sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Serra e o vídeo da Rede Globo

POR JOSÉ ANTONIO MEIRA DA ROCHA
23 DE OUTUBRO DE 2010
PUBLICADO EM: JORNALISMO INVESTIGATIVO
Esta matéria investigativa tem o objetivo didático de mostrar aos meus alunos como se faz análise de material digital. A fim de despertar interesse dos estudantes, uso um fato midiático de grande repercussão, embora de importância reduzida.
O perito em áudio Ricardo Molina de Figueiredo sustenta que um vídeo de celular identificou um rolo de fita adesiva batendo na cabeça do candidato à presidência do Brasil, José Serra, em passeata. Uma mancha identificada como rolo de fita adesiva aparece em apenas um quadro do vídeo. Decupado quadro a quadro, já mostrei que o “rolo” é apenas um artifact de compressão de vídeo: um defeito de compressão que aparece como um quadrado de bordas bem definidas, retas, com o interior borrado e difuso.
A justificativa de Molina para a mancha aparecer em apenas um único quadro do vídeo é de que a velocidade do rolo de fita seria muito alta, cerca de 40 km/h.
A dúvida que um jornalista investigativo deve procurar responder é: a fita arremessada poderia ser captada em um vídeo de celular?
Para testar a hipótese, montei facilmente um Serra falso (que batizei de SerraBuster) e atirei com força — mas sem raiva — um rolo de fita crepe em sua cabeça (não tentem fazer isto em casa ou com o candidato verdadeiro). Gravei, com o programa Linuxffmpeg, um vídeo a 15 quadros por segundo e dimensões de 320 x 240 pixels, em formato mpeg4, semelhante ao formato 3GP usado em celulares. A linha de comando foi esta:
ffmpeg -t 600 -f video4linux2 -s 380x240 -r 15 \
-i /dev/video1 -f mp4 webcam.mp
A qualidade de webcâmera é melhor do que a do celular. Mas, o que importa, neste caso, é a taxa de quadros por segundo. Depois, salvei o trecho em imagens jpeg, pelo programa Avidemux. O resultado aparece na sequência abaixo:
Serra, fita crepe, metro e webcâmera
A distância entre as duas posições do rolo, antes de bater na cabeça falsa de SerraBuster e deixá-lo meio grogue, foi de 70 cm, aproximadamente. Os quadro de vídeo são capturados a cada 66,6 milésimos de segundo (um segundo dividido por 15 quadros). Regra de três que todo jornalista deve saber fazer: se o rolo percorreu 0,7 metro em 0,066 segundo , em uma hora (3600 segundos) teria percorrido 37,8 quilômetros (0,7 m × 3600 s ÷ 0,066 s). Velocidade de 38 km/h, aproximadamente os 40 km/h que Molina alega que a suposta fita adesiva teria.

Indício de fraude

No laudo preparado por Molina, ele diz que o celular captou um quadro a cada 500 milissegundos. Isso equivale a 2 quadros por segundo (frames per second — fps), taxa completamente irreal.
‘O fato de a filmagem não mostrar a trajetória do objeto no evento “fita” está dentro das expectativas. Com efeito, o celular usado na captação das imagens, captura poucos frames por segundo, como se pode depreender do intervalo de quase 500 ms entre frames consecutivos. Assim, supondo que o objeto se deslocasse a cerca de 40 km/h, o que equivaleria a 11.11 m/s, a definição “espacial” do celular usado seria de aproximadamente 5.6 m, ou seja, como o celular só capta um frame a cada 500 ms, seria impossível captar qualquer imagem da trajetória do objeto que atingiu o candidato à distância em que se encontrava o repórter da Folha que realizou as imagens.’ (MOLINA, 2010)
A análise do vídeo da Rede Globo mostra que cada quadro foi duplicado. A TV NTSC tem 29,97 quadros por segundo. O vídeo do celular tem então metade desta taxa, cerca de 15 quadros por segundo.
Pelo Avidemux no meu Linux Ubuntu, verifiquei que vídeo original (segunda cópia, na verdade) publicado pela Folha.com tem 913 quadros em 30,491 segundos (29,94 fps), mas muitos quadros também estão duplicados, em função de sua conversão para Flash video (flv).
Em uma amostragem rápida de 112 quadros em 3,7 segundos, 2 quadros estão repetidos 6 vezes, 4 quadros estão repetidos 4 vezes (são, então, 6 quadros em vez de 28 quadros) e os 84 restantes aparecem 2 vezes. Isso resulta em 2 + 4 + 42 = 48 quadros em 3,7 s, ou aproximadamente 12,97 fps.
A uma taxa de quadros próxima a esta, em meu experimento com SerraBuster, claramente se vê que o rolo de fita adesiva deveria aparecer como um borrão comprido e claro, em dois quadros antes de bater na cabeça de Serra, e em vários quadros depois, já com velocidade bastante diminuída.

500 milissegundos? Wow! (o que é milissegundo?)

Num vídeo a 13 fps, 77 milissegundos por quadro, a fita adesiva apareceria em aproximadamente 6 quadros durante 462 milissegundos.
Mas se os quadros fossem captados a cada 500 milissegundos ou meio segundo (2 fps), o suposto objeto apareceria em apenas UM frame. Perceberam porque os “500 milissegundos” do laudo, que surgiu de lugar algum? Será que o perito achou que a palavra “milissegundos” assustaria tanto que ninguém iria conferir a taxa de quadros por segundo?
Este simples procedimento mostra que o laudo do perito em áudio Molina comete um erro grosseiro, incompatível com alguém com conhecimentos em vídeos digitais ou analógicos. Foi descuido ou foi proposital? Como um perito com perfil tão laudatório na Wikipedia (estranhamente enriquecido por  desconhecidos e por um Darth Vader paulista, logo depois do laudo) poderia ter cometido este erro?

Caveat

Esta investigação não prova que o candidato Serra não foi atingido por fita adesiva, apenas prova que o vídeo apresentado em matéria de 7 minutos pelo Jornal Nacional não mostra o suposto ataque.

Bibliografia

  1. MOLINA, R. SERRA_LAU_IMAGENS_TV GLOBO_LAU.doc. Laudo solicitado pela TV Globo sobre vídeo de passeata de José Serra. Documento PDF disponível em <http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/10/molina-divulga-laudo-sobre-videos-de-evento-em-que-serra-e-agredido.html>. Acesso em: 23 out. 2010.


Professor de jornalismo gráfico desmonta vídeo quadro a quadro e aponta truque de compressão de imagens
Por Antonio Martins*, originalmente publicado no site Outras Palavras
Urgente (22/10, 12h16): Desde o final da manha desta sexta (22/10), o site do professor José Antonio Meira da Rocha (http://meiradarocha.jor.br) foi bloqueado pela empresa que o hospeda — no que pode ser um caso grave de censura na internet. Em decorrência, as imagens que sustentavam a hipótese levantada por ele desapareceram, em dezenas de blogs que reproduziam suas informações.
O material foi republicado, em seguida, no blog Marxismo On-Line, de Leonardo Arnt — de onde foi reproduzido por Outras Palavras

O Jornal Nacional de ontem fez lembrar o envolvimento da Rede Globo na disputa presidencial que elegeu Fernando Collor, em 1989. Nada menos que 7 minutos foram dedicados à tentativa de demonstrar que José Serra fora atingido, na véspera, por um rolo de fita adesiva. Convocou-se Ricardo Molina, um “especialista” cujo currículo inclui a tentativa de acusar o MST pelo massacre de Eldorado de Carajás, de “assegurar” que PC Farias se suicidou e de questionar as provas sobre a responsabilidade da família Nardoni na morte da menina Isabela. Procurava-se frear a onda de indignação (e de deboche) que correu o país, quando se soube, horas antes, que a “agressão” sofrida na véspera pelo candidato do PSDB fora provocada por uma bolinha de papel. Não, tentou afirmar o Jornal Nacional: a tomografia a que se submeteu o candidato justificava-se. Ele havia sido atingido também por um rolo de fita adesiva…
Até mesmo esta versão está sendo contestada agora. José Antonio Meira da Rocha, professor de Jornalismo Gráfico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), analisou as imagens do Jornal Nacional quadro a quadro e chegou às seguintes conclusões, publicadas em seu blog: a) o suposto rolo de fita crepe, ou durex, não aparece em nenhum dos quadros anteriores ou posteriores ao momento em que se “choca” com a cabeça de Serra. Teria surgido do nada; b) um truque elementar na manipulação de vídeos (um artifact de compressão) é suficiente para gerar imagem idêntica à exibida no Jornal Nacional.
A análise de Meira Rocha pode ser conferida abaixo. Adicionalmente, um post no blog de Luís Nassif mostra: o suposto “choque” da fita adesiva com a cabeça de Serra deu-se numa parte da cabeça totalmente distinta daquela em que, segundo seu médico, ele foi atingido…
Leia, a partir daqui, a análise do professor José Antonio Meira da Rocha
Toda a produção jornalística pode ser digitalizada. Tudo o que é publicado está à mercê de chatos que salvam, gravam, colecionam, digitalizam com plaquinhas de 120 reais. Como eu, que gosto de gravar TV na minha Pixelview PlayTV Pro.
Por isso, hoje, é inconcebível que a grande imprensa, sofrendo há muito com as mudanças provocadas pela digitalização, tente enganar seu digitalizado público com armações grotescas como esta aprontada pelo Jornal Nacional de 2010-10-22, com ajuda da Folha.com e do repórter Ítalo Nogueira.
Será que a velha mídia não se dá conta que qualquer pessoa pode gravar TV e passar quadro-a-quadro? E que, fazendo isto, a pessoa pode ver que não há nenhum rolo de fita crepe sendo atirado contra o candidato José Serra? Que o detalhe salientado em zoom numa extensa matéria de 7 minutos não passava de um artifact de compressão de vídeo sobreposto à cabeça de alguém ao fundo? Que não se vê no vídeo quadro-a-quadro nenhum objeto indo ou vindo à cabeça do candidato?
E a Globo ainda vai procurar a opinião de um “especialista” de reputação duvidosa
Tudo pode ser digitalizado, menos a credibilidade de um veículo jornalístico. E este único ativo que sobra à velha mídia, ela joga fora…
Veja a sequência abaixo e tente encontrar o rolo de fita voando em direção à cabeça do candidato.
Fita mágica 00
Fita mágica 02
Fita mágica 04
Fita mágica 06
Fita mágica 08
Fita mágica 10
Fita mágica 12
http://noticias.marxismo-online.com.br/arquivos/2010/10/fitacrepe/fita-magica0014.jpg
Fita mágica 16
Fita mágica 18
Observe aquela cabeça atrás de Serra…
Fita mágica 20
Fita mágica 22
Fita mágica 24
Fita mágica 29
Cadê o rolo chegando na cabeça de Serra, que deveria estar neste quadro?
Fita mágica 32
Fita mágica atinge John Fitzgerald Serra (imagem TV Globo/Folha.com)
Fita mágica 34
Cadê o rolo saindo da cabeça de Serra, que deveria estar neste quadro?
Fita mágica 36
Fita mágica 38
Fita mágica 40
Fita mágica 42
Fita mágica 46
Fita mágica 48
Fita mágica 50
http://noticias.marxismo-online.com.br/arquivos/2010/10/fitacrepe/fita-magica0052.jpg
Fita mágica 54
Fita mágica 56
Fita mágica 60
Fita mágica 61
http://noticias.marxismo-online.com.br/arquivos/2010/10/fitacrepe/fita-magica0062.jpg
Fita mágica 63
Fita mágica 64

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