição do governo Lula da necessidade de uma reforma na instituição, assim como no Banco Mundial, por conta do avanço dos emergentes?
CR: Lula está certíssimo. Penso que o poder de voto no FMI, por exemplo, precisa refletir a realidade econômica. Ainda quando seja inconveniente para as economias desenvolvidas. O que Lula propõe é o que nós, americanos, chamamos de catch-up, colocar a conversa em dia, os pingos nos is.

CC: A pergunta de um milhão de dólares: como os países desenvolvidos vão sair desta crise?
CR
: Para ser sincera, creio que uma das coisas que veremos será uma maior repressão financeira. Não existe jeito suave, como vocês bem sabem, no Brasil, de diminuir dívida. Não é apenas um realinhamento. É reestruturação ou quebradeira. É necessário austeridade, que ninguém gosta. É um cenário semelhante ao que as economias desenvolvidas enfrentaram depois da Segunda Guerra Mundial, quando estavam endividadas até o pescoço. E repressão financeira não é nada mais do que uma taxa, um imposto escondido, que todos pagam. Não tem jeito. Por isso estou chocada com a reação até branda contra a falta de punição, até o momento, na indústria financeira, que segue se premiando. E, deixando de lado qualquer julgamento ético, para sair desta crise só há um caminho: a redução, a diminuição, da indústria financeira. A parcela do setor financeiro no mercado está inchada. Nos anos 20 do século passado houve esta expansão também. Veremos nos próximos anos uma contração do setor, que ajudará os governos a lidar com suas dívidas e diminuir os juros internos. Estamos nos movendo para o que chamo de regulamentação prudente.

sábado, 23 de outubro de 2010

Uma nova liberdade no horizonte do Brasil


Por Humberto Oliveira*

O governo Lula representou o rompimento com mais de 500 anos de história política, de forte enraizamento cultural, de preconceitos sólidos. Saberemos ser uma nação civilizada? Como viveremos sem os pobres? Quem trabalhará em nossas cozinhas, em nossas fazendas com baixos salários e diárias? Como faremos nossas caridades, quem necessitará da nossa piedade? Que privilégios teremos sendo todos tão semelhantes, tão iguais? Como conviver sem a superioridade dos sobrenomes nas universidades, nas profissões, nas ciências, na política? Como compartilhar espaços de convivência, antes tão restritos, nos aviões, nos hotéis, nos cinemas, nos teatros e nos palácios? O artigo é de Humberto Oliveira.
Você é a favor da liberdade dos escravos? Você é a favor do fim da pobreza no Brasil? Duas perguntas, dois contextos, duas épocas. A primeira, totalmente descontextualizada, teria hoje 100% de aprovação do povo brasileiro. A segunda, completamente atual, ainda que não assumida de forma tão clara e explícita, é uma contenda do presente que ganhou veemência neste processo eleitoral. De comum entre elas, as conseqüências de uma intensa ruptura no modo de ser de uma nação.

Pois bem, tratemos de explicitar o que se esconde no jogo político das eleições presidenciais. Não é por acaso que a disputa eleitoral de 2010 alcançou um nível tão alto de antagonismo, despertando paixões em quase todos os setores da sociedade brasileira. O governo do presidente Lula colocou o Brasil no caminho de uma profunda transformação que o eleva a perigosa condição de um país moderno, sem fome, sem miséria, sem pobreza, sem desigualdades.

É pouco? Não, é o rompimento com mais de 500 anos de história política, de forte enraizamento cultural, de preconceitos sólidos. Saberemos ser uma nação civilizada? Como viveremos sem os pobres? Quem trabalhará em nossas cozinhas, em nossas fazendas com baixos salários e diárias? Como faremos nossas caridades, quem necessitará da nossa piedade? Que privilégios teremos sendo todos tão semelhantes, tão iguais? Como conviver sem a superioridade dos sobrenomes nas universidades, nas profissões, nas ciências, na política? Como compartilhar espaços de convivência, antes tão restritos, nos aviões, nos hotéis, nos cinemas, nos teatros e nos palácios?

Essas profundas mudanças que estão em curso no Brasil, que têm origem no governo Lula e terão continuidade no governo Dilma implantam pavor e preconceito na grande maioria da elite brasileira e na parte mais conservadora da nossa sociedade. Por isso há um debate disfarçado de religiosidade utilizado pelo conservadorismo político, daqueles que não querem que o Brasil siga mudando. A maior prova desse argumento é que não há um único segmento específico contra o projeto Lula/Dilma.

Parte da elite brasileira, a que é moderna, produtiva e progressista está apoiando a candidatura Dilma, assim como a maioria dos religiosos, dos intelectuais, da classe média, da juventude, dos professores e de todos aqueles brasileiros e brasileiras que não teriam dúvida no século XIX em lutar contra a escravidão e que passarão para a história como aqueles que não tiveram a dúvida contemporânea em escolher no século XXI o projeto político que põe fim a pobreza e a miséria e libertam do jugo da exploração o povo pobre do Brasil.

Comparativamente aos anos 1880, estamos nos aproximando do momento em que uma mulher, Dona Isabel, princesa imperial do Brasil, assinaria por definitivo a Lei Áurea. E, como em todo fim de uma era, as resistências são truculentas e coléricas. Analogamente, a campanha de Serra representaria a última trincheira da mais feroz resistência ao fim da escravidão.
Por sorte, o Brasil segue seu rumo em direção ao futuro, com orgulho do presente, com apoio de 80% dos que aprovam o governo Lula e que elegerão Dilma presidente. Estabelecendo essa analogia com a luta pela libertação dos escravos, na luta pelo fim da pobreza os intelectuais de hoje são os Joaquim Nabuco de outrora, os atuais artistas, os Castro Alves de antanho e o povo brasileiro de agora, os que lutaram pela libertação dos seus irmãos escravizados pela elite conservadora daqueles tempos. Surge uma nova liberdade no horizonte do Brasil.

(*) Humberto Oliveira é Secretário de Desenvolvimento Territorial do MDA

Educação superior em Lula x FHC: a prova dos números


Por Naomar de Almeida Filho (*)

Um jornalista que se apresenta como um dos mais acessados do Brasil (Reinaldo Azevedo, articulista da Revista Veja, diga-se de passagem, destorce todas as notícias, um verdadeiro cabo eleitoral de Serra) pretendeu "desmontar" a política do governo Lula na educação superior. Fiquei interessado no tema. Fui reitor de uma universidade federal durante quatro meses no governo FHC e quase todo o tempo do Governo Lula, o que me permite a rara situação de, na condição de gestor público, poder comparar os distintos cenários de política de educação superior. Minha área de pesquisa é a Epidemiologia. Nessa condição, trabalho com modelagem numérica e técnicas quantitativas de análise, num campo onde exercitamos uma quase obsessiva busca de rigor, validade e credibilidade. O artigo é de Naomar de Almeida Filho.
Um jornalista escreveu em seu blog, auto-apresentado como um dos mais acessados do Brasil: “Provei com números que o que ele [o Governo Lula] fez mesmo foi aumentar o cabide de empregos nas universidades federais, aumentar a evasão e o número de vagas ociosas.”

Fiquei muito interessado no tema, por dois motivos: Primeiro, porque fui reitor de uma universidade federal durante quatro meses no governo FHC e quase todo o tempo do Governo Lula, o que me permite a rara situação de, na condição de gestor público, poder comparar os distintos cenários de política de educação superior. Segundo, porque minha área de pesquisa é a Epidemiologia. Nessa condição, trabalho com modelagem numérica e técnicas quantitativas de análise, num campo onde exercitamos uma quase obsessiva busca de rigor, validade e credibilidade. Isto porque uma eventual contrafação ou fraude estatística pode custar vidas, produzir riscos ou aumentar sofrimentos.

Assim, procurei, no blog do jornalista, a prova dos números. Encontrei, numa postagem de 24/08/2010 – arrogantemente intitulada “A fabulosa farsa de ‘Lula, o maior criador de universidades do mundo’. Ou: desmonto com números essa mentira” – três blocos de questões: aumento de vagas e matrículas; evasão na educação superior; empreguismo na rede federal de ensino. Analisarei cada uma delas, demonstrando que essas “provas de números” são refutadas em qualquer exame sério de validade técnica ou metodológica.

No primeiro bloco, referente a aumento de vagas e matrículas, achei as seguintes afirmações:

“A taxa média de crescimento de matrículas nas universidades federais entre 1995 e 2002 (governo FHC) foi de 6% ao ano, contra 3,2% entre 2003 e 2008 - seis anos de mandato de Lula. [...] Só no segundo mandato de FHC, entre 1998 e 2003, houve 158.461 novas matrículas nas universidades federais, contra 76.000 em seis anos de governo Lula (2003 a 2008).”

Aqui o jornalista comete erros primários (ou de má-fé) de análise de dados. Qualquer iniciante em análise estatística, demográfica ou educacional sabe que não faz sentido comparar um período de oito anos com outro de seis anos, ou este com outro de quatro anos; mais ainda se usarmos médias aritméticas ou números brutos; e pior ainda se considerarmos (como ele bem sabe) que o principal programa de expansão das universidades federais, o REUNI, começa a receber alunos justamente depois de 2008.
Além disso, usa dados errados. Eis os dados corretos de matrículas nas IFES:

2001 - 502.960
2002 - 531.634
2003 - 567.850
2004 - 574.584
2005 - 579587
2006 - 589.821
2007 - 653.022
2008 - 720.317
2009 - 917.242
2010 - 1.010.491

(fonte: INEP e ANDIFES)


Não precisamos questionar os indicadores do governo FHC; consideremos a credibilidade destes como de responsabilidade do jornalista. Mas, com os dados da pequena tabela acima, podemos demonstrar que, considerando todo o período do governo Lula, o volume total de matrículas nas federais aumentou 90,1%. Portanto, a taxa média de crescimento de matrículas nas universidades federais, entre 2003 e 2010, não foi de 3,2% e sim de 11% ao ano.

Também, no que concerne à segunda afirmação, em seis anos de governo Lula (2003 a 2008), de fato ocorreram 188.683 novas matrículas nas universidades federais, e não, como afirma o jornalista, apenas 76.000 (aliás, números redondos são em geral suspeitos: sugerem ausência de fonte). Uma comparação tecnicamente mais correta será entre os dois segundos mandatos: entre 1998 e 2003, segundo mandato FHC, houve 158.461 novas matrículas; entre 2007 e 2010, segundo mandato Lula, foram exatas 478.857 novas matrículas registradas nas universidades federais. Ou seja, contrastando períodos equivalentes, o operário Lula abriu 200% mais vagas novas em universidades federais que o intelectual FHC.

No segundo bloco de questões levantadas pelo jornalista, o assunto era evasão na educação superior. Ele escreveu:

“O que aumentou brutalmente no governo Lula foi a evasão: as vagas ociosas passaram de 0,73% em 2003 para 4,35% em 2008. As matrículas trancadas, desligamentos e afastamentos saltaram de 44.023 em 2003 para 57.802 em 2008. [...] A Universidade Federal do ABC perdeu 42% dos alunos entre 2006 e 2009.”

O jornalista confunde evasão com ociosidade. Aliás, não sei de onde ele tirou os dados que indicariam um aumento “brutal” de evasão nas universidades federais no governo Lula. Não tenho conhecimento de nenhuma base de dados que recolhe e computa informação sobre “vagas ociosas” que, a propósito, tem definições variadas e divergentes dentro da autonomia das diferentes instituições. Sobre trancamentos, desligamentos e afastamentos, novamente o jornalista comete erros primários (ou de má-fé) na análise de dados.

Qualquer iniciante em análise estatística, demográfica ou educacional sabe que um aumento bruto de 44.023 para 57.802 afastamentos nada significa sem comparação das proporções relativas. Ocorreram mais afastamentos simplesmente porque o sistema recebeu mais matrículas, de 567 mil para 720 mil no período considerado. Usemos os percentuais respectivos: entre 2003 e 2008, a taxa de afastamentos passa de 7,7% para 8,0%, uma variação insignificante. Onde está o “salto”?

O estudo mais abrangente sobre o tema evasão na educação superior no Brasil foi realizado pelo Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia. De acordo com essa pesquisa (Silva Filho et al 2007), a evasão anual média do Brasil, entre 2000 e 2005, foi de 22%. Essa taxa foi mais de duas vezes menor nas instituições públicas, em torno dos 12%, que nas instituições privadas, quase 26%. No que se refere às áreas, a maior evasão média anual ocorreu na formação em Serviços, com 29%; seguida por Ciências Naturais, Matemática e Computação, 28%, e Ciências Sociais, Negócios e Direito, 25%. A menor evasão foi em Ciências da Vida, com 17%. Os cursos com maiores taxas anuais de evasão foram: Matemática, 44%, Marketing e Publicidade, 36%, Educação Física, 34%. Os cursos com menores taxas foram Medicina, com 5% e Odontologia, 9%. Notem que essas são taxas médias anuais.

Outra coisa são as estimativas de evasão no tempo do curso, ou seja, complemento matemático da taxa de sucesso. Estudo da USP (2004) avaliou que apenas 32% de seus alunos concluíram o curso no tempo previsto. Os restantes retardaram, mudaram ou desistiram do curso, nesse caso configurando uma taxa bruta de evasão que, no Brasil, entre 2000 e 2006, situou-se em 49%. Esse indicador é mais difícil de calcular e comparar, dada a diversidade na duração mínima dos cursos (no Brasil, de dois a seis anos), e na própria arquitetura curricular, muito distinta entre os diferentes modelos de universidade. Não obstante, para efeito limitado de comparação internacional, alguns dados da Unesco, no período de 2002 a 2006, mostram o Brasil numa situação intermediária: Coréia do Sul 22%, Cuba 25%, Alemanha 30%, México 31%, EUA 34%, França 41%, Brasil 49%, Colômbia 51%, Suécia 52%, Venezuela 52%, Itália 58%.

Com esses dados, analisemos a situação da UFABC, precursora do REUNI e, talvez por isso, posta no pelourinho. O jornalista e, em certo momento, a imprensa paulista, consideraram alarmante uma evasão de 42% em quatro anos. Puro desconhecimento do assunto. Se ajustarmos essa medida num parâmetro temporal preciso, encontraremos uma taxa anual de 11%, abaixo, portanto, da média nacional para instituições públicas e metade da taxa referente ao setor privado de ensino superior.

No terceiro bloco de questões, o jornalista denuncia a rede federal de ensino superior como “cabide de empregos”:

“Também cresceu espetacularmente no governo Lula a máquina ‘companheira’. Eram 62 mil os professores das federais em 2008 - 35% a mais do que em 2002. O número de alunos cresceu apenas 21% no período. [...] No governo FHC, a relação aluno por docente passou de 8,2 para 11,9 em 2003. No governo Lula, caiu para 10,4 (2008). É uma relação escandalosa! Nas melhores universidades americanas, a relação é de, no mínimo, 16 alunos por professor. Lula transformou as universidades federais numa máquina de empreguismo.”

O jornalista insiste em parar o tempo em 2008, desconhecendo o efeito do REUNI. Nesse aspecto, o conjunto das universidade federais começou a fazer investimentos a partir de 2008 (e isso incluiu naturalmente contratação de docentes e funcionários) para dar conta do crescimento do alunado no ano seguinte. Já em 2008, foram realizados concursos públicos para mais de 6.000 professores e 4.000 funcionários, para receber os 196.725 alunos novos que entraram nas 56 universidades federais em 2009. Com a matrícula dos dois semestres deste ano de 2010, o sistema federal ultrapassou 13 alunos por docente, mantendo a razão 18 alunos/docente como meta pactuada do REUNI para 2012. De fato, enquanto o corpo docente da rede universitária federal aumentou 35% de 2002 a 2008 e crescerá em 50% até 2012, nesse período, o alunado triplicará.

Apenas como exemplo concreto, posso apresentar o caso da UFBA: neste ano, matriculando 34.516 alunos de graduação, nossa instituição alcançou 16,4 alunos/docente. Passamos de 55 cursos de graduação em 2002, para 113 cursos em 2010, com aumento de vagas de quase 120%. Em 2002, oferecíamos 40 vagas em 01 curso noturno; em 2010, são 2.610 vagas em 22 cursos noturnos. Em relação à pós-graduação, os patamares efetivamente alcançados são ainda mais expressivos, com aumento de 150% em vagas e matrículas, sendo mais de 300% no doutorado. Fizemos tudo isso com apenas 416 novos docentes contratados em três anos.

A prova dos números com dados completos, tanto no sentido temporal (quando inclui matrículas até 2010) quanto no sentido político (apesar de o jornalista insistir em esconder o sucesso do REUNI), destrói seus argumentos enganosos. Resta-lhe o exercício da retórica raivosa. Máquina de empreguismo? Cabide de empregos? Essas grosserias insultam a todos nós, dirigentes, professores, servidores e alunos de universidades federais que, com grande esforço, estamos tornando a educação superior pública brasileira flagrantemente mais eficiente, competente, socialmente responsável.

Tendencioso, mal-informado, sem competência técnica em análise elementar de dados, o jornalista não passa na prova de números que ele mesmo propõe. Ainda bem que ele foi reprovado pois, nos planos macroeconômico e político, uma contrafação ou fraude estatística pode reduzir investimentos, desviar prioridades, suspender programas de governo, fazer retroceder estratégias, destruir políticas e atrasar o desenvolvimento social e humano do país.

(*) Pesquisador I-A do CNPq, Reitor da Universidade Federal da Bahia no período 2002-2010. Professor Titular de Epidemiologia, Instituto de Saúde Coletiva e do Instituto Milton Santos de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O dia em que até a Globo vaiou Ali Kamel






Fonte: http://www.rodrigovianna.com.br/radar-da-midia/o-dia-em-que-ate-a-globo-vaiou-ali-kamel.html


Passava das 9 da noite dessa quinta-feira e, como acontece quando o “Jornal Nacional” traz matérias importantes sobre temas políticos, a redação da Globo em São Paulo parou para acompanhar nos monitores a “reportagem” sobre o episódio das “bolinhas” na cabeça de Serra.
A imensa maioria dos jornalistas da Globo-SP (como costuma acontecer em episódios assim) não tinha a menor idéia sobre o teor da reportagem, que tinha sido editada no Rio, com um único objetivo: mostrar que Serra fora, sim, agredido de forma violenta por um grupo de “petistas furiosos” no bairro carioca de Campo Grande.
Na quarta-feira, Globo e Serra tinham sido lançados ao ridículo, porque falaram numa agressão séria – enquanto Record e SBT mostraram que o tucano fora atingido por uma singela bolinha de papel. Aqui, no blog do Azenha. você compara as reportagens das três emissora na quarta-feira. No twitter, Serra virou “Rojas”. Além de Record e SBT, Globo e  Serra tiveram o incômodo de ver o presidente Lula dizer que Serra agira feito o Rojas (goleiro chileno que simulou ferimento durante um jogo no Maracanã).
Ali Kamel não podia levar esse desaforo pra casa. Por isso, na quinta-feira, preparou um “VT especial” – um exemplar típico do jornalismo kameliano. Sete minutos no ar, para “provar” que a bolinha de papel era só parte da história. Teria havido outra “agressão”. Faltou só localizar o Lee Osvald de Campo Grande. O “JN” contorceu-se, estrebuchou para provar a tese de Kamel e Serra. Os editores fizeram todo o possível para cumprir a demanda kameliana. mas o telespectador seguiu sem ver claramente o “outro objeto” que teria atingido o tucano. Serra pode até ter sido atingido 2, 3, 4, 50 vezes. Só que a imagem da Globo de Kamel não permite tirar essa conclusão.
Aliás, vários internautas (como Marcelo Zelic, em ótimo vídeo postado aqui no Escrevinhador) mostraram que a sequência de imagens – quadro a quadro – não evidencia a trajetória do “objeto” rumo à careca lustrosa de Serra.
Mas Ali Kamel precisava comprovar sua tese. E foi buscar um velho conhecido (dele), o peritoRicardo Molina.
Quando o perito apresentou sua “tese” no ar, a imensa redação da Globo de São Paulo – que acompanhava a “reportagem” em silêncio – desmanchou-se num enorme uhhhhhhhhhhh! Mistura de vaia e suspiro coletivo de incredulidade.
Boas fontes – que mantenho na Globo – contam-me que o constrangimento foi tão grande que um dos chefes de redação da sucursal paulista preferiu fechar a persiana do “aquário” (aquelas salas envidraçadas típicas de grandes corporações) de onde acompanhou a reação dos jornalistas. O chefe preferiu não ver.
A vaia dos jornalistas, contam-me, não vinha só de eleitores da Dilma. Há muita gente que vota em Serra na Globo, mas que sentiu vergonha diante do contorcionismo do  “JN”, a serviço de Serra e de Kamel.
Terminado o telejornal, os editores do “JN” em São Paulo recolheram suas coisas, e abandonaram a redação em silêncio – cabisbaixos alguns deles.
Sexta pela manhã, a operação kameliana ainda causava estragos na Globo de São Paulo. Uma jornalista com muitos anos na casa dizia aos colegas: “sinto vergonha de ser jornalista, sinto vergonha de trabalhar aqui”.
Serra e Kamel não sentiram vergonha.

Serra e o vídeo da Rede Globo

POR JOSÉ ANTONIO MEIRA DA ROCHA
23 DE OUTUBRO DE 2010
PUBLICADO EM: JORNALISMO INVESTIGATIVO
Esta matéria investigativa tem o objetivo didático de mostrar aos meus alunos como se faz análise de material digital. A fim de despertar interesse dos estudantes, uso um fato midiático de grande repercussão, embora de importância reduzida.
O perito em áudio Ricardo Molina de Figueiredo sustenta que um vídeo de celular identificou um rolo de fita adesiva batendo na cabeça do candidato à presidência do Brasil, José Serra, em passeata. Uma mancha identificada como rolo de fita adesiva aparece em apenas um quadro do vídeo. Decupado quadro a quadro, já mostrei que o “rolo” é apenas um artifact de compressão de vídeo: um defeito de compressão que aparece como um quadrado de bordas bem definidas, retas, com o interior borrado e difuso.
A justificativa de Molina para a mancha aparecer em apenas um único quadro do vídeo é de que a velocidade do rolo de fita seria muito alta, cerca de 40 km/h.
A dúvida que um jornalista investigativo deve procurar responder é: a fita arremessada poderia ser captada em um vídeo de celular?
Para testar a hipótese, montei facilmente um Serra falso (que batizei de SerraBuster) e atirei com força — mas sem raiva — um rolo de fita crepe em sua cabeça (não tentem fazer isto em casa ou com o candidato verdadeiro). Gravei, com o programa Linuxffmpeg, um vídeo a 15 quadros por segundo e dimensões de 320 x 240 pixels, em formato mpeg4, semelhante ao formato 3GP usado em celulares. A linha de comando foi esta:
ffmpeg -t 600 -f video4linux2 -s 380x240 -r 15 \
-i /dev/video1 -f mp4 webcam.mp
A qualidade de webcâmera é melhor do que a do celular. Mas, o que importa, neste caso, é a taxa de quadros por segundo. Depois, salvei o trecho em imagens jpeg, pelo programa Avidemux. O resultado aparece na sequência abaixo:
Serra, fita crepe, metro e webcâmera
A distância entre as duas posições do rolo, antes de bater na cabeça falsa de SerraBuster e deixá-lo meio grogue, foi de 70 cm, aproximadamente. Os quadro de vídeo são capturados a cada 66,6 milésimos de segundo (um segundo dividido por 15 quadros). Regra de três que todo jornalista deve saber fazer: se o rolo percorreu 0,7 metro em 0,066 segundo , em uma hora (3600 segundos) teria percorrido 37,8 quilômetros (0,7 m × 3600 s ÷ 0,066 s). Velocidade de 38 km/h, aproximadamente os 40 km/h que Molina alega que a suposta fita adesiva teria.

Indício de fraude

No laudo preparado por Molina, ele diz que o celular captou um quadro a cada 500 milissegundos. Isso equivale a 2 quadros por segundo (frames per second — fps), taxa completamente irreal.
‘O fato de a filmagem não mostrar a trajetória do objeto no evento “fita” está dentro das expectativas. Com efeito, o celular usado na captação das imagens, captura poucos frames por segundo, como se pode depreender do intervalo de quase 500 ms entre frames consecutivos. Assim, supondo que o objeto se deslocasse a cerca de 40 km/h, o que equivaleria a 11.11 m/s, a definição “espacial” do celular usado seria de aproximadamente 5.6 m, ou seja, como o celular só capta um frame a cada 500 ms, seria impossível captar qualquer imagem da trajetória do objeto que atingiu o candidato à distância em que se encontrava o repórter da Folha que realizou as imagens.’ (MOLINA, 2010)
A análise do vídeo da Rede Globo mostra que cada quadro foi duplicado. A TV NTSC tem 29,97 quadros por segundo. O vídeo do celular tem então metade desta taxa, cerca de 15 quadros por segundo.
Pelo Avidemux no meu Linux Ubuntu, verifiquei que vídeo original (segunda cópia, na verdade) publicado pela Folha.com tem 913 quadros em 30,491 segundos (29,94 fps), mas muitos quadros também estão duplicados, em função de sua conversão para Flash video (flv).
Em uma amostragem rápida de 112 quadros em 3,7 segundos, 2 quadros estão repetidos 6 vezes, 4 quadros estão repetidos 4 vezes (são, então, 6 quadros em vez de 28 quadros) e os 84 restantes aparecem 2 vezes. Isso resulta em 2 + 4 + 42 = 48 quadros em 3,7 s, ou aproximadamente 12,97 fps.
A uma taxa de quadros próxima a esta, em meu experimento com SerraBuster, claramente se vê que o rolo de fita adesiva deveria aparecer como um borrão comprido e claro, em dois quadros antes de bater na cabeça de Serra, e em vários quadros depois, já com velocidade bastante diminuída.

500 milissegundos? Wow! (o que é milissegundo?)

Num vídeo a 13 fps, 77 milissegundos por quadro, a fita adesiva apareceria em aproximadamente 6 quadros durante 462 milissegundos.
Mas se os quadros fossem captados a cada 500 milissegundos ou meio segundo (2 fps), o suposto objeto apareceria em apenas UM frame. Perceberam porque os “500 milissegundos” do laudo, que surgiu de lugar algum? Será que o perito achou que a palavra “milissegundos” assustaria tanto que ninguém iria conferir a taxa de quadros por segundo?
Este simples procedimento mostra que o laudo do perito em áudio Molina comete um erro grosseiro, incompatível com alguém com conhecimentos em vídeos digitais ou analógicos. Foi descuido ou foi proposital? Como um perito com perfil tão laudatório na Wikipedia (estranhamente enriquecido por  desconhecidos e por um Darth Vader paulista, logo depois do laudo) poderia ter cometido este erro?

Caveat

Esta investigação não prova que o candidato Serra não foi atingido por fita adesiva, apenas prova que o vídeo apresentado em matéria de 7 minutos pelo Jornal Nacional não mostra o suposto ataque.

Bibliografia

  1. MOLINA, R. SERRA_LAU_IMAGENS_TV GLOBO_LAU.doc. Laudo solicitado pela TV Globo sobre vídeo de passeata de José Serra. Documento PDF disponível em <http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/10/molina-divulga-laudo-sobre-videos-de-evento-em-que-serra-e-agredido.html>. Acesso em: 23 out. 2010.


Professor de jornalismo gráfico desmonta vídeo quadro a quadro e aponta truque de compressão de imagens
Por Antonio Martins*, originalmente publicado no site Outras Palavras
Urgente (22/10, 12h16): Desde o final da manha desta sexta (22/10), o site do professor José Antonio Meira da Rocha (http://meiradarocha.jor.br) foi bloqueado pela empresa que o hospeda — no que pode ser um caso grave de censura na internet. Em decorrência, as imagens que sustentavam a hipótese levantada por ele desapareceram, em dezenas de blogs que reproduziam suas informações.
O material foi republicado, em seguida, no blog Marxismo On-Line, de Leonardo Arnt — de onde foi reproduzido por Outras Palavras

O Jornal Nacional de ontem fez lembrar o envolvimento da Rede Globo na disputa presidencial que elegeu Fernando Collor, em 1989. Nada menos que 7 minutos foram dedicados à tentativa de demonstrar que José Serra fora atingido, na véspera, por um rolo de fita adesiva. Convocou-se Ricardo Molina, um “especialista” cujo currículo inclui a tentativa de acusar o MST pelo massacre de Eldorado de Carajás, de “assegurar” que PC Farias se suicidou e de questionar as provas sobre a responsabilidade da família Nardoni na morte da menina Isabela. Procurava-se frear a onda de indignação (e de deboche) que correu o país, quando se soube, horas antes, que a “agressão” sofrida na véspera pelo candidato do PSDB fora provocada por uma bolinha de papel. Não, tentou afirmar o Jornal Nacional: a tomografia a que se submeteu o candidato justificava-se. Ele havia sido atingido também por um rolo de fita adesiva…
Até mesmo esta versão está sendo contestada agora. José Antonio Meira da Rocha, professor de Jornalismo Gráfico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), analisou as imagens do Jornal Nacional quadro a quadro e chegou às seguintes conclusões, publicadas em seu blog: a) o suposto rolo de fita crepe, ou durex, não aparece em nenhum dos quadros anteriores ou posteriores ao momento em que se “choca” com a cabeça de Serra. Teria surgido do nada; b) um truque elementar na manipulação de vídeos (um artifact de compressão) é suficiente para gerar imagem idêntica à exibida no Jornal Nacional.
A análise de Meira Rocha pode ser conferida abaixo. Adicionalmente, um post no blog de Luís Nassif mostra: o suposto “choque” da fita adesiva com a cabeça de Serra deu-se numa parte da cabeça totalmente distinta daquela em que, segundo seu médico, ele foi atingido…
Leia, a partir daqui, a análise do professor José Antonio Meira da Rocha
Toda a produção jornalística pode ser digitalizada. Tudo o que é publicado está à mercê de chatos que salvam, gravam, colecionam, digitalizam com plaquinhas de 120 reais. Como eu, que gosto de gravar TV na minha Pixelview PlayTV Pro.
Por isso, hoje, é inconcebível que a grande imprensa, sofrendo há muito com as mudanças provocadas pela digitalização, tente enganar seu digitalizado público com armações grotescas como esta aprontada pelo Jornal Nacional de 2010-10-22, com ajuda da Folha.com e do repórter Ítalo Nogueira.
Será que a velha mídia não se dá conta que qualquer pessoa pode gravar TV e passar quadro-a-quadro? E que, fazendo isto, a pessoa pode ver que não há nenhum rolo de fita crepe sendo atirado contra o candidato José Serra? Que o detalhe salientado em zoom numa extensa matéria de 7 minutos não passava de um artifact de compressão de vídeo sobreposto à cabeça de alguém ao fundo? Que não se vê no vídeo quadro-a-quadro nenhum objeto indo ou vindo à cabeça do candidato?
E a Globo ainda vai procurar a opinião de um “especialista” de reputação duvidosa
Tudo pode ser digitalizado, menos a credibilidade de um veículo jornalístico. E este único ativo que sobra à velha mídia, ela joga fora…
Veja a sequência abaixo e tente encontrar o rolo de fita voando em direção à cabeça do candidato.
Fita mágica 00
Fita mágica 02
Fita mágica 04
Fita mágica 06
Fita mágica 08
Fita mágica 10
Fita mágica 12
http://noticias.marxismo-online.com.br/arquivos/2010/10/fitacrepe/fita-magica0014.jpg
Fita mágica 16
Fita mágica 18
Observe aquela cabeça atrás de Serra…
Fita mágica 20
Fita mágica 22
Fita mágica 24
Fita mágica 29
Cadê o rolo chegando na cabeça de Serra, que deveria estar neste quadro?
Fita mágica 32
Fita mágica atinge John Fitzgerald Serra (imagem TV Globo/Folha.com)
Fita mágica 34
Cadê o rolo saindo da cabeça de Serra, que deveria estar neste quadro?
Fita mágica 36
Fita mágica 38
Fita mágica 40
Fita mágica 42
Fita mágica 46
Fita mágica 48
Fita mágica 50
http://noticias.marxismo-online.com.br/arquivos/2010/10/fitacrepe/fita-magica0052.jpg
Fita mágica 54
Fita mágica 56
Fita mágica 60
Fita mágica 61
http://noticias.marxismo-online.com.br/arquivos/2010/10/fitacrepe/fita-magica0062.jpg
Fita mágica 63
Fita mágica 64

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Biografia de José Serra

por Guina

 











Segue abaixo uma verdadeira biografia de José Serra, onde pode-se analisar friamente, porque o mesmo não reúne condição alguma para suceder Lula.

Biografia completa de José Serra:

José Serra tem 68 anos é paulista, filho único de italianos. Seu pai era um bem sucedido comerciante no ramo de frutas. José Serra foi criado em uma ampla e confortável casa na Mooca, São Paulo.
Quando Serra tinha 11 anos, sua família mudou para uma luxuosa casa em São Paulo na Rua Antônio de Gouveia Giudice, no bairro nobre de Alto Pinheiros.
Imóvel não era problema para a rica família Serra, que passava férias no Rio. Um dos espaçosos apartamentos foi cedido para Serra utilizar, exclusivamente, como esconderijo seguro para os grupo terrorista Ação Popular do qual foi um dos fundadores, que pouco tempo depois viriam a praticar atentados, roubar e seqüestrar.

Serra, neste período, ajudou a fundar a Ação Popular (grupo radical e adepto da luta armada que explodiu o aeroporto de Gurarapres em 25/07/1966).
Quando presidente da UNE vivia encangado na barra da calça de Jango.

Aos 18 anos, Serra ingressou no curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, o qual nunca concluiu. Com o golpe militar de 1964, ele exilou-se na Bolívia, no Uruguai e, em seguida, no Chile, onde fez o “Curso de economia” da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), de 1965 a 1966, especializando-se em planejamento industrial. Apenas 2 (dois) anos de curso! Quer dizer, não é um curso superior formal. Depois disso, fez mestrado em Economia pela Universidade do Chile (1968), da qual foi professor entre 1968 e 1973. Em 1974, fez Mestrado e Doutorado em Ciências Econômicas na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, sem nunca ter concluído uma faculdade. Como foi possível isso? No Chile e nos EUA não é exigido curso superior para fazer pós-graduação, o que não é permitido aqui no Brasil. Além disso, os cursos de pós-graduação que Serra cursou na Cornell (com que dinheiro não sei, porque são caríssimos) não são “strictu senso“ mas “lato senso“ como os fornecidos pela rede privada aqui no Brasil. Em suma: não valem nada em termos acadêmicos. Serra permaneceu 13 anos longe do Brasil. Autoexilando-se (ou melhor, fugindo) no Chile, junto com FHC ao invés de lutar pelo povo contra a ditadura. Na volta ao Brasil, logo locupletou-se com as elites brasileiras.

Em 1978, Serra iniciou a sua carreira política, que este ano completa 32 anos. Teve sua candidatura a deputado impugnada, pois estava com os direitos políticos suspensos devido à explosão do aeroporto de Guararapes. Foi admitido como editorialista do jornal que também apoiou a ditadura (Folha de São Paulo).

Em 1983, Serra iniciou, efetivamente, a sua carreira como gestor, assumindo a Secretária de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo, quando fez um péssimo trabalho. Braço direito do governador Montoro, não conseguiu sequer arrumou as finanças do Estado, sucateando ainda mais a Educação e a Saúde.

Em 1986, Serra foi eleito deputado constituinte, e teve um dos piores desempenhos, como pode-se conferir abaixo:

a) votou contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas;
b) votou contra garantias ao trabalhador de estabilidade no emprego;
c) votou contra a implantação de Comissão de Fábrica nas indústrias;
d) votou contra o monopólio nacional da distribuição do petróleo;
e) negou seu voto pelo direito de greve;
f) negou seu voto pelo abono de férias de 1/3 do salário;
g) negou seu voto pelo aviso pró prévio porcional;
h) negou seu voto pela estabilidade do dirigente sindical;
i) negou seu voto para garantir 30 dias de aviso prévio;
j) negou seu voto pela garantia do salário mínimo real;
Fonte: DIAP — “Quem foi quem na Constituinte”;pág. 621.

Serra foi um dos fundadores do PSDB, em 1988. Foi derrotado por Luiz Erundina, (á época do PT), nas eleições para prefeito de São Paulo. Em 1990, foi reeleito deputado federal quando teve novamente péssimo mandato.

Em 1994, Serra foi um dos grandes apoiadores do Plano de Privatização de Fernando Henrique Cardoso, deixando um rastro de enormes prejuízos para o povo brasileiro:
· 166 empresas privatizadas entre 1990 e 1999;
· 546 mil postos de trabalho extintos diretamente;
· 17,1% dos 3,2 milhões de empregos formais perdidos na década.
(Fontes: Pochmann, Márcio. A década dos mitos. São Paulo, Editora Contexto, 2001. Biondi, Aloysio. O Brasil privatizado. São Paulo, Editora Perseu Abramo, 2001)

Depois foi eleito senador por São Paulo, em seguida, assumiu o Ministério do Planejamento, onde por pura incompetência deixou o país à mercê de um racionamento durante o famoso “apagão” no governo FHC que durou Oito meses.

Em 1998, José Serra assumiu o Ministério da Saúde. Junto com FHC, zerou o investimento na área de saneamento, o que causou a propagação de várias doenças no país. Além disso, José Serra demitiu seis mil mata-mosquitos contratados para eliminar os focos do Aedes Aegypti. Dos R$ 81 milhões gastos em publicidade do seu ministério em 2001, apenas R$ 3 milhões foram utilizados em campanhas educativas de combate à doença. O resultado desta política criminosa se fez sentir no Rio de Janeiro que, entre janeiro e maio de 2002, registrou 207.521 casos da dengue e a morte de 63 pessoas.

Em 2002, Serra candidatou-se à Presidência, sendo derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno.

Em 2004, Serra elegeu-se Prefeito de São Paulo e prejudicou sua já arranhada imagem ao mentir para o povo de São Paulo quando no debate da Band, diante de Boris Casoy, afirmou que em caso de não cumprir a promessa, que seus eleitores nunca mais votassem nele. Disse ainda que “embora alguns candidatos adversários gostem de dizer que eu sairei candidato à presidência da República ou ao governo do estado, eu assumo esse compromisso, meu propósito, minha determinação é governar
São Paulo por quatro anos”. Deu sua palavra em rede nacional e depois voltou atrás, mentindo para o povo.

Em 2006, Serra elegeu-se Governador de São Paulo (confirmando que mentira mesmo ao povo), cargo que exerceu até o último dia 31 de março de 2010. O governo foi marcado pela tragédia no Metrô e o escândalo no Caso Alstom.

É o candidato natural da oposição à Presidência da República. Oposição esta composta pelo PSDB (partido à qual pertence o chefe do mensalão mineiro, Eduardo Azeredo e Yeda Crusius, governadora do RS, envolvida em um escândalo no Detran daquele estado). Ainda possui aliança com o DEM (partido do mensalão do DF no qual o ex-governador e principal operador do esquema, José Roberto Arruda, iria ser o candiato à vice de José Serra).

Como se vê, a biografia de José Serra nos revela como é perigoso para o povo brasileiro uma catastrófica vitória deste político "inventado" pela mídia nas próximas eleições. Sua candidatura representa a elite e possui o único intuito de deixar o povão cada vez mais distante das melhorias promovidas pelo governo Lula.


A biografia de José Serra revela ainda que, um homem aliançado com o DEM de José Roberto Arruda , ACM Neto e cia., e que anda de mãos dadas com políticos como FHC, Eduardo Azeredo e Yeda Crusius, não pode merecer qualquer crédito.

A verdadeira biografia de José Serra


 Fonte: http://setepalmos.wordpress.com/2010/05/26/a-verdadeira-biografia-de-jose-serra/

A questão nestas eleições acaba por ter tanto calor, que muitas palavras são ditas e o resultado final dos reflexos dos fatos e idéias nos jornais acabam completamente distorcidos – é a campanha da desinformação. A questão central, quando se analisa a biografia de um personagem, não deveria ser um levantamento de passagens vergonhosas ou vexatórias, mas em verdade realizar uma justaposição entre o passado e o presente do personagem, e tentar vislumbrar o que pode isso reservar para o futuro.
Este personagem em quadro, teve origem numa família de trabalhadores imigrantes, embarcando na vida pública através de atuação na política estudantil. Ele estava na condição de Presidente da UNE no momento em que houve o golpe Militar. Serra era visto como uma figura subversiva e perigosa, e segundo uma matéria super elogiosa da revista ‘Isto É’, teria comentado Costa e Silva a seu respeito: “Este não deixaremos ir embora. É muito perigoso”. Não se pode negar que ao menos os Generais eram nacionalistas.
E foi embora o “muito perigoso” José Serra, em busca de dar seqüência à sua vida acadêmica, abruptamente encerrada por ser considerado uma ameaça. No exterior, continuou os seus estudos, e existe grande controvérsia acerca de seus títulos acadêmicos. Já houve inclusive debates sobre o currículo de José Serra no Senado;  No exterior, é possível fazer um desempenho acadêmico em apenas dois anos, ser mestre ou se tornar Doutor, embora aqui no Brasil não o seja. Outrossim, a produção intelectual de José Serra no exterior é sólida e lhe deu a possibilidade de se ter o título de doutor por Cornell, uma das mais prestigiadas Universidades do Mundo, embora a página na Web da CEPAL, instituição que teria graduado José Serra em economia informe que a instituição não emite títulos acadêmicos ou de pós-graduação, mas apenas oferece cursos de extensão universitária.
O calcanhar de Aquiles da questão, não deveria ser fria como um curriculum vitae. Deveria ser uma analise do que produziu em idéias, e se existe relação entre as idéias produzidas por José Serra e a sua coerente performance política. Nas linhas do post Aliados de Ocasião, termino indicando dois textos. Em um deles, o Doutorando em Sociologia e Professor de Relações Internacionais Carlos Eduardo Martins em analise a respeito da Teoria da Dependência (escrita e composta por José Serra, reforço) assinala:
De um lado, surge a versão desenvolvida por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, com uma participação mais pontual de José Serra. Para esses autores a crise da industrialização latino-americana era a crise do projeto de constituição do capitalismo nacional, pautado na substituição de importações sob a coordenação do Estado nacional. A sua solução estaria em aceitar a penetração do capital estrangeiro que traria a poupança externa sob a forma de tecnologia industrial ou moeda mundial, superando a escassez nacional de divisas. O crescimento econômico permitiria uma melhoria na renda e nos padrões de vida da população em seu conjunto e as desigualdades se reduziriam com políticas sociais impulsionadas por regimes democráticos. (Grifei)
A idéia de afastar o Estado dos rumos do planejamento econômico, e de dar o protagonismo neste particular ao capital especulativo internacional são genes em seu DNA.
Em seqüência, ao retornar do exílio com a abertura política, José Serra desempenhou o papel de Deputado Constituinte, relator da Comissão do Sistema Tributário, Orçamento e Finanças. Quando se fala que o sistema tributário brasileiro é distorcido, complexo e arcaico, não se deve esquecer quem foi que coordenou os trabalhos que o consagraram. Não se pode sonegar os prejuízos que a emenda apresentada pelo então deputado federal José Serra acarretou aos Estados produtores de petróleo e energia elétrica, em restrito benefício de São Paulo.
Retiro um trecho do seguinte artigo publicado pelo DIAP, que trata das posições do constituinte José Serra, e transcreve em seu corpo opinião de Serra publicado no jornal Estado de São Paulo:
Independentemente das intenções dos seus autores, muitas propostas de dispositivos constitucionais têm apresentado dois tipos de desvios: a introdução de dispositivos de natureza corporativista, para beneficiar este ou aquele setor profissional, ignorando as despesas que acarretariam e as situações de privilégio socialmente inaceitáveis que implicariam; segundo, a enunciação de direitos e vantagens sem avaliar o custo e indicar as fontes de recursos que poderiam viabilizá-los.
Não obstante, é a clara representação da defesa do ideário neoliberal, composto pelo tripé estado mínimo, flexibilização dos direitos trabalhistas e corte de gastos. Como bem lembra o autor do texto em reflexão, Jeferson Barbosa da Silva, na página ao lado há artigo de Lula com o título: “Lula exige avanços na Carta”.
Por fim, conforme trecho do livro “Quem foi quem na Constituinte”, destacado no sítio do PHA, José Serra votou contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas, contra garantias ao trabalhador de estabilidade no emprego, contra a implantação de Comissão de Fábrica nas indústrias, contra o monopólio nacional da distribuição do petróleo, e se negou a votar em relação ao direito de greve, sobre o abono de férias de 1/3 do salário, o aviso prévio proporcional, pela estabilidade do dirigente sindical, a respeito dos 30 dias de aviso prévio e sobre a garantia do salário mínimo real.
Em outras estações, como Ministro de FHC, teve atuação destacada levando às últimas conseqüências o Plano nacional de Desestatização. Como Ministro do Planejamento, foi um dos maiores entusiastas das privatizações que geraram recordes de reclamações de consumidores e as mais altas tarifas do mundo. Coordenou a lambança cambial (evento que fez surgir o inimigo Ciro Gomes, então Ministro da Fazenda), que resultou na crise do inicio do segundo mandato de FHC, quando se pediu de joelhos ajuda ao FMI, e na falta de investimentos que explodiu no racionamento de energia elétrica e apagão. Em suma, como Ministro da pasta do Planejamento, aplicou todos os conceitos por ele formulados na Teoria da Dependência, mas não ocorreu nenhum dos efeitos que ele defendeu.
Como Ministro da Saúde, tenta colar a sua imagem tentando transformar uma política de Estado formulada e desenvolvida por Lair Guerra de Macedo Rodrigues e o professor Adib Jatene como se fosse uma obra sua. O Mesmo acontece em relação à outras políticas públicas, como os Genéricos. É prática comum ao PSDB se apropriar do trabalho alheio – basta lembrar que o Plano Real começou no Governo Itamar, e não no governo Cardoso.
Sobre fatos recentes, como a promessa em cartório quebrada ao renunciar no exercício da prefeitura paulista, sobre crises como o Metrô e a Alston, a publicidade nacional da Sabesp e enchentes, sobre a repressão policial contra universitários, professores e contra a própria polícia, não à toa a única alternativa que resta à campanha Serrista é trabalhar pela desinformação. Até mesmo na comparação de biografias, em meu modesto sentir o José Serra está perdido.