segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O colunismo monocórdio

Por Maurício Caleiro em 4/6/2009
Ao menos desde a reforma promovida por Cláudio Abramo nos anos 1970, a Folha de S.Paulo passou a apresentar como uma de suas características distintivas a pluralidade opinativa. Embora a linha editorial se evidenciasse nas pautas, matérias e reportagens – e mesmo na escolha dos colunistas "da casa" –, havia espaço para uma plêiade de opiniões que cobriam virtualmente todo o espectro político-ideológico. A principal dificuldade metodológica para empreender uma pesquisa do conteúdo discursivo do jornal advinha justamente dessa tendência à pluralidade – que uns reconheciam como autêntica e efetiva, enquanto outros acusavam tratar-se de mero recurso dissimulatório para o conservadorismo do jornal e álibi para torná-lo palatável a um público mais amplo.
Essa configuração plural faz parte do passado. Ora não apenas o conteúdo opinativo produzido por convidados na seção "Tendências/Debates" (pág. A3) e por não-jornalistas na página A2 tornou-se muito mais homogêneo, com amplo predomínio de representantes dos setores conservadores (em que pese a presença da ex-ministra Marina Silva), mas o próprio corpo de jornalistas responsáveis pelas colunas de opinião tem apresentado maior coesão e identificação ideológica entre si, com as honrosas exceções de Carlos Heitor Cony e, sobretudo, Janio de Freitas. Tal característica tem evidenciado a guinada conservadora do jornal sob o comando do diretor de Redação Otavio Frias Filho, que, além de mondá-lo de acordo com sua orientação político-ideológica, vem tornando o jornal muito mais repetitivo e tendencioso.
É exemplar desse novo estado de coisas o colunismo praticado na edição da segunda-feira (1/6), dia em que a rabujice habitual de Clóvis Rossi dá lugar à ex-grande promessa do jornalismo brasileiro Fernando de Barros e Silva. Ambos jornalistas são responsáveis por uma coluna chamada "São Paulo", mas a última coisa que o leitor vai encontrar no espaço é algo que se refira ao estado em questão, e muito menos ao governo Serra – o tema virtualmente único da coluna é a crítica implacável à presidência de Lula.
Interesses empresariais A bola da vez é, nas palavras de Barros e Silva, a "máquina de propaganda do lulismo", tema de reportagem de Fernando Rodrigues publicada pelo jornal no dia anterior (31/5), que revelou que o governo Lula adotou "uma política radical e sistemática" de pulverização da verba publicitária entre diversos veículos e mídias em substituição à tradicional concentração nos grandes grupos de mídia.
Vamos aos números:
"Em 2003, a Presidência anunciava em 499 veículos; em 2009, foram 2.597 os contemplados – um aumento de 961%. Discriminada por tipo de mídia, essa explosão capilarizada da propaganda oficial irrigou primeiro as rádios (270 em 2003, 2.597 em 2008), depois os jornais (de 179 para 1.273) e a seguir o que é catalogado como `outras mídias´, entre elas a internet, com 1.046 beneficiadas em 2008". Repare o leitor que não há um pio quanto ao volume de capital destinada à publicidade governamental; o aumento é horizontal, ou seja, a verba foi distribuída a um número maior de órgãos.
Ao instituir a regionalização e democratização da publicidade estatal, o governo, na visão do colunista, "promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes neste país". Não se tem notícia de esperneio semelhante de Barros e Silva quando o governo Fernando Henrique Cardoso enchia as burras da Folha de S.Paulo, e tampouco ocorreu, mesmo ao mais mal intencionado dos analistas, confundir aplicação de verbas publicitárias com compra do jornal ou transformação deste em órgão chapa-branca.
Mas ao analisar a mídia alheia, o colunista utiliza-se de dois pesos e duas medidas:
"No subsolo do poder a engrenagem montada pelo ministro Franklin Martins se encarrega de alimentar a rede chapa-branca na base de verbas publicitárias. É o Bolsa-Mídia do governo Lula". A ilação maliciosa entre a política publicitária do governo e seu programa de distribuição de renda é reveladora do elitismo intransigente de uma certa imprensa – da qual a Folha compõe a linha de frente – que primeiro rejeitou o programa, apelidando-o de forma pejorativa, para depois analisá-lo exclusivamente como medida eleitoreira.
Somada à menção gratuita e leviana – pois sem comprovação – do papel que tais verbas publicitárias teriam no "governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí", a coluna evidencia a incapacidade anacrônica dos colunistas da Folha para entender dois fenômenos do Brasil atual: o governo Lula e o ativismo político na internet. Trata-se de incapacidade a um tempo significativa e perigosa, pois a posição do jornal ante tais fenômenos afigura-se fundamental para entender sua vertiginosa queda nas vendas.
Assim, nem a categoria do texto de Barros e Silva consegue disfarçar o óbvio: por trás da adjetivação pesada e da argumentação tortuosa não se esconde fato escandaloso algum, mas apenas interesses empresariais contrariados – no caso, do próprio Grupo Folha. Tais artifícios não passam, portanto, de cortina de fumaça para um queixume disfarçado de indignação cívica, um esperneio de um grande grupo de mídia que não aceita ser preterido na distribuição de verbas publicitárias federais.
Pontos críticos Fernando Rodrigues, em coluna logo abaixo, vai mais longe. Para ele...
"A resiliência inaudita do petista não surge por geração espontânea. Tampouco é fruto apenas da capacidade de comunicação do ex-sindicalista. Tudo é resultado de uma complexa estratégia de marketing [grifos meus]. O governo brasileiro pré-PT sempre foi o maior anunciante do país. Agora, sob Lula, elevou essa condição ao paroxismo. Chega sozinho a 5.297 veículos de mídia impressa e eletrônica. O sabão em pó Omo ou políticos de oposição, por enquanto, não são páreo para Lula." O leitor atento nota que, no texto dos dois fernandos, não há nenhum questionamento relativo ao montante de verbas empregado pelo governo, sendo que Rodrigues tem a correção de reconhecer que o governo federal sempre foi o maior aplicador de verbas publicitárias no país – embora, ao contrário do que afirma, não haja "paroxismo" algum na ação do atual governo, que ao horizontalizar a distribuição e verbas promove, pela primeira vez em âmbito federal, a alteração de um modelo concentrador e responsável por desigualdades regionais graves no campo da comunicação.
O truque das duas colunas advém justamente de tal confusão: mistura volume de verba com número de veículos contemplados por tal verba como forma de atribuir ao marketing do governo – e exclusivamente a ele, como a frase grifada do texto de Rodrigues evidencia – o sucesso da administração Lula. Tal raciocínio suspende o julgamento de seu governo, de seus méritos e pontos críticos, em prol de um subtexto óbvio: você, (e)leitor que simpatiza com o governo Lula, é um idiota que se deixa ludibriar por propaganda oficial feita com dinheiro público.
Poder das verbas Depois de tantos factóides políticos que resultaram inócuos, parece por ora restar aos críticos sistemáticos do governo na mídia pouco mais do que essa falaciosa operação discursiva, que finge desconhecer que a principal mídia do país, e a única que atinge todas as classes sociais, etárias e regionais – a TV Globo – não pode ser arrolada como órgão chapa-branca por conta do agrado das verbas federais. Aliás, muito pelo contrário.
Talvez falte a esse colunismo elitista e em descompasso com a dinâmica do país a capacidade de observação sociológica que o jornalista Leandro Fortes demonstra ter em seu blog, em um texto fundamental sobre o comportamento da imprensa em relação à hipótese do terceiro mandato. Ele assinala que...
"Luiz Inácio conseguiu estabelecer com o eleitorado uma ponte de comunicação praticamente imune aos ruídos da mídia, de qualquer mídia (...) Lula fala a língua da distribuição de renda, da segurança alimentar e da identidade nacional. De certa forma, conseguiu converter em ganho eleitoral todos os males a ele atribuídos pela zelosa elite intelectual e econômica brasileira, da falta de educação formal à aparência física". Tudo isso, de acordo com os colunistas da Folha de S.Paulo, graças às verbas pulverizadas da publicidade oficial...

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