sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"Privataria Tucana" e o Silêncio da Mídia


Por Jorge Furtado
(*) Publicado originalmente no Blog de Jorge Furtado

Terminei de ler o extraordinário trabalho jornalístico de Amaury Ribeiro Jr., “A Privataria Tucana”, (Geração Editorial), o livro mais importante do ano. Para quem acompanha a vida política do país através de alguns blogs e da revista Carta Capital, não há grandes novidades além dos documentos que comprovam o que já se sabia: a privatização no Brasil, comandada pelo governo tucano, foi a maior roubalheira da história da república. O grande mérito do livro de Amaury é a síntese que faz da rapinagem, e a base factual de suas afirmações, amparadas em documentos, todos públicos. Como bom jornalista, Amaury economiza nos adjetivos e esbanja conhecimento sobre o seu tema: o mundo dos crimes financeiros.
A reportagem de Amaury esclarece em detalhes como os protagonistas da privataria tucana enriqueceram saqueando o país. De um lado, no governo, vendendo o patrimônio público a preço de banana. Do outro, no mercado, comprando as empresas e garantindo vida mansa aos netos. Entre as duas pontas, os lavadores de dinheiro, suas conexões com a mídia e com o mundo político.
Os personagens principais da maracutaia, fartamente documentada, são gente do alto tucanato: Ricardo Sérgio de Oliveira (senhor dos caminhos das offshores caribenhas, usadas pela turma para esquentar o dinheiro), Gregório Marin Preciado (sócio de José Serra), Alexandre Bourgeois (genro de José Serra), a filha de Serra, Verônica (cuja offshore caribenha, em sociedade com Verônica Dantas, lavou pelo menos 5 milhões de dólares), o próprio José Serra e o indefectível Daniel Dantas. Mas o livro tem também informações comprometedoras sobre o comportamento de petistas (Ruy Falcão e Antonio Palocci), sobre Ricardo Teixeira e sobre vários jornalistas.
A quadrilha de privatas tucanos movimentou cerca de 2,5 bilhões de dólares, há propinas comprovadas de 20 milhões de dólares, dinheiro que não cabe em malas ou cuecas. O livro revela também o indiciamento de Verônica Serra por quebra de sigilo de 60 milhões de brasileiros e traz provas documentais de sua sociedade com Verônica Dantas, irmã de Daniel Dantas, do Banco Opportunity, numa offshore caribenha.
Alguns destaques do livro:
As imagens do Citco Building, em Tortola, Ilhas Virgens britânicas, gavetas recheadas de empresas offshore, "a grande lavanderia", pág. 43.
Sobre a pechincha da venda da Vale, na pág. 70.
Sobre o grande sucesso "No limite da irresponsabilidade", na voz de Ricardo Sérgio., pág. 73.
Sobre o MTB Bank e sua turma de correntistas, empresários, traficantes e políticos de várias tendências, e a pizza gigante de dois sabores (meio petista, meio tucana) da CPI do Banestado, pág. 75.
Como a privatização tucana fez o governo (com o seu, meu dinheiro), pagar aos compradores do patrimônio público, pág.171.
A divertida sopa-de-nomes das empresas offshore, massarocas intencionais para despistar a polícia do dinheiro do crime, pág. 188.
Os grandes personagens do sub-mundo da política, arapongas que trabalham a quem pague mais, pág. 245.
Um perfeito resumo do que realmente aconteceu na noite dos aloprados, no Hotel Ibis, em São Paulo, pág. 282.
Um retrato completo do modus operandi da mídia pró-serra na eleição de 2010, a partir da pág. 295.
Outro resumo perfeito, do caso Lunus, quando a arapongagem serrista detonou a candidatura de Roseana Sarney, pág. 314.
Sobre para-jornalistas que acabam entregando suas fontes e sobre fontes que confiam em para-jornalistas, pág. 325.
O índice remissivo e a quantidade de dados que o livro de Amaury apresenta já o tornaria uma peça obrigatória na biblioteca de quem pretende entender o Brasil. Mas "A Privataria Tucana" também lança um constrangedor holofote sobre a grande imprensa brasileira, gritamente pró-serra, que é cúmplice, ao menos por omissão, da roubalheira que tornou o país mais pobre e alguns ricos ainda mais ricos.
Imagine você o que esta imprensa – que gasta dúzias de manchetes e longos programas de debate na televisão numa tapioca de 8 reais ou em calúnias proferidas por criminosos conhecidos - diria se um filho de Lula, Dilma ou qualquer petista fosse réu em processo criminal de quebra de sigilo bancário. Segundo o livro de Amaury (e os documentos que ele traz) a filha de José Serra é ré em processo criminal por quebra de sigilo bancário. (p. 278)
O ensurdecedor silêncio dos grandes jornais e programas jornalísticos sobre o livro “A privataria tucana” é um daqueles momentos que nos faz sentir vergonha pelo outro. A imprensa, que não perde a chance - com razão - de exigir liberdade para informar, emudece quando a verdade contraria seus interesses empresariais e/ou o bom humor de seus grandes anunciantes. Onde estão as manchetes escandalosas, as charges de humor duvidoso, os editoriais inflamados sobre a moralidade pública?
Afinal, cadê o moralista que estava aqui?
x
Alô revisão, alô Geração Editorial!
Nas páginas 326 e 327 há uma repetição de parágrafos: "Tanto Pimentel quanto Lanzeta passaram a receber telefonemas... (até) ... exigia entrevistas". Dá para corrigir na próxima edição.




Neste vídeo, uma entrevista de duas horas com Amaury Ribeiro Jr, sobre o livro. Não o conhecia. Ele é um simpático (e está evidentemente exausto) jornalista, gordo, bastante suado, traz a camisa para fora da calça e exalta-se com facilidade. Parece ser muito inteligente, pensa mais rápido do que consegue falar e, por isso, gagueja bastante e tem dificulfdades para terminar uma frase. Mas às vezes engrena e mostra que conhece muito bem o assunto do seu livro, o crime de lavagem de dinheiro. O camera-man
é um desastre mas a entrevista é imperdível.

domingo, 23 de outubro de 2011

Um mundo de ostentação e egoísmo: 39% da riqueza nas mãos de 0,4% da população


Somente essas pessoas possuem mais de US$ 400 bilhões!
A acumulação de riquezas nas mãos de cada vez menos pessoas tem se acentuado.  Estados Unidos e Europa, que passam por uma crise econômica persistente, em flagrante e revoltoso contraste, possuem dois terços dos milionários do planeta.

O mundo testemunha uma dramática piora dos indicadores sociais nos países ricos.  Os mais pobres perdem oportunidades e suas economias, mas alguns poucos continuam enriquecendo, aproveitando a "chance de lucrar", torcendo, inescrupulosamente, por recessão global e ganhando sobre o desespero da esmagadora maioria da população.

Movimentos como o Occupy Wall Street denunciam a jogatina do sistema financeiro, a ganância absurda dos bancos e sua ética da acumulação de riquezas desenfreada e egoísta, sem enfrentar a regulação por parte dos mecanismos de controle de capital dos estados, a despeito da crise porque passam milhões de pessoas que perdem suas casas, seus empregos e suas vidas.
No Rio de Janeiro um grupo de aproximadamente 150 pessoas, do Ocupa Rio,  tomou a praça da Cinelândia no Rio de Janeiro no sábado dia 15 de outubro e fazem nova ocupação neste sábado, dia 22, para conscientizar a sociedade contra esta desigualdade que maltrata a humanidade.
Pois bem, o total de riqueza acumulada pelas pessoas do ranking que ilustra esta postagem é quase do tamanho de toda a riqueza da Colômbia, um país com 46 milhões de habitantes!

Vivemos em um mundo desregulado, ainda norteado pela ostentação e egoísmo da riqueza absurda para pouquíssimos, em 2010 a FAO estimou em mais de 1 bilhão de pessoas passando fome e os países ricos e a ONU viram as costas para esta dura realidade.
Milionários controlam 39% da riqueza global
Fortuna dos milionários, que são menos de 1% da população, cresceu duas vezes a riqueza do mundo; em 2010, mais ricos detinham 35% do total.

Os milionários e bilionários passaram a controlar 38,5% da riqueza mundial, de acordo com o Relatório da Riqueza Global, publicado pelo banco Credit Suisse. A fortuna das 29,7 milhões de pessoas que têm mais de US$ 1 milhão (R$ 1,77 milhão) - menos de 1% da população mundial - alcançou US$ 89 trilhões (R$ 157,5 trilhões) ou US$ 20 trilhões a mais do que no ano passado. Em 2010, os milionários eram donos de 35,6% da riqueza mundial.

A fortuna dos milionários cresceu 29% - percentual duas vezes maior do que a riqueza do mundo como um todo, que agora soma US$ 231 trilhões (R$ 409 trilhões). Existem hoje 84.700 pessoas que têm mais de US$ 50 milhões, sendo que 35.400 moram nos EUA. Há 29 mil pessoas com mais de US$ 100 milhões e apenas 2.700 com mais de US$ 500 milhões.

A Europa ultrapassou a América do Norte e é lar de 37,2% dos milionários do mundo em comparação aos 37% do continente americano. O Japão concentra 3,1 milhão de milionários (11% do total), seguido por China e Austrália, cada um com 1 milhão. Em termos de países, Suíça, Austrália e Noruega são as três nações mais ricas do mundo; na Ásia, tem-se também Cingapura.

Nos próximos cinco anos, a riqueza mundial deverá aumentar em 50% a US$ 345 trilhões. Os mercados emergentes devem ter mais milionários nos próximos anos. A China já conta com um milhão de milionários. A riqueza na Índia e no Brasil devem mais do que dobrar.

A fórmula Veja de jornalismo

Por Henrique, o Outro
A “Fórmula Veja”19/10/2011 — Ivson  - Coleguinhas Uni-vos!
Sempre foi um mistério para mim como a Veja – e a maior parte da grande imprensa, para ser franco – conseguia impingir as histórias mais escalafobéticas como se fossem os próprios mandamentos escritos na pedra. A descoberta da lei que regula esse fato aconteceu por acaso, mas no local mais provável – o livro “O andar do bêbado”, do físico e professor norte-americano Leonard Mlodinow, editado pela Zahar.

Emprestado por uma amiga que sabe de minha inclinação pela estatísticae e pela probabilidade, nascida nos bancos da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), do IBGE, em fins dos anos 70, o livro tenta demonstrar como o acaso faz parte integrante da vida e que a busca de padrões lógicos, embora bem legal para a sobrevivência da espécie como um todo, pode nos levar muitas vezes a cometer erros absurdos, individualmente.
Assim, logo na pagina 33, Mlodinow fala de um experimento levado a cabo por dois cientistas, Daniel Kahneman – Nobel de Economia de 2002, apesar de ser psicólogo de formação – e Amos Tversky, no qual eles descobriram que se alguém fizer uma afirmativa e acrescentar uma outra, mesmo muito menos provável ou lógica que a primeira, as pessoas, em vez de acreditarem menos na afirmativa 1, passam a acreditar mais, bastando apenas que se conte bem a história.
Não entendeu? Então leia o trecho do livro que me fez gritar “eureca!” (quer dizer, quase…) e entender o mecanismo de empulhação levada a cabo pela Veja e seus seguidores.

Bacana, né? Pois tem muito mais coisa bacana como essa n’ “O andar do bêbado”. Recomendo fortemente que você o leia, mesmo não sendo um tarado por estatística como eu.

José de Abreu: “Civita avisou ao PT que derrubará Dilma”

No último domingo, o ator José de Abreu, esse simpaticíssimo sessentão paulista de Santa Rita do Passa Quatro, soltou uma nota no Twitter que, desde então, vem sendo objeto de curiosidade e de intensos debates na internet devido ao teor explosivo que encerra. Abaixo, a reprodução da nota do ator. Foi capturada em seu perfil naquela rede social.



Diante da enormidade que é haver dado concreto sobre uma premissa que todos os que se interessam por política já intuíam diante do comportamento da revista Veja nos últimos tempos, sobretudo após o caso escabroso em que um repórter desse veículo tentou invadir o apartamento do ex-ministro José Dirceu em um hotel de Brasília, decidi entrevistar o autor de tão interessante informação.


Conversei com Abreu por telefone durante cerca de 40 minutos. Foi mais um bate-papo informal. Girou, basicamente, em torno da informação que o ator obteve, mas enveredou por sua visão sobre como e por que um empresário do setor de comunicação ousa mandar ao governo do país um recado dessa magnitude, em termos de arrogância.


Segundo Abreu, a informação lhe foi passada por um petista graúdo que procurou a direção da Veja logo após a tentativa de invasão do apartamento de Dirceu. O emissário não teria procurado a revista em nome do governo, mas, sim, em nome do PT.  Ainda segundo o entrevistado, essas conversas de petistas e até do governo com a mídia ocorrem institucionalmente e com freqüência.


A tal “raposa felpuda” do PT teria ponderado com a direção da Veja que precisaria haver limites, que a revista estaria passando da conta. Enfim, teria sido a tentativa de um pacto de convivência mínimo. Aliás, informação relevante do entrevistado foi a de que esse pacto até já existe e é por isso que Dilma vem sendo poupada pela mídia, apesar dos ataques ao seu governo.


A resposta veio de cima, do próprio Roberto Civita, e foi a de que não haveria acordo: a Veja pretende derrubar o governo Dilma. As razões para isso não foram explicadas, apesar de que o interlocutor de Abreu diz que o dono da Veja está enfurecido com os sucessivos governos do PT que, nos últimos 9 anos, tiraram da grande mídia montanhas de dinheiro público.


Sempre segundo o entrevistado, apesar de muitos acharem que o governo “dá dinheiro” à mídia (via publicidade oficial) apesar de ser fustigado por ela, nos últimos 9 anos a publicidade do governo federal, a compra de livros didáticos da Abril, enfim, tudo que o governo gasta com comunicação passou a pingar nos cofres midiáticos em proporção infinitamente menor do que jorrava até 2002.


De fato, de 2003 para cá esse bilhão de reais que o governo gasta oficialmente em comunicação, que até aquele ano era dividido entre 500 veículos, hoje irriga cerca de oito mil veículos, muitos deles com linha editorial totalmente inversa à dos grandes meios de comunicação que até o advento da eleição de Lula, em 2002, mamavam tranquilamente. E sozinhos.


Abreu também diz que essa coexistência de bastidores entre adversários políticos (imprensa tucana, de um lado, e PT e governos petistas de outro) se deve a um fato inegável: os políticos precisam da mídia e isso fica claro quando a gente se surpreende ao ver petistas, os mais alvejados por esses veículos, concedendo cordiais entrevistas aos seus algozes.


Particularmente, este blog não se surpreendeu com as revelações de José de Abreu. As marchas contra a corrupção, o objetivo claro de impedir o funcionamento do governo lançando matérias incessantes só contra o governo federal enquanto escândalos enormes como o das emendas dos deputados estaduais paulistas recebem espaço quase zero, mostram que a mídia pretende inviabilizar o governo Dilma Rousseff.


Mais uma vez, digo a quem não acredita: se o cavalo do golpe passar selado, a mídia monta sem pensar. E, agora, tenho até evidências concretas para fundamentar meu ponto de vista. Será, então, que o PT e o governo Dilma vão ficar sentados esperando o golpe? Querem a minha opinião? Acho que vão. Eles ainda acreditam que podem se entender com a imprensa golpista.


Na Argentina, expulsaram os Civita do país

A máfia no poder


Quem lida com Blatter e Teixeira deve estar acima de qualquer suspeita. Mas há mafiosos também em outros cantos. Por Mino Carta. Foot: Jewel Samad/AFP
Quando adolescente, já perguntava aos meus imberbes botões por que o Brasil, país de imigração campana, calabresa e siciliana, entre outras, não conhecia o fenômeno mafioso. Desde logo, formulei uma tese sem qualquer pretensão científica, mas convincente na opinião dos botões. Não temos uma Cosa Nostra no Brasil porque eméritos mafiosos estiveram e estão no poder, líderes em atividades diversas -teoricamente legais, em condições de agir às claras e a salvo dos riscos corridos, e sofridos, por Al Capone ou Totò Riina.
Capone e Riina, e muitos outros do mesmo porte, acabaram na cadeia, aqui os equivalentes viveram e vivem à larga, ou estão soltos, quando não são nome de ruas e praças. Não faltam exemplos -recentes nas -áreas mais diversas, a começar pela política, a qual, a rigor, está em todas porque por trás de tudo. Algo espantoso se deu por ocasião do Panamericano do Rio. Previu-se um orçamento de 400 milhões, gastaram-se dez vezes mais para realizar obras hoje inúteis e entregues ao descaso. Serviços de todo gênero foram encomendados aos familiares e amigos dos organizadores da tertúlia monumental, a despeito dos nítidos conflitos de interesse. Que aconteceu com os responsáveis por tanto descalabro?
É do conhecimento do mundo mineral que quem mandou no Panamericano mandará nas Olimpíadas de 2016. Também é, quanto ao futebol, que a Fifa é um antro mafioso desde os tempos de João Havelange e que Joseph Blatter e Ricardo Teixeira são seus profetas. Desde a posse de Dilma- Rousseff na Presidência da República-, -CartaCapital permite-se chamar a atenção do governo para as péssimas consequências de um Mundial de Futebol desastrado, exposto ao risco do desmando, e várias vezes voltamos à carga no mesmo sentido.
Não nos precipitamos a endossar agora as suspeitas levantadas em relação ao ministro do Esporte, Orlando Silva, mesmo porque apressadamente veiculadas por Veja. CartaCapital jamais deixou de defender o princípio in dubio pro reo e enxerga na reportagem da semanal da Editora Abril insinuações e conjecturas em lugar de provas. Para variar. Certo é, contudo, que um ministro do Esporte chamado a lidar com Ricardo Teixeira e Joseph Blatter deve necessariamente situar-se acima de qualquer suspeita.
A presidenta, tão determinada no combate à corrupção, obviamente -sabe disso e saberá precaver-se, a bem do -País e do seu governo. CartaCapital insiste, de todo modo, em suas preocupações diante da clara presença no gramado e fora dele da máfia do futebol mundial.
Cabe encarar a questão também de outro ângulo, a partir da análise do singular destino da esquerda nativa. Refiro-me neste exato instante ao PCdoB, nascido da costela do Partidão em nome de uma fidelidade ideológica e moral que os discípulos de Luiz Carlos Prestes teriam traído. Outro aspecto da história brasileira que amiúde me levou a convocar os botões diz respeito à efetiva e duradoura existência de uma esquerda brasileira.
Desabrido, Lula já me disse, em entrevista publicada em CartaCapital há seis anos, “você sabe que eu nunca fui de esquerda”. Resta ver o que significa hoje ser de esquerda. Para mim claro está, ao menos, que é de esquerda quem se empenha, clara e honestamente pela igualdade, e sem medir esforços, para a redenção dos herdeiros da senzala. Parece-me que alguns passos neste rumo o ex-presidente deu.
Confirma-os, e com objetivos maiores, Dilma Rousseff ao definir o projeto de acabar com a miséria. Inevitável, entretanto, observar que um sem-número de políticos está a cuidar é da sua própria riqueza, e entre eles, pasmem, não faltam os ex-comunistas do B. Orlando Silva desde os começos de sua atuação ministerial é alvo de inúmeras denúncias de corrupção encaminhada pelas sendas do dinheiro das ONGs, a envolverem não somente o próprio, mas também seu partido. Era de se esperar? Desfecho inescapável de um enredo movido a ganância acima e além de crenças e princípios? O PCdoB já teve, entre outras razões de orgulho, a lisura e a coerência dos seus filiados. No poder, é mais um que se porta como os demais.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Tacape: a entrevista que nunca existiu

Por Rodrigo Vianna
 
“O Homem que Nunca Existiu” é um clássico do cinema. Rodado nos anos 50, conta as peripécias de militares ingleses que – durante a Segunda Guerra - tentam despistar os serviços de inteligência nazistas, criando um falso soldado, com falsas informações, sobre um falso desembarque dos aliados na Europa. Filme delicioso, que assisti ao lado de meu pai no começo da década de 80. Naquela época – sem videocassete, DVDs ou downloads na internet – a gente ficava torcendo pra aparecer filme bom na TV aberta.
 
“A Entrevista que Nunca Existiu” é, também, um clássico. Não do Cinema, mas do Jornalismo de esgoto que se pratica na chamada “grande imprensa” brasileira, nesse início do século XXI. Uma falsa entrevista, com falsas declarações, para comprovar uma tese (mais fajuta do que nota de três) a respeito dos índios no Brasil “naquela” revista...
 
Que revista? Advinhem? Mês passado, “Veja” publicou, entre aspas, declarações do respeitado antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. A “entrevista” entrou no meio de uma reportagem patética, intitulada “A farra da antropologia oportunista”. O texto era mais uma tentativa de atacar demarcações de terras indígenas. Até aí, tudo bem, é a posição da revista. Não fosse um detalhe: Viveiros de Castro NÃO deu entrevista pra “Veja”.
 
Já vi muita gente reclamar por suas declarações terem sido “distorcidas” ou “tiradas do contexto”. Nesse caso, foi muito pior. Algum gênio na “Veja” teve a idéia de ler (?) um artigo do antropólogo e “resumir” numa frase o pensamento dele. Só que a revista deu a entender que se tratava de uma declaração de Viveiros de Castro. E o mais grave: a frase entre aspas não tinha nada a ver com o pensamento do antropólogo.

A “Veja” joga fora, assim, a sua história – como já fez em dezenas de outros episódios. Aquela publicação, dirigida por Mino Carta e que (apesar de todas as limitações e cautelas) enfrentou a ditadura e denunciou até tortura nos anos 70, talvez fosse ilusão. Talvez, nunca tenha existido. Como o soldado do filme. E como a entrevista do antropólogo. “A Entrevista que Nunca Existiu” gerou uma reação irada na internet. Viveiros de Castro explicou que – de fato – tinha sido procurado pela equipe de “Veja”, mas não quis dar entrevista:

“Recusei-me a falar com eles, é meu direito, por não confiar na revista, achá-la de péssima qualidade jornalística, e por abrigar um batalhão de colunistas da direita hidrófoba. Parece que foi em vão, já que isso não os impediu de falarem comigo”.

Essa declaração de Viveiros de Castro existiu! Foi dada ao blog “Escrevinhador”, mantido na internet por esse novo colunista de Caros Amigos. Dezenas de outros blogueiros e twitteiros também reagiram à arrogância de “Veja” – que agora se dá ao direito de entrevistar, na marra, até quem não foi (e não quer ser) entrevistado.
Entre os twitteiros que reagiram à “Veja”está o jornalista Felipe Milanez. Ele trabalhava na revista “National Geographic Brasil”, também editada pela Abril. Trabalhava, eu disse. Milanez (especializado em reportagens sobre nações indígenas) escreveu em seu twitter a seguinte nota: Eduardo Viveiros de Castro achou um bom adjetivo pra definir a matéria da Veja, “repugnante”.

Pouco tempo depois, Milanez virou vaga – como a gente diz nas redações. Minha solidariedade a ele! Sei o que é isso, passei por algo parecido na TV Globo, em 2006... A Abril usou a guilhotina patronal contra a opinião de um funcionário. Os donos da imprensa esquecem que, ao pagar o salário dos jornalistas, estão pagando apenas pela força de trabalho. Não são donos de suas opiniões. Ou são?


Sobre isso, o Luiz Carlos Azenha (veterano de muitas redações e blogueiro do ótimo “VioMundo”) costumava dizer, quando éramos colegas na Globo: “eles esquecem que compram apenas meus serviços. Se quiserem comprar meu cérebro, vão ter que pagar muito mais”.


Cada vez que essa gente usa a guilhotina patronal, e corta a cabeça de um jornalista, faz com que dezenas de outros botem o tacape na cintura, e partam para o contra-ataque. Nessa coluna, posso prometer, manterei o meu afiado.

Rodrigo Vianna é jornalista

sábado, 10 de setembro de 2011

Protesto chique e o fracasso do Cansei

Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho



Eles não aprendem e não desistem. Derrotados três vezes nas eleições presidenciais, os valentes da fina flor paulistana foram de novo às ruas para protestar “contra tudo o que está aí”. Desta vez, o álibi foi a Marcha Contra a Corrupção organizada nas redes sociais em várias regiões do país.


Em São Paulo, apesar dos esforços de alguns blogueiros histéricos, o protesto fracassou: segundo a Policia Militar, apenas 500 pessoas se animaram a sair de casa neste belo feriado de 7 de setembro com muito sol para ir à avenida Paulista levantar cartazes contra a corrupção.


A personalidade mais conhecida identificada pela imprensa foi a socialite Rosangela Lyra, sogra do jogador Kaká e representante da Dior no Brasil.


Era a mesma turma chique do “Cansei”, um “movimento cívico” criado em julho de 2007, para protestar contra o “caos aéreo”, pelo presidente da OAB paulista, Luís Flávio Borges D´Urso, agora pré-candidato do PTB de Roberto Jefferson a prefeito de São Paulo, mas nem ele foi visto hoje na avenida Paulista.


De outro líder do “Cansei”, o executivo Paulo Zotollo, ex-presidente da Phillips, não se ouviu mais falar. Na época, ele causou um enorme dano para a imagem da empresa ao declarar em entrevista ao jornal “Valor”:


“Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz como tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado”.


O Piauí ainda existe, virou até nome de revista, vai bem, cresce e seu povo está melhorando de vida, ao contrário do infeliz executivo que apenas vocalizou o que pensava boa parte da elite paulistana sobre os nordestinos, quando o presidente do país era o pernambucano Lula.


A direção nacional OAB nacional na época, que ainda não era dominada por tipos como Ophir Cavalcante (quem?), o novo Álvaro Dias predileto da mídia, decidiu não participar do movimento e criticou a sessão paulista da entidade.


O então presidente da OAB-RJ, Wadih Dammus, resumiu do que se tratava. “O Cansei é um movimento de fundo golpista, estreito e que só conta com a participação de setores e personalidades das classes sociais mais abastadas de São Paulo”.


Foi o que se viu no 7 de setembro de protestos na avenida Paulista. São os mesmos. Só mudou o mote.


Em tempo (atualizado às 19h12):


No final da tarde desta quarta-feira, 7 de setembro de 2011, os números sobre o tamanho das manifestações em São Paulo variavam nos portais da grande mídia, que ajudaram a promover os protestos na avenida Paulista.


Segundo a “Veja”, em nova manifestação promovida à tarde, no mesmo local, havia entre 2 e 4 mil pessoas no protesto, dependendo do informante e do blogueiro.


No portal da “Folha”, o maior jornal do país, a multidão de protestantes chegou ao máximo de 700 manifestantes, em seus diferentes informes ao longo do dia.


Até o final da tarde, segundo o portal do “Estadão”, um dos mais empenhados promotores das manifestações na avenida Paulista, em nenhum momento, até as 19 horas, o protesto passou de 500 participantes.


Seja como for, foi bem menos gente do que o registrado na maior manifestação do fracassado “Cansei”, promovida no dia 17 de agosto de 2007, na praça da Sé, em São Paulo, com o apoio da Febraban (a federação dos bancos) e da Abert ( a associação das grandes emissoras de televisão), entre outras mais de 60 entidades da “sociedade civil organizada”.


Segundo a Polícia Militar, havia 5 mil pessoas naquele dia em São Paulo protestando contra o “caos aéreo” do governo Lula e outras mazelas nacionais.


A grande imprensa brasileira, que se uniu para promover o golpe militar de 1964 e eleger Fernando Collor em 1989, parece ter perdido seu poder de mobilização. E seus blogueiros, colunistas e editores amestrados continuam latindo para cada vez menos gente.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Bercht: aquecimento global, entre ursos e arbustos

 O debate sobre as mudanças no clima mobiliza governos, organizações ambientais, e muitos cientistas. O IPCC, da ONU, baseia suas recomendações naquilo que chama de “consenso científico”, e minimiza opiniões críticas.
imáticos que usa são frágeis e podem ser os vilões da história.  Por Verônica Bercht *
“À noite, com algum medo, é fácil confundir um arbusto com um urso”. (William Shakespeare, O sonho de uma noite de verão, Ato 5º, Cena Primeira). Com esta frase o polêmico jornalista e analista político inglês Christopher Booker abre seu livro The real global warming disaster (O verdadeiro desastre do aquecimento global. Londres, Continuum, 2009), onde pretende mostrar que a “obsessão com a ‘mudança do clima’ está se revelando o engodo científico mais caro da história”. Este livro engrossa uma leva de publicações recentes que se contrapõe à enxurrada de obras dedicadas à defesa e divulgação da tese que ficou conhecida como “aquecimento global”.
Embora tenha sido divulgada como “consenso científico”, sendo, assim, alçada ao status de “verdade”, a hipótese de que o CO2 emitido pelas atividades humanas é o principal responsável pelo aumento da temperatura da superfície da Terra nos últimos 150 anos foi contestada desde o início. Inicialmente, o debate ocorreu dentro das formalidades da produção científica, em artigos publicados em revistas especializadas, nas observações das revisões dos rascunhos dos relatórios do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC) e em intervenções em encontros e congressos científicos.
Nas páginas de jornais e revistas, o debate – etapa essencial para o avanço do conhecimento – ganhou contornos de perseguição religiosa. Ao mesmo tempo, o discurso do aquecimento global se institucionalizou de tal forma que, entre os letrados, são raros os que duvidam do poder humano para provocar o colapso climático caso medidas imediatas para a redução dos níveis de emissão do dióxido de carbono não sejam adotadas.
Mas serão os crédulos que tomam arbusto por urso, ou os céticos que confundem urso com arbusto?
Não há uma resposta fácil. Se a dinâmica climática é complexa e envolve conhecimentos especializados de várias ciências como astronomia, meteorologia, oceanografia e biologia, a dificuldade também se revela por outro lado: cientistas são pessoas comuns, com ambições, visões políticas e interesses nem sempre explícitos, mas necessariamente inerentes à sua atividade.
Além disso, o financiamento científico não está imune aos interesses de classe. Há ainda que se considerar que não estão claras as relações entre a institucionalização das teses do aquecimento global com a expansão das fronteiras do capitalismo sobre recursos naturais como a água, o ar e o material genético, transformados em mercadorias.
Este ensaio pretende apresentar um dos principais pontos de divergência entre céticos e crédulos e analisar as incertezas existentes na ciência climática - incertezas assumidas pelos crédulos e que, segundo os céticos impedem definir se a sombra disforme é um urso amedrontador ou apenas um arbusto, mesmo que nem sempre inofensivo.
A sombra disforme
A manifestação mais contundente da inexistência do consenso científico é o Projeto Petição (Petition Project, Disponível em: http://www.petitionproject.org/. Acessado em: 31/08/2010) que, em 1998, articulou cientistas norte-americanos contrários à assinatura do Protocolo de Quioto por não existirem, em sua opinião, evidências científicas capazes de responsabilizar a ação humana pelo aquecimento do planeta. Mobilizou, no total, 30 mil cientistas.
Sua atitude pode ser tomada como uma enorme heresia ambiental. Mas ela é coerente com as conclusões registradas no artigo científico que acompanha a petição, intitulado “Efeitos ambientais do aumento do dióxido de carbono atmosférico”, publicado em 2007, na Journal of American Physicians and Surgeons (esta revista é dedicada à área médica, e isso pode causar estranheza. No entanto, segundo consta no site do Projeto, ela foi escolhida porque “estava disposta a renunciar aos direitos autorais e permitir a reprodução e distribuição extensiva do artigo pelo Projeto Petição”. Atualmente, os direitos autorais das revistas científicas são um dos grandes entraves para o acesso à produção do conhecimento).
Divergências são inerentes ao fazer científico na fronteira do conhecimento e indicam vitalidade e criatividade. Elas estimulam novas pesquisas e novos rumos de investigação. Já o cerceamento da liberdade pode levar à decadência ou estagnação, com consequências desastrosas. Nesse sentido, a história é um celeiro de casos infelizes, que vão desde a resistência dos cardeais contra as descobertas de Galileo Galilei até o desastre que as opiniões do agrônomo Trofim D. Lysenko provocaram na agricultura soviética séculos mais tarde.
Na Revisão dos processos e procedimentos do IPCC, divulgada em 31 de agosto de 2010, o comitê independente de especialistas reunido pelo InterAcademy Council (IAC), que agrega academias de ciências de diversos países, apontou vários problemas no processo de elaboração dos relatórios do IPCC. Aquele comitê foi instaurado após acusações contra a instituição da ONU.
A Revisão inclui recomendações para assegurar que o IPCC leve em conta opiniões divergentes; considera que houve falta de transparência pelo IPCC, ressaltando “a inexistência de critérios para a seleção dos principais participantes no processo e a falta de documentação sobre a seleção das informações científicas e técnicas consultadas”.
A Revisão do Comitê recomendou o respeito aos comentários críticos dos cientistas pelo IPCC, a transparência nos critérios de seleção dos participantes que elaboram os relatórios do IPCC assim como dos artigos científicos consultados, e a explicitação das incertezas que recaem sobre as conclusões apresentadas pelo IPCC, especialmente nos Sumários para os Formuladores de Políticas, que é o documento destinado a ampla divulgação.
A Revisão reconhece assim a procedência das críticas aos procedimentos do IPCC feitas pelos céticos desde o inicio, principalmente a de que suas observações críticas não são levadas em consideração, forjando um consenso científico inexistente.
Tateando a sombra disforme 
Em Aquecimento Global: uma visão crítica, Luiz Carlos Molion, do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas, um dos grandes especialistas brasileiros, apresenta grande parte dos argumentos contra a tese do aquecimento global provocado pela atividade humana (o ensaio de Molion foi publicado no livro Aquecimento Global: frias contendas científicas, organizado por José E. da Veiga. São Paulo, Senac, 2008).
A crítica sobre a pretensa robustez dos modelos climáticos é, talvez, a de maior ressonância, sendo reconhecida inclusive no quarto relatório do IPCC. Os modelos matemáticos são, desde meados do século 20, as “principais ferramentas utilizadas não só para a compreensão e atribuição das causas das variações climáticas passadas, mas, sobretudo, para as projeções futuras” (Sônia M. B. de Oliveira. Base científica para a compreensão do aquecimento global. In Veiga, 2008). São “programas de computador que utilizam equações ou expressões matemáticas para representar os processos físicos diretos e os de realimentação e/ou interação (feedback) entre os diversos componentes do sistema terra-oceano-atmosfera” (Molion, 2008).
Até recentemente esses modelos abrangiam apenas informações referentes a áreas superiores a 250 km, e os processos físicos ocorridos em escalas espaciais inferiores eram resolvidos de uma forma particular: na linguagem técnica, eles precisam ser “parametrizados”. Isto é, elaborados a partir de estimativas, e não de observações. Com a participação de alguma intuição do cientista que criou o modelo (Molion, 2008).
Modelos que deformam
As duas principais conclusões que resumem a hipótese do aquecimento global no Sumário para Formuladores de Políticas do Relatório do Grupo de Trabalho 1, do IPCC, são baseadas principalmente em resultados obtidos com modelos desse tipo. Elas afirmam que:
1) “A maior parte do aumento observado na média global de temperatura desde meados do século 20 é muito provavelmente devido ao aumento observado nas concentrações de gases de efeito estufa antropogênicos” (IPCC (a), 2007, p. 10 – grifado no texto original). Antropogênicos, aqui, significa que resultam da atividade humana.
2) “Emissões contínuas de gases do efeito estufa nos níveis atuais ou maiores poderão causar um aquecimento adicional e induzir várias mudanças no sistema climático global durante o século 21, as quais, muito provavelmente, serão maiores do que aquelas observadas durante o século 20” (IPCC. Summary for Policemakers. In: Climate Change 2007: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fourth Assessment Report, 2007, p. 13.
Os modelos nos quais elas se baseiam, contudo, apresentam muitos problemas. O próprio IPCC, em seu relatório de 2007, reconhece que eles têm “erros significativos”. Um dos exemplos citados são as deficiências na simulação do El Niño. “A principal fonte da maioria desses erros”, confirma o relatório, decorre do fato de que “vários processos de pequena escala não podem ser representados explicitamente nos modelos”. Isso resulta, reconhece o IPCC, de “limitações na capacidade da computação” e “das limitações do conhecimento científico”.
O relatório cita “incertezas significativas associadas, em particular, com a representação das nuvens, e como elas respondem à mudança climática” (Climate Models and Their Evaluation (Chapter 8). In Climate Change 2007: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fourth Assessment Report, 2007, p 600.
Sônia Barros de Oliveira, do Instituto de Geociências da USP, em artigo em que defende a tese do IPCC, dá uma idéia da dimensão dos erros a que a modelagem está sujeita. As nuvens cobrem em média 60% da superfície terrestre, e tem um efeito significativo no albedo, sendo responsáveis por dois terços dele.
O albedo é a reflexão da radiação solar pela Terra, de volta ao espaço e influi na temperatura do planeta. Uma diminuição de 1% do albedo provocaria o aumento de 1°C na temperatura – isto é, apenas esta resposta das nuvens provocaria uma elevação na temperatura equivalente ao aumento previsto pelo IPCC caso a concentração de CO2 na atmosfera fosse duplicada (Oliveira, 2008, pag. 47-48)
As nuvens, como se vê, têm um papel determinante. Mas, como elas são muito diversas e dinâmicas, os modelos climáticos ainda não conseguem simular seu comportamento, explica Molion. Sabe-se que a presença de nuvens estratiformes (forma de camadas horizontais), do tipo cirrus, aquelas que ficam mais altas, contribuem para o aumento da temperatura global. Por outro lado, nuvens baixas (tipo “estrato”), mais espessas, tendem a baixar a temperatura, pois aumentam o albedo planetário.
A questão que os céticos colocam é: como se pode atribuir ao CO2 um papel tão importante nas alterações do sistema climático quando ainda não se conhece a contribuição de processos decisivos na formação do clima, como a cobertura de nuvens?
O argumento mais forte para atribuir ao CO2 papel tão decisivo no aquecimento global parte das observações do aumento de sua concentração na atmosfera desde 1958 (figura1). As medidas mostram que a concentração do CO2 aumentou de 315 ppm em 1958 para 387 ppm em 2009. (Ver Peter Tans, Trends in Atmospheric Carbon Dioxide, NOAA/ESRL, 2010. Disponível em www.esrl.noaa.gov/gmd/ccgg/trends. Acessado em 26/08/2010).
A atual concentração de CO2 , de 390 partes por milhão (ppm), representa 0,039% do volume total da atmosfera. Isto é muito pouco quando comparado, por exemplo, com a quantidade de vapor d´água suspenso no ar, que é entre 26 a 102 vezes maior! Ele é responsável por 60% do efeito estufa em situações de céu aberto, sem nuvens (IPCC. Observations: Surface and Atmospheric Climate Change (Chapter 3). In Climate Change 2007: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fourth Assessment Report, 2007, p. 271. Disponível em: http://www.ipcc.ch). Sua concentração na atmosfera é muito variável, e depende de muitos fatores mas, pode-se dizer que ele compõe entre 1% e 4% do volume total da atmosfera.
A concentração atual de CO2 na atmosfera significa que para cada 100 mil moléculas de ar, 39 são de CO2. O meteorologista Roy Spencer ressalta que isso é tão pouco que o CO2 “é incluído entre os chamados ‘gases traço’ da atmosfera”. Lembra ainda que, no ritmo atual, a humanidade adiciona uma molécula de CO2 para cada 100 mil moléculas de ar a cada cinco anos (Roy Spencer. Climate Confusion. New York, Encouter Books, 2009, pag.63).
Outra forma de quantificar a presença de CO2 na atmosfera é o cálculo da massa total de carbono, medida em bilhões de toneladas (Gt) por ano. Segundo o IPCC, é dos continentes que vem a maior parte: 129 Gt de carbono, enquanto os oceanos contribuem com 90 Gt. No total, são 219 Gt.
O IPCC calcula que a atividade humana contribua com sete Gt por ano (é pouco: cerca de 3% daquelas 219 Gt). O aumento da concentração de CO2 corresponde a algo em torno de quatro Gt de carbono em forma de CO2. Há, portanto, uma sobra três Gt de carbono, e não se sabe o que aconteceu com ela. Provavelmente foi incorporada aos vegetais, através da fotossíntese, e absorvida pelos oceanos. Isto permite concluir que nem todo o carbono emitido por atividades humanas permanece na atmosfera, mas é absorvido como um elemento fundamental para a perpetuação da vida. (IPCC 2007 Capítulo 7).
Isto é, o CO2 não é o vilão pintado pelos alarmistas do aquecimento global. Ele não é um gás poluente e não consta, por exemplo, das medições diárias relativas à qualidade do ar realizadas por órgãos como a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Além disso, segundo informações do Departamento Federal de Saúde do Canadá, em ambientes fechados, como escritórios, é comum que sua concentração média seja de 600 a 800 ppm, podendo chegar a 1000 ppm (três vezes maior do que a hoje existente na atmosfera), sem causar incômodos maiores do que a sensação de “ar viciado”.
Nem urso nem arbusto. Nuvens?
Mesmo os céticos concordam que o aumento da concentração de CO2 na atmosfera associado às atividades humanas é significativo. Um deles, Richard Lindzen do Centro para Meteorologia e Meteorologia Física do Massachussetts Institute for Technology (MIT), nos EUA, escreveu em 1990 ser “inteiramente legítimo nos perguntarmos se deveríamos nos preocupar sobre o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera. [...] Certamente estamos lidando com mudanças significativas do CO2”. (Richard S. Lindzen. Some Coolness Concerning Global Warming.
Bulletin American Meteorological Society, Vol. 17, No. 3, March 1990). Apesar disso, ele não vê motivo para a atual histeria envolvendo a redução de suas emissões.
Outro que tem preocupação semelhante é Roy Spencer que, num livro publicado em 2009, enfatiza “que o que nos torna céticos é a teoria de que todo (ou mesmo grande parte) do aquecimento global é causado pela humanidade, ou a crença de que nós conhecemos o sistema climático e o estado tecnológico futuro bem o suficiente para fazer previsões sobre o aquecimento global para os próximos cinquenta a cem anos” (Spencer, 2009, p. 6).
A mesma opinião é expressa por cientistas como o especialista em nuvens William R. Cotton, da Universidade Estadual do Colorado (EUA). Ele não fala contra o aquecimento global mas pensa que a ciência não é “tão sólida quanto vários cientistas nos levam a acreditar”. O estudo da atuação dos gases do efeito estufa sobre o clima é robusto, diz ele. Mas continua precário em relação a vários pontos, “particularmente em relação ao papel das nuvens”.
Outro, nessa linha, é seu colega Roger Pielke, também da Universidade do Estado do Colorado. Para ele, os modelos climáticos podem ajudar a melhorar nossa compreensão sobre o funcionamento do sistema, mas lembra a restrição feita por um dos principais autores do quarto relatório do IPCC, Kevin Trenberth, dirigente do National Center for Atmospheric Research (EUA) e especialista em modelos climáticos: “O IPCC não faz previsões. Nenhum dos modelos usados pelo IPCC funciona a partir de situações observadas, e nenhuma das situações climáticas usadas nos modelos correspondem, nem remotamente, ao clima corrente observado”. [Aqui parece muito com as críticas ao modelo padrão da cosmologia padrão: a distribuição de astros postulada nunca corresponde a distribuição observada... E as críticas são praticamente desprezadas, como em Hawkings...]
Outro crédulo que relativiza a compreensão atual das causas do aquecimento global é Spencer Weart, do American Institute of Physics, especializado em história da geofísica moderna. Na versão virtual de seu livro The discovery of global warming (In http://www.aip.org/history/climate, June 2009) ele fez uma detalhada história da ciência do clima e assume que atualmente “não há prova de que os gases do efeito estufa sejam responsáveis pelo aquecimento observado no século 20. E também não se sabe, diz, “quanto aquecimento o aumento do CO2 na atmosfera vai causar no futuro”, embora pense que o efeito estufa precise ser estudado seriamente (Weart, 2009).
O debate mostra que existe muita incerteza no conhecimento das mudanças climáticas, e a base científica para as recomendações que o IPCC faz aos governos é frágil. A questão é séria pois a diminuição das emissões de CO2 pode significar prejuízos para a obtenção da energia necessária ao desenvolvimento para beneficiar grande parte da população.
Mas a ciência caminha e só com muito mais pesquisa se poderá dizer se a sombra disforme é um urso ou um arbusto.
Verônica é bióloga e jornalista científica.

A decadência moral de nossa sociedade é tão grave no topo quanto na base


The moral decay of our society is as bad at the top as the bottom [A decadência moral de nossa sociedade é tão grave no topo quanto na base]
By Peter Oborne
August 11th, 2011
David Cameron, Ed Miliband e toda a classe política britânica se juntaram ontem para denunciar os amotinados. Eles naturalmente estavam certos ao dizer que as ações dos saqueadores, incendiários e assaltantes eram abomináveis e criminosas, e que a polícia deveria receber mais apoio.
Mas havia também algo muito falso e hipócrita sobre o choque e o ultraje expressos no parlamento. Os deputados falaram sobre os terríveis eventos da semana como se não tivessem nada a ver com eles.
Não posso aceitar que seja este o caso. Na verdade, acredito que a criminalidade em nossas ruas não pode ser dissociada da desintegração moral dos escalões mais altos da moderna sociedade britânica. As últimas duas décadas testemunharam um terrível declínio dos padrões da elite governante britânica. Tornou-se aceitável que nossos políticos mintam e enganem. Uma cultura quase universal de egoísmo e ganância surgiu.
Não foram apenas os jovens ferozes de Tottenham que se esqueceram que tem tanto deveres quanto direitos. Assim é também com os ricos ferozes de Chelsea e Kensington. Alguns anos atrás, minha mulher e eu fomos a um jantar numa mansão no oeste de Londres. Um segurança vigiava o lado de fora da rua e houve muita conversa sobre uma “divisão norte-sul” , que eu aceitei literalmente por um tempo até me dar conta de que os donos da casa estavam se referindo a uma divisão entre os que moravam ao norte e ao sul da Kensington High Street.
A maioria das pessoas desta rua caríssima estavam tão desenraizadas e distantes do resto do Reino Unido quanto os jovens homens e mulheres desempregados que causaram tantos danos terríveis nos últimos dias. Para eles, a repulsiva revista do Financial Times chamada “Como gastar” é uma bíblia. Eu arriscaria dizer que poucos deles se importam em pagar impostos se puderem evitá-los e que menos ainda sentem algum tipo de obrigação com a sociedade que apenas algumas décadas atrás era “natural” para os ricos e os de cima.
Ainda assim celebramos as vidas vazias de gente que vive assim. Algumas semanas atrás, li uma nota em um jornal dizendo que o magnata dos negócios Sir Richard Branson estava pensando em transferir seu quartel-general para a Suiça. A medida foi descrita como um golpe em potencial contra o ministro das finanças George Osborne, porque resultaria na redução da arrecadação de impostos.
Não consegui deixar de pensar que num mundo são e decente, tal mudança seria um problema para o Sir Richard, não para o ministro. As pessoas notariam que um importante e rico homem de negócios estava fugindo dos impostos britânicos e pensariam mal dele. Em vez disso, ele foi condecorado e é amplamente bajulado. O mesmo é verdadeiro quanto ao brilhante varejista Sir Philip Green. Os negócios do Sir Philip nunca sobreviveriam sem a famosa estabilidade política e social do Reino Unido, sem nosso sistema de transporte para despachar suas mercadorias ou nossas escolas para educar seus trabalhadores.
Ainda assim Sir Philip alguns anos atrás transferiu um bilhão de libras [equivalentes a 2,6 bilhões de reais] em dividendos offshore e parece que não está nem um pouco disposto a pagar por isso. Por que ninguém se irrita e o responsabiliza? Eu sei que ele emprega caros advogados tributaristas e que tudo o que faz é legal, mas tem de enfrentar questões éticas e morais tão grandes quanto as colocadas para o jovem bandido que invadiu uma das lojas de Sir Philip para furtá-lo?
Nossos políticos — apoiados como fariseus na perna de trás, ontem, no Parlamento — são tão ruins quanto o Sir Philip. Eles já demonstraram que estão preparados para ignorar a decência e, algumas vezes, para violar a lei. David Cameron está feliz em ter alguns dos piores exemplos no ministério. Considerem por exemplo o Francis Maude, que é encarregado de enfrentar o desperdício no setor público — o que os sindicatos dizem que é eufemismo para guerrear contra trabalhadores de baixa renda. Ainda assim o sr. Maude ganhou milhares de libras ao violar o espírito, embora não a lei, na ajuda de custo dada aos parlamentares.
Muito se falou nos últimos dias da cobiça dos saqueadores por bens de consumo, inclusive pelo deputado de Rotherham, Denis MacShane, que afirmou com justeza, “o que os saqueadores queriam eram alguns minutos no mundo do consumo da Sloane Street”. Isso dito por um homem que usou 5.900 libras [o equivalente a 15.400 reais] de sua ajuda de custo para comprar oito laptops. Naturalmente, como um parlamentar, ele obteve os computadores legalmente, usando dinheiro público.
Ontem, o veterano deputado Gerald Kaufman pediu ao primeiro-ministro para avaliar como os saqueadores poderiam ser “reconquistados” pela sociedade. Sim, este é o mesmo Gerald Kaufman que pediu o reembolso de 14,301.60 libras [equivalentes a 37 mil reais] em três meses, inclusive 8,865 libras [equivalentes a 23 mil reais] por um aparelho de TV da Bang & Olufsen.
Ou considere o deputado de Salford, Hazel Blears, que tem pedido medidas duras contra os saqueadores. Eu acho difícil fazer qualquer distinção entre os golpes de Blears na ajuda de custo e na sonegação de impostos e os roubos na cara dura perpetrados pelos saqueadores.
O primeiro-ministro não demonstrou sinal de que entendeu que alguma coisa cheirava mal ontem no debate do Parlamento. Ele falou em moralidade, mas como algo que só se aplica aos muito pobres: “Vamos restaurar uma sensação de moralidade e responsabilidade — em toda cidade, em toda rua, em toda casa”. Ele parece não ter entendido que isso deveria ser aplicado também aos ricos e poderosos.
A verdade trágica é que o sr. Cameron em pessoa é culpado de não passar no teste da moralidade. Fazem apenas seis semanas ele apareceu sorridente na festa de verão da News International [a empresa de Rupert Murdoch], embora o grupo de mídia estivesse àquela altura não apenas sob uma, mas duas investigações policiais. Mais notadamente, ele deu uma posição de destaque no governo ao ex-editor do tabloide News of the World Andy Coulson, embora soubesse àquele altura que Coulson tinha se demitido depois que atos criminosos foram cometidos por subordinados. O primeiro-ministro desculpou a incapacidade desprezível de Coulson alegando que  “todo mundo merece uma segunda oportunidade”. Foi interessante que ontem ele não falou sobre uma segunda chance, quando prometeu punição exemplar para os amotinados e saqueadores.
Este duplo padrão de Downing Street [sede do governo britânico] é sintomático dos duplos padrões que existem no topo de nossas sociedades. Deveria ficar claro que a maioria das pessoas (inclusive, eu sei, os leitores do Telegraph) continuam a acreditar em honestidade, decência, trabalho duro e em colocar de volta na sociedade tanto quanto se tira dela.
Mas há os que não pensam assim. Certamente, os assim chamados jovens ferozes não se importam com decência e moralidade. Mas também os ricos e poderosos venais — muitos de nossos banqueiros, jogadores de futebol, homens de negócio e políticos.
Naturalmente, a maioria deles é inteligente e suficientemente rica para obedecer as leis. O mesmo não pode ser dito dos jovens homens e mulheres, sem esperança ou aspirações, que causaram a confusão e o caos nos últimos dias. Mas os amotinados tem esta defesa: eles estão apenas seguindo o exemplo das figuras respeitadas de nossa sociedade. Vamos considerar que muitos dos jovens de nossas metrópoles nunca foram treinados em valores decentes. Tudo o que conhecem é a barbárie. Nossos políticos e banqueiros, por outro lado, estiveram em boas escolas e universidades e tiveram as melhores oportunidades na vida.
Alguma coisa terrivelmente errada aconteceu no Reino Unido. Se vamos confrontar os problemas expostos na semana que passou, é essencial levar em conta que eles não existem apenas nos núcleos habitacionais.
A cultura da ganância e da impunidade que temos testemunhado em nossas telas de TV se estende até as sedes de empresas e ao ministério. Chega à polícia e a boa parte de nossa mídia. Não é apenas a juventude danificada, é o Reino Unido em si que precisa de reforma moral.
http://blogs.telegraph.co.uk/news/peteroborne/100100708/the-moral-decay-of-our-society-is-as-bad-at-the-top-as-the-bottom/

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Carta Aberta à Veja

Por Barbara Freitag-Rouanet

Quem afirmar, em 2011, que a universidade criada por Darcy Ribeiro, há cinquenta anos atrás, agora está sendo "palco das piores cenas de intolerância", tendo sido “tomada por um patrulhamento ideológico tácito”, só pode ser muito desinformado ou muito jovem, ou quem sabe ambas as coisas.
Seja como for, conheço um remédio infalível para suprir essa falta de informação: assistir ao documentário de Vladimir Carvalho Barra/68 – “Sem Perder a Ternura” (2000), que mostra os vários momentos da formação da UnB através de quatro décadas. O filme deu a volta ao mundo, tendo sido exibido em Paris, Havana, Fribourg e em várias capitais brasileiras, entre elas Rio, São Paulo, Salvador, Porto Alegre e, obviamente, Brasília. Aqui foi exibido no Cine Brasília, no Auditório dos Dois Candangos, no campus da UnB, e em salas de aula do Minhocão.
O filme começa e termina com longas entrevistas com o fundador, Darcy Ribeiro, que forneceu um "retrato falado" da UnB, mostrando as dificuldades de sua fundação em que teve que apelar até mesmo à ajuda do Papa João XXIII, vencer a oposição política feita à sua ideia revolucionária e lutar pela sobrevivência dessa ideia durante a ditadura militar.
Vladimir Carvalho mostra através de vários testemunhos de pessoas envolvidas com a UnB, como desde 1964 o campus da UnB foi invadido pela polícia e pelo exército sucessivamente (em 1964, 1965, 1967, 1968, 1977), levando em 1968 à prisão de Honestino Guimarães, o líder do movimento de resistência, e à demissão coletiva de mais de 200 professores, em protesto à brutalidade demonstrada pelos invasores das tropas de choque. Vladimir Carvalho capta com sua câmara, até mesmo um depoimento do então reitor, José Carlos Azevedo, capitão-de-mar-e-guerra, imposto à comunidade acadêmica pelo braço forte dos generais no poder.
Quem viveu ou viu essas cenas de brutalidade com que a universidade da NOVACAP foi mal-tratada destruindo-se laboratórios, bibliotecas, salas de aula, pisoteadas pelas botas da ignorância e do autoritarismo durante os anos sessenta e setenta, jamais cometeria a leviandade de falar hoje da UnB como sendo "palco das piores cenas de intolerância", de "perseguição" ou "patrulhamento ideológico". Sem falar do paralelo de má fé e mau gosto traçado entre o capitão-de-mar-e-guerra, Azevedo, empossado pelos seus superiores da hierarquia militar, com o reitor atual, José Geraldo de Souza, eleito democraticamente pela comunidade acadêmica e cujo único "defeito" é ser tolerante e respeitosamente democrático.
Falo aqui, com conhecimento de causa e na qualidade de professora contratada em 1972, hoje emérita da UnB, que ao combater a ditadura dentro e fora da UnB, foi efetivamente perseguida,pelo então reitor, que quando não vinha pessoalmente assistir cursos, palestras, manifestações, mandava os seus "observadores" à paisana entrar em sala de aula (em que supostamente o professor é soberano e autônomo) para efetivamente "patrulhar" a bibliografia, as palavras ditas, os programas acadêmicos sugeridos e perseguir. Exemplo: meu pedido de ascensão funcional de colaboradora (com Doutorado defendido na Universidade Livre de Berlim em 1972) ficou "depositado" por sete anos na Reitoria e devolvido, sem ser tocado, com o argumento de que estava “ocupando espaço indevido” no local.
Somente fui nomeada "professora titular" depois da redemocratização da sociedade e da universidade brasileiras. Quando pedi licença (não remunerada) para acompanhar meu marido, brasileiro, diplomata, para o exterior, como permitia a lei, fui intimada a pedir demissão. De volta a Brasília, seis anos depois, com pós-doutorado financiado pela Deutsche Forschungsgemeinschaft Bonn, somente fui readmitida na UnB como "colaboradora", recomeçando a carreira a partir da estaca zero. Alunos e colegas meus foram coagidos pela estrutura universitária autoritária a não aceitar minha orientação, ou somente informalmente, pois foi exigido "de cima" que na hora da banca outro professor "politicamente correto" me substituísse.
Somente exponho aqui meu caso pessoal para dizer que essa opressão e esse patrulhamento vieram comprovadamente "de cima", sendo amplamente divulgados na imprensa da época, que reproduziu nas palavras do então reitor Azevedo, que "a dama de Berlim", que criticara numa SBPC o sistema educacional brasileiro, com recurso aos dados do IBGE e de pensadores como Florestan Fernandes, Celso Furtado e Gilberto Freyre, faria melhor deixar o país e não intrometer-se em assuntos internos do Brasil. Nessa época, fui protegida pela maioria dos meus colegas, alunos, leitores, amigos. Entre eles encontravam-se nomes como José Geraldo de Souza, Nair Bicalho, Safira Ammann, Aldayr Barthy Brasil, Marco Antônio, Roque Laraia, Roberto Cardoso de Oliveira, Nadya Castro Guimarães. Alguns entre eles já faleceram, outros se tornaram professores titulares, diretores da Capes, altos funcionários do MEC, do CNPq ou do Itamaraty.
Sabendo, por experiência própria, o que é patrulhamento ideológico autoritário, intolerância política, xenofobia, machismo e opressão, venho com esta carta aberta REPUDIAR ENFATICAMENTE a matéria tendenciosa, superficial, injusta e pouco comprovada, veiculada pela Veja, procurando desqualificar a UnB como um centro de qualificação e excelência das novas gerações brasileiras e denegrir a imagem do seu Reitor, José Geraldo de Sousa Junior, equiparando a instituição e seu representante máximo aos tempos negros da ditadura militar no Brasil.
Rio de Janeiro, 4 de julho de 2011
Barbara Freitag-Rouanet
Professora Emérita da UnB

Falsificações da Revista Veja sobre a Universidade de Brasília

Por Idelber Avelar, colunista da Revista Fórum outro mundo em debate.

Sob o título “Madraçal no Planalto,” a última edição da Revista Veja publicou uma “reportagem” sobre a Universidade de Brasília (UnB) com uma série de erros factuais. A matéria, escrita para demonstrar que a UnB estaria tomada pela intolerância e por “perseguições” a quem pensa diferente de uma reitoria supostamente esquerdista, incorre em várias falsificações e demonstra desconhecimento básico acerca do funcionamento de uma universidade pública brasileira. Uma longa lista de personalidades, incluindo até mesmo o insuspeito Ministro Gilmar Mendes, desmentiu categoricamente a Veja nas últimas 48 horas.
A matéria afirma que o Reitor José Geraldo de Sousa Júnior foi eleito depois de uma “manobra” que deu aos alunos o mesmo peso eleitoral dos docentes e dos funcionários. Cumprindo o já conhecido papel de acadêmico amestrado da Veja, o historiador Marco Antônio Villa empresta outra citação para os propósitos da revista: ”Nenhuma universidade de ponta tem esse tipo de sistema eleitoral.” Acontece que a afirmação da revista é falsa. Não houve qualquer “manobra”. O Conselho Universitário, instância máxima de deliberação da universidade, no qual os professores representavam 70% dos votantes–e onde, portanto, os alunos nem de longe tinham o mesmo peso dos docentes–decidiu pela eleição paritária.
A afirmação atribuída ao Prof. Frederico Flósculo—e, tratando-se de Veja, há que se dizer “atribuída”, já que nunca se sabe se o entrevistado realmente disse o que está entre aspas—demonstra ainda mais desconhecimento, não só sobre a UnB, mas acerca de todo o sistema universitário público brasileiro. O Prof. Flósculo teria dito que na UnB “nos últimos anos, meus projetos de pesquisa têm sido sistematicamente rejeitados”. Ora, o financiamento da pesquisa feita em universidades públicas brasileiras vem de órgãos federais, como a CAPES e o CNPq, ou estaduais, como a Fapesp. Os projetos são enviados pelos docentes aos órgãos financiadores e depois avaliados por profissionais da área, sem qualquer participação ou interferência da universidade. Mesmo que ela quisesse, a UnB não poderia “rejeitar” projetos de pesquisa de um docente, posto que não é ela quem os financia. Isso é informação elementar sobre a universidade brasileira, que a Revista Veja não possui ou omite em má fé.

A outra inverdade publicada pela Veja se refere à Faculdade de Educação da UnB. Segundo a Revista, a Profa. Inês Pires de Almeida, da Faculdade de Educação, teria sido vítima de “represálias” por parte da Reitoria, perdido a chefia e sofrido “devassa” em seu trabalho . Sublinhe-se que não há qualquer declaração da professora na matéria e não se sabe se ela corrobora a versão da revista, mas o fato é que a Profa. Inês simplesmente perdeu uma eleição. A Faculdade de Educação realizou eleições internas em agosto e setembro de 2010, inclusive com debates públicos entre os candidatos. Venceu a professora Carmenísia Jacobina Aires, que hoje ocupa a direção da FE. A perda da condição de gestora de convênios com órgãos de governo adveio do fato de que … a Profa. Inês não era mais diretora! Simples assim.
Outra falsificação presente na reportagem diz respeito ao Prof. Ibsen Noronha, que teria dito que sua disciplina “desapareceu do currículo”. O Prof. Ibsen Noronha é conhecido por ter sido o advogado que acompanhou o DEM na ação contra as cotas no STF, ter levado uma reprimenda pública do Ministro Lewandowski e ter escrito um perfil elogioso de um príncipe da família real. Quanto ao teor da matéria, a realidade dos fatos é que Ibsen Noronha jamais foi professor concursado da UnB. Longe de “desaparecer do currículo”, o conteúdo em questão foi incorporado a uma disciplina obrigatória, “História do Direito” que, como tal, só pode ser ministrada por professores efetivos da instituição.
A matéria de Veja resvala na difamação pura e simples ao afirmar que o “único mérito acadêmico evidente” do atual Reitor, o Prof. José Geraldo de Sousa Júnior, “deriva de sua militância política”. O currículo do Prof. José Geraldo inclui: a autoria de quatro livros acadêmicos e a organização de 24 publicações, além de 56 artigos em periódicos e 43 capítulos de livros.
Curiosamente, a foto que ilustra a matéria da Veja traz como subtítulo “professores reclamam de controle ideológico”, mas é na verdade a imagem de uma livre manifestação dos estudantes pela aceleração das obras de extensão do campus. A ironia extra é que depois dessa manifestação, os estudantes foram recebidos pela reitoria para negociar.
A reação à “reportagem” da Veja foi contundente. O Diretório Central dos Estudantes publicou uma carta. O Reitor também. A respeitada Professora Barbara Freitag-Rouanet escreveu uma bela resposta, assim como o Prof. Aldo Paviani. Uma longa lista de testemunhos também contradisse a matéria. Veja ouviu seis professores.
É mais um capítulo na história da Revista Veja, que agora replica estratégias já adotadas em outras comarcas para desqualificar instituições públicas de ensino com objetivos que têm muito pouco a ver com a busca da verdade.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Bolsonaro já era; agora é a vez de Myrian Rios


Discurso de Myrian Rios
Autor: 
http://mixbrasil.uol.com.br/blogs/cia/2011/06/28/bolsonoro-ja-era-agora-e-a-vez-de-myrian-rios.html

O deputado Bolsonaro encontrou uma adversária de peso: Myrian Rios. Em comum, ambos são políticos com domicílio eleitoral no Rio de Janeiro. E são deputados _ela no Rio, ele no Congresso Federal. Também adoram uma câmera e sabem se mostrar muito bem a ela quando uma lhe mira. Bolsonaro é um falastrão e virou símbolo de uma minoria arcaica, caricata, que ainda defende militares no comando do país. É a voz dos mais arraigados membros da TFP _a organização Tradição, Família e Propriedade, que um dia foi realmente influente e hoje não passa de um emaranhado de vozes sem ouvidos. Já Myrian Rios é voz da Igreja Católica, mais precisamente da Renovação Carismática Católica, que hoje possui rede de televisão e rádio (a Canção Nova), com retransmissoras no Brasil e em algumas células pelo mundo. Antes de tudo foi atriz da Globo e namorou Roberto Carlos. Também posou nua e caiu no ostracismo.
O discurso de Myrian Rios na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro é tão burro que vale muito pouco. Ela diz que quer ter o direito de ser respeitada por sua orientação sexual “homem com mulher como está em Gênesis”. Fala que funcionários gays ou lésbicas poderiam bolinar seus filhos e que ela não poderia fazer nada. E ainda afirma que "caso a PEC passe, a pedofilia seria liberada, já que o pedófilo afirmaria que a pedofilia é sua orientação sexual”. É um discurso sem pé nem cabeça. Ela diz ainda que não é preonceituosa (imagine se fosse), e que possui parentes de sangue homossexuais e lésbicas, e que ainda ora por eles porque “a salvação é para todos”.
As frentes políticas cristãs usam muito esse expediente de ligar homossexualidade e pedofilia. É a forma encontrada para fazer o cidadão se apavorar. Mas deveria ser crime. Como o de ligar negros a roubo, por exemplo. O que me espanta mais é que a Igreja católica, da qual a deputada faz parte, sempre foi mais contida em seus ataques. Geralmente usa seu poder de influência nos governos de forma mais discreta, por meio de advogados, representações e artigos em grande jornais. Discursos inflados e que geram ódio aos homossexuais sempre estão garantidos às igrejas pequenas e de subúrbio.
A Renovação Carismática Católica se manifesta de maneira menos odiosa. Ainda que contrária às leis de casamento civil, como toda igreja, não faz discursos tão vorazes contra a homossexualidade.
Seus principais líderes são o padre Marcelo Rossi e o monsenhor Jonas Abib, que fundou a Canção Nova na década de 80. Foi nessa época que a Igreja Católica mais perdeu fieis para as igrejas neopentecostais, que aliavam fé a prosperidade ainda na Terra. A Renovação Carismática foi a resposta dos Católicos aos evangélicos e segurou a torneira da perda de fieis que vinha acontecendo. Os carismáticos copiaram tudo dos evangélicos, dos rituais aos discursos, e, como os evangélicos, passaram a “converter” famosos da classe B, ou ex-famosos, para dar visibilidade ao movimento. E também passaram a eleger políticos.
É aí que entra Myrian Rios. A ex-atriz permaneceu tempos no ostracismo até ser contratada em 2002 pela Fundação João Paulo II, mantenedora da TV e Rádio Canção Nova. Ali ela apresenta programas e já lançou livro que conta a história de sua conversão.
Para a cadeira de deputada no Rio de Janeiro, pelo PDT, ela contou com os votos dos fieis da sua comunidade. Ela obteve 22.169 votos e ficou 64ª posição. Sua platoforma era de defesa da família. A Alerj conta com 70 deputados, sendo 20 ligados a Igrejas evangélicas e católica. Mas não é, ainda, um grupo que vota completamente unido como é a Frente Evangélica de Brasília.
Contudo, a voracidade deles é grande, afinal é neste estado que se concentra a mais ampla política de inclusão da agenda gay no Governo estadual e municipal. Esse povo "cristão" todo, incluindo Myrian Rios, teve de engolir a primeira união gay coletiva do Brasil financiada pelo próprio governo na quarta-feira passada, em plena Central do Brasil, com direito a cobertura e beijo no Jornal Nacional (um dia depois do discurso de Myrian na Alerj). Eles todos também assistiram o lançamento do programa Rio sem Homofobia e sabem que seus desatinos não vão dar em nada. Precisam aceitar a atuante presença de Coordenações políticas de gays e lésbicas no Estado e na Prefeitura e foram bem informados que a máquina do Estado lutou pela aprovação da união gay no Supremo _uma jogada de mestre do governador do Rio, Sergio Cabral. O mesmo expediente (buscar o Supremo) pode agora ser usado para aprovar algo parecido com o PLC 122.
Quero dizer: não dêem tanta importância à Myrian Rios, seu discurso é um grão de areia perto do que o estado do Rio está fazendo pelos direitos gays. E esses discursos mais inocentes são como os da Luisa Marilac: tem graça, mas duram pouco.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O que você não leu na mídia sobre Paulo Renato (1945-2011)

Morreu de infarto, no último dia 25, aos 65 anos, Paulo Renato Souza, fundador do PSDB. Paulo Renato foi Ministro da Educação no governo FHC, Deputado Federal pelo PSDB paulista, Secretário da Educação de São Paulo no governo José Serra e lobista de grupos privados. Exerceu outras atividades menos noticiadas pela mídia brasileira.
Nas hagiografias de Paulo Renato publicadas nos últimos dois dias, faltaram alguns detalhes. A Folha de São Paulo escalou Eliane Cantanhêde para dizer que Paulo Renato deixou um “legado e tanto” como Ministro da Educação. Esqueceu-se de dizer que esse “legado” incluiu o maior êxodo de pesquisadores da história do Brasil, nem uma única universidade ou escola técnica federal criada, nem um único aumento salarial para professores, congelamento do valor e redução do número de bolsas de pesquisa, uma onda de massivas aposentadorias precoces (causadas por medidas que retiravam direitos adquiridos dos docentes), a proliferação do “professor substituto” com salário de R$400,00 e um sucateamento que impôs às universidades federais penúria que lhes impedia até mesmo de pagar contas de luz. No blog de Cynthia Semíramis, é possível ler depoimentos às dezenas sobre o que era a universidade brasileira nos anos 90.
Ainda na Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein lamentou que o tucanato não tenha seguido a sugestão de Paulo Renato Souza de “lançar uma campanha publicitária falando dos programas de complementação de renda”. Dimenstein pareceu desconsolado com o fato de que “o PSDB perdeu a chance de garantir uma marca social”, atribuindo essa ausência a uma mera falha na campanha publicitária. O leitor talvez possa compreender melhor o lamento de Dimenstein ao saber que a sua Associação Cidade Escola Aprendiz recebeu de São Paulo a bagatela de três milhões, setecentos e vinte e cinco mil, duzentos e vinte e dois reais e setenta e quatro centavos, só no período 2006-2008.

Não surpreende que a Folha seja tão generosa com Paulo Renato. Gentileza gera gentileza, como dizemos na internet. A diferença é que a gentileza de Paulo Renato com o Grupo Folha foi sempre feita com dinheiro público. Numa canetada sem licitação, no dia 08 de junho de 2010, a FDE da Secretaria de Educação de São Paulo transfere para os cofres da Empresa Folha da Manhã S.A. a bagatela de R$ 2.581.280,00, referentes a assinaturas da Folha para escolas paulistas. Quatro anos antes, em 2006, a empresa Folha da Manhã havia doado a curiosa quantia–nas imortais palavras do Senhor Cloaca–de R$ 42.354,30 à campanha eleitoral de Paulo Renato. Foi a única doação feita pelo grupo Folha naquela eleição. Gentileza gera gentileza.
Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor do Grupo Folha. Os grupos Abril, Estado e Globo também receberam seus quinhões, sempre com dinheiro público. Numa única canetada do dia 28 de maio de 2010, a empresa S/A Estado de São Paulo recebeu dos cofres públicos paulistas–sempre sem licitação, claro, porque “sigilo” no fiofó dos outros é refresco–a módica quantia de R$ 2.568.800,00, referente a assinaturas do Estadão para escolas paulistas. No dia 11 de junho de 2010, a Editora Globo S.A. recebe sua parte no bolo, R$ 1.202.968,00, destinadas a pagar assinaturas da Revista Época. No caso do grupo Abril, a matemática é mais complicada. São 5.200 assinaturas da Revista Veja no dia 29 de maio de 2010, totalizando a módica quantia de R$1.202.968,00, logo depois acrescida, no dia 02 de abril, da bagatela de R$ 3.177.400, 00, por Guias do Estudante – Atualidades, material de preparação para o Vestibular de qualidade, digamos, duvidosíssima. O caso de amor entre Paulo Renato e o Grupo de Civita é uma longa história. De 2004 a 2010, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo transfere dos cofres públicos para a mídia pelo menos duzentos e cinquenta milhões de reais, boa parte depois da entrada de Paulo Renato na Secretaria de Educação.
Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grandes grupos de mídia brasileiros. Ele também atuou diligentemente em favor de grupos estrangeiros, muito especialmente a Fundação Santillana, pertencente ao Grupo Prisa, dono do jornal espanhol El País. Trata-se de um jornal que, como sabemos, está disponível para leitura na internet. Isso não impediu que a Secretaria de Educação de São Paulo, sob Paulo Renato, no dia 28 de abril de 2010, transferisse mais dinheiro dos cofres públicos para o Grupo Prisa, referente a assinaturas do El País. O fato já seria curioso por si só, tratando-se de um jornal disponível gratuitamente na internet. Fica mais curioso ainda quando constatamos que o responsável pela compra, Paulo Renato, era Conselheiro Consultivo da própria Fundação Santillana! E as coincidências não param aí. Além de lobista da Santillana, Paulo Renato trabalhou, através de seu escritório PRS Consultores – cujo site misteriosamente desapareceu da internet depois de revelações dos blogs NaMaria News eCloaca News–, prestando serviços ao … Grupo Santillana!, inclusive com curiosíssima vizinhança, no mesmo prédio. De fato, gentileza gera gentileza. E coincidência gera coincidência: ao mesmo tempo em que El País “denunciava”, junto com grupos de mídia brasileiros, supostos “erros” ou “doutrinações” nos livros didáticos da sua concorrente Geração Editorial, uma das poucas ainda em mãos do capital nacional, Paulo Renato repetia as “denúncias” no Congresso. O fato de a Santillana controlar a Editora Moderna e Paulo Renato ser consultor pago pelo Grupo Santillana deve ter sido, evidentemente, uma mera coincidência.
Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grupos de mídia, brasileiros e estrangeiros. O ex-Ministro também teve destacada atuação na defesa dos interesses de cursinhos pré-vestibular, conglomerados editoriais e empresas de software. Como noticiado na época pelo Cloaca News, no mesmo dia em que a FDE e a Secretaria de Educação de São Paulo dispensaram de licitação uma compra de mais R$10 milhões da InfoEducacional, mais uma inexigibilidade licitatória era anunciada, para comprar … o mesmíssimo produto!, no caso o software “Tell me more pro”, do Colégio Bandeirantes, cujas doações em dinheiro irrigaram, em 2006, a campanha para Deputado Federal do candidato … Paulo Renato! Tudo isso para não falar, claro, do parque temático de $100 milhões de reais da Microsoft em São Paulo, feito sob os auspícios de Paulo Renato, ou a compra sem licitação, pelo Ministério da Educação de Paulo Renato, em 2001, de 233.000 cópias do sistema operacional Windows. Um dos advogados da Microsoft no Brasil era Marco Antonio Costa Souza, irmão de … Paulo Renato! A tramóia foi tão cabeluda que até a Abril noticiou.
Pelo menos uma vez, portanto, a Revista Fórum terá que concordar com Eliane Cantanhêde. Foi um “legado e tanto”. Que o digam os grupos Folha, Abril, Santillana, Globo, Estado e Microsoft.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Cesare Battisti: o eterno fugitivo


Condenado num processo cheio de falhas, e até falsificações, que correu à sua revelia, o escritor italiano se tornou alvo do ódio da direita mundial e passou a vida sendo perseguido pelo Estado italiano e, nos últimos anos, pelo judiciário brasileiro. Conheça os detalhes do caso Battisti.
Por Débora Prado
Amplamente divulgado na grande mídia de diversos países, o debate acerca da extradição de Cesare Battisti se tornou tema de discussão no Brasil e na comunidade internacional. O Estado e a justiça italiana, o judiciáio brasileiro, a extrema direita e os reacionários de plantão se empenham na campanha pela entrega dele ao sistema penitenciário italiano para que permaneça encarcerado até o fim de sua vida. No Brasil, a propaganda contra o escritor e ex-militante de extrema esquerda também é intensa e, apesar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter decidido negar sua extradição no último dia de mandato, Battisti continua preso, ilegalmente, e vai passar por novo julgamento no Supremo Tribunal Federal.
Condenado durante processo que correu à sua revelia por quatro assassinatos cometidos na década de 1970, o que pouca gente sabe é que Battisti já havia passado por um julgamento na Itália. Neste primeiro julgamento, sentenciado em 1981, foi condenado a 13 anos e alguns meses de prisão por suas atividades militantes, ou ‘crime de subversão’ e por porte de armas. Não houve, no entanto, qualquer condenação ou sequer citação dos quatros assassinatos que lhe são atribuídos hoje em dia. Quase ninguém diz ainda que seu segundo julgamento na Itália está permeado de contradições (ver Box), assim como o relatório do STF brasileiro, de autoria do Ministro Cezar Peluso.
Na verdade, a condenação a prisão perpétua - reivindicada agora pelo governo italiano para justificar a extradição – só aconteceu no segundo processo, de 1988, baseado numa prática chamada ‘delação premiada’. “Durante o primeiro processo, houve muitas torturas, são 13 casos declarados. Mas, mesmo sob a tortura, ninguém nunca pronunciou o nome de Battisti” explica Fred Vargas, historiadora, arqueóloga e escritora francesa, complementando: “Em troca das acusações no segundo processo, outros presos ganharam consideráveis reduções na pena. Nenhum dos arrependidos e dissociados teve prisão perpétua, o único membro do grupo com essa condenação foi o ausente: Battisti”.
Em suas pesquisas sobre o caso, ela constatou ainda que as procurações supostamente assinadas por Battisti para os advogados que o representaram no segundo processo são falsas. “Ele foi representado falsamente durante os onze anos do processo. Isso já seria suficiente para anular sua condenação” diz. Com tanta sujeira embaixo do tapete, fica evidente que os motivos para a condenação de Battisti são muito mais políticos do que de fato judiciais.
Dalmo de Abreu Dallari, jurista e professor emérito da USP (Universidade de São Paulo), explica que se fossem considerados apenas os aspectos legais, Battisti já deveria estar em liberdade. “A prisão de uma pessoa cuja extradição o foi pedida tem caráter preventivo, visando garantir a execução da decisão do Chefe do Executivo, caso este decida favoravelmente ao pedido. A partir do momento em que o Presidente decidiu não conceder a extradição, já não havia motivos para manter Cesare Battisti preso, não havendo qualquer fundamento legal para essa tremenda restrição de seus direitos fundamentais, avalia o jurista, concluindo: “Assim, não há dúvida de que a motivação não foi jurídica, mas influenciada por outras determinantes”.
Para Carlos Alberto Lungarzo, professor titular da Unicamp aposentado e militante da Anistia Internacional (AI), é totalmente impossível que Battisti tenha cometido algum assassinato e, além de injustiçado, sua extradição pode representar uma sentença de morte. “Se ele voltar à Itália e ficar vivo durante um tempo seria um milagre. O sentimento de rancor contra ele já existia antes, mas a agitação do caso na França e no Brasil está deixando em evidência a enorme corrupção da justiça italiana e a falta de seriedade e dos políticos” afirma.
O professor conta que a perseguição tomou tamanha proporção que uma região da Itália está proibindo os livros de centenas de escritores que assinaram um manifesto pela não extradição de Battisti. “É necessário entender um ponto sensível da cultura italiana, pelo menos nos últimos dois séculos: o sentimento de vingança muito generalizado. O Tribunal precisava dar uma satisfação aos parentes e ter um culpado universal. Claro que também há interesses políticos fortes: ameaçar a pouca esquerda que resta na Itália, mas que vai crescendo, fazer o papel de vítima no cenário europeu e por aí vai” diz. Os estudiosos do caso apontam mais de uma justificativa para a perseguição de Battisti. Para Lungarzo, é simplista dizer que Berlusconi quer ocultar seu fracasso político e seus escândalos sexuais, uma vez que a campanha contra o escritor aumentou a medida que seus livros críticos ficaram mais conhecidos.
“Inicialmente, tudo indica que os magistrados italianos carregaram todos os assassinatos em Battisti, porque ele estava longe e não poderia se defender. Ele foi apenas um bode expiatório. Quando ele voltou à França, em 1990, a Itália tentou extraditá-lo - ‘por que não mais um?’. Mas, a extradição foi recusada e não se fez nenhum alvoroço. Então surgiu a verdadeira razão: Battisti se tornou um escritor de sucesso, com 15 livros publicados antes de vir ao Brasil. Suas histórias sobre perseguição, exílio e fascismo são romances lidos por pessoas que nunca leriam um livro de história. Há uma prova que eu acho muito clara disso: em quase todas as mensagens e comentários de ódio de leitores de jornais que se publicam na Itália sempre se fala que ele é um ‘afrancesado’, um rebelde, um homem que pinta uma imagem horrível da Itália, que não é católico, e coisas assim. Isso é muito duro para um país onde domina a Máfia, o fascismo e a Igreja” avalia Lungarzo.
De acordo com o filósofo e professor da USP aposentado Paulo Arantes, no governo italiano a extradição de Battisti se tornou um ponto de honra, assim como um ponto de honra para o aparato repressivo brasileiro e seus aliados impedir qualquer tipo de julgamento público das atrocidades cometidas pela Ditadura Militar. “Óbvio que se trata de um ponto de honra para a magistratura e para o Estado italiano, porque ele é fugitivo há 20 anos. E na Itália há uma unanimidade sobre isso entre a direita e a esquerda, se é que essa distinção ainda faz sentido lá”, avalia. Ele explica que, apesar de seu passado glorioso, o Partido Comunista italiano sujou as mãos durante a repressão italiana. “Muitos dos magistrados implicados nos julgamentos, na tortura e na repressão ou eram filiados ou gravitaram na ordem do Partido Comunista”, complementa Arantes.
Segundo a historiadora Fred Vargas, existe ainda uma relação importante entre o caso de Battisti e a participação italiana na Guerra do Iraque para preparar a população italiana - que era contra a entrada da Itália na Guerra. “O governo quer fabricar um amálgama entre os antigos ‘terroristas’ dos anos de chumbo, e o novo terrorismo” explica.
Outros países já negaram a extradição de Battisti, como a Grécia, Suíça, França, Inglaterra, Canadá, Argentina, Nicarágua e Japão. “Talvez por causa dessas negativas e porque pretendem usar Cesare Battisti como um troféu, alguns Ministros do governo italiano agridem tão violentamente o Brasil”, analisa Dalmo Dallari. Ele identifica também uma forte motivação política, “bastando lembrar que o atual Ministro da Defesa da Itália, Ignazio La Russa, foi militante ativo da Aliança Nacional, organização neofascista. A par disso, é público e notório que a Itália vem enfrentando uma crise política, tendo havido várias manobras legislativas e judiciárias, visando impedir que o Primeiro Ministro Silvio Berlusconi seja processado criminalmente. Battisti vem sendo usado também em manobra para distrair a atenção do povo”, diz.
Extradição
A perseguição a Battisti na Itália respingou no STF, que ignorou as contradições no julgamento italiano que condenou Battisti. Na instância máxima da justiça brasileira, o pedido de extradição ganhou com 5 a favor e 4 contra, cabendo, então, ao presidente Lula dar a palavra final. Em sua cruzada para desfazer as contradições presentes no processo, Fred Vargas enviou uma carta com 13 perguntas ao ministro Cezar Peluso, apontando as falhas no processo italiano. Não obteve resposta. Em seu relatório, o ministro Peluso havia afirmado que a Itália e sua justiça seguiram escrupulosamente as regras da democracia e de um Estado de Direito durante os ‘anos de chumbo’. “Isto é falso, a justiça italiana desta época utilizou ameaças, pressões, arrependidos, torturas, sem falar nas procurações falsas”, contesta Vargas.
Carlos Lungarzo também avalia que há uma perseguição de “ambos chefões” do STF (Cezar Peluso e Gilmar Mendes), por diferentes razões: “Por um lado, salvo para poucos casos, o poder judiciário da maior parte do mundo não se preocupa em prender inocentes. Isto é comum nos Estados Unidos e absolutamente comum no Brasil. Então, as pessoas que acompanharam o voto do relator, salvo Gilmar Mendes, podem ter simplesmente votado por conformismo, por medo de discordar, por banalização da vida humana”.
Para ele, entretanto, Peluso e Mendes estão promovendo uma verdadeira perseguição política, pois são típicos representantes da direita- o primeiro do conservadorismo católico e o segundo do estilo da direita brasileira. “Mendes sempre votou contra réus da esquerda. No caso de Mendes, por seu histórico, sua relação com a oposição política e outros detalhes, não há dúvida que a perseguição contra Cesare foi uma maneira de enfraquecer o governo, colocando Genro e Lula no meio de um conflito. Peluso é um radical católico, e me parece que nele há o sentimento não político-ideológico, mas algo mais profundo, que eu chamo ‘ódio inquisitorial’. Battisti é não apenas de esquerda. É uma pessoa crítica do sistema social, que escreveu mais de 10 livros onde denuncia a situação da Itália”, caracteriza.
O professor Paulo Arantes também avalia que a inclinação política dos magistrados influenciou na decisão pela extradição de Battisti: “É uma instituição majoritariamente conservadora, os ministros são visceralmente reacionários, portanto, a palavra de ordem deles aqui também ‘nada que saia fora da linha pode ser relevado’, desde um estudante que quebra uma vidraça numa ocupação de reitoria, até o caso de Battisti. É a política da tolerância zero, apoiada pela opinião publica, que abomina a junção de luta política com gesto de força” define. Agora, o que está em jogo, segundo Arantes, é decidir se a autorização dada pelo STF para Lula decidir se iria aceitar ou recusar a extradição foi séria, ou foi apenas brincadeira. “Eu acho quase impossível que, além de Peluso e Mendes, alguém possa votar que foi ‘pura brincadeira’. Tudo indica que a decisão de Lula será mantida”, diz.
Para Dalmo Dallari, a falha grave do STF foi a manutenção de Battisti na prisão mesmo depois de publicada a decisão do Presidente da Repúlica negando atendimento ao pedido de extradição. “A decisão do Presidente Lula foi absolutamente correta, do ponto de vista jurídico. Quanto aos fundamentos da decisão, também não cabe qualquer reparo. Com efeito, o Presidente decidiu no uso de suas competências constitucionais e tendo por base, quanto conveniência e oportunidade, disposições expressas do tratado de extradição assinado por Brasil e Itália em 1993. As condições concretas, a conveniência e oportunidade da extradição, isso fica no âmbito das competências exclusivas do Presidente”, explica.
Para o jurista, a decisão de Lula deve ser mantida. “Apesar dessas grosseiras investidas, não acredito que haja a mínima possibilidade de modificação da decisão tomada regularmente pelo Presidente Lula. Embora alguns brasileiros se posicionem a favor da pretensão italiana, é preciso não perder de vista que o Brasil não pode ceder sua soberania para ser agradável a uma corrente política italiana” afirma.

BOX: As contradições no segundo julgamento
Autor de um livro sobre a trajetória de Battisti e a perseguição sofrida pelo escritor, Carlos Alberto Lungarzo reuniu informações sobre os processos judiciais contra o italiano. Em entrevista a Caros Amigos, ele apontou algum elementos problemáticos , embora afirme:”Há muitos detalhes confusos e contraditórios, mas são tantos que não caberiam em nenhuma revista”. Veja abaixo algumas contradições levantadas pelo professor:
- No parágrafo 8 da página 448, o relator diz que, no caso do homicídio do açougueiro Sabbadin, o escolta do atirador era Battisti. Para provar que foi Battisti, disse que, além de provas (que não mostra), estão as testemunhas daqueles que assistiram ao homicídio ou seja, os clientes do açougue. Entretanto, algumas páginas antes diz que os clientes não puderam reconhecer ninguém porque os assaltantes estavam disfarçados.
- No caso do policial Andrea Campanha, o juiz toma como prova o fato de que, segundo a testemunha Manfredi, sogro do morto, o matador seria um homem loiro de uns 25 anos. Na página 522, o juiz reconhece que Battisti não é loiro, mas disse que pode ser ele, porque Battisti é castanho claro, e esta cor se parece com loiro.
- No primeiro homicídio, o do carcereiro Antonio Santoro, os magistrados mencionam várias testemunhas, todas pelo nome de família, sem indicar sexo, idade, profissão, domicílio nem nenhum outro dado. Entre as páginas 238 e 244, se mencionam Ronco, Menegon, Zampieri, Linassi, Pagano, Suriano, e na página 247, Ardizzone e Del Tosto. Nenhum deles foi jamais encontrado por jornalistas, nem aparecem em nenhuma outra lista. O que eles testemunharam foi que, num horário próximo ao do crime, havia um casal jovem que estava a uma pequena distância do local (não diz quanto). Ardizzone e Del Tosto descrevem apenas a mulher. Os outros descrevem ambos, mas os detalhes não coincidem. Ninguém descreve exatamente o corpo. O relatório disse ainda, numa parte, que o matador aplicou dois tiros pelas costas, e em outra parte, que aplicou três. Afirma-se que a arma usada era uma Glisenti, cuja propriedade foi atribuída a Battisti, porque teria sido encontrada na casa onde ele foi preso. Porém, na sentença de 1981, as 4 armas curtas encontradas na casa em que Battisti foi preso são descritas em detalhes: uma Berettam uma Browninge dois revólveres, um 38 e um 375. Nenhuma era uma Glisenti.
Dalmo de Abreu Dallari, jurista, também indica problemas que comprometeram a realização de um julgamento justo e imparcial. Ele afirma: “Tive acesso a muitos dados relativos ao processo que culminou com a condenação de Battisti. Examinando esses dados, verifiquei a ocorrência de vários vícios extremamente graves, que contrariam a afirmação de que houve um julgamento imparcial e justo. Assim, por exemplo, não foi assegurado ao acusado o direito de defesa, pois atuou no processo, aparentemente fazendo a defesa de Battisti, um advogado que utilizou procuração comprovadamente falsa e que não denunciou a falsidade das alegações da acusação, nem a precariedade das provas. Assim, Battisti foi condenado por dois homicídios praticados no mesmo dia e quase na mesma hora, em Milão e Veneza Mestre, locais que estão separados um do outro por dezenas de quilômetros, sendo praticamente impossível que ele estivesse nos dois lugares na hora em que os homicídios foram cometidos. A par disso, não foi apresentada qualquer testemunha presencial e a base da acusação foi o depoimento de um ‘arrependido’ na verdade um dos líderes do grupo a que Battisti estava filiado como um personagem menor, que fez as a acusações usando o mecanismo da ‘delação premiada’, recebendo benefícios em troca da acusação de outros. Portanto, não foi um julgamento imparcial e justo”.

BOX: Trajetória de uma fuga sem fim
Battisti nasceu em 1954, filho e neto de comunistas. Quando adolescente, cometeu alguns roubos, sendo preso em Udine, onde conheceu Arrigo Cavallina, um preso político do grupo de extrema esquerda, o PAC (Proletários Armados para o Comunismo). Battisti entrou para o PAC como um militante comum. Na Itália, assim como em toda Europa, os anos 1960-1970 foram marcados por lutas sociais, com o aumento das manifestações de ruas, ocupações e, inclusive, da luta armada e da via insurrecional. Conhecidos como os ‘anos de chumbo’, o movimento de revolta foi muito mais violento na Itália.
“A extrema esquerda luta contra o poder, que é corrompido e associado à máfia e, em parte, extrema direita. O poder utiliza a extrema direita para pôr bombas e atribuir os atentados extrema esquerda, o que os historiadores chamam de ‘Estratégia de Tensão’. Então, a extrema esquerda cai na armadilha e recorre as armas também” explica Fred Vargas. Segundo a historiadora francesa, nos anos 1970, existiu cerca de 600 grupos armados na Itália.
O PAC se forma no auge da ‘Estratégia de Tensão’, com a proliferação dos atentados praticados pela extrema direita com apoio da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), de acordo com o professor Paulo Arantes. “O que se passou na Itália foi um maio de 1968 (momento de insurreição na França) que durou 10 anos. Houve várias tentativas de Golpe de Estado, nesse contexto, houve estouros violentos dos dois lados, tanto da extrema direita, como da extrema esquerda. O PAC era uma das muitas organizações e não chegou a ter mais de 60 militantes ativos. Não era nenhuma ameaça para o governo italiano”, caracteriza Arantes.
Entre junho de 1978 e fevereiro de 1979, o PAC assumiu a autoria de quatro assassinatos: de um carcereiro chamado Antonio Santoro, do açougueiro Lino Sabbadin, membro do partido fascista MSI, do ourives Pierluigi Torregiani e do motorista do serviço secreto da polícia Andrea Campagna.
Por suas atividades no PAC, em 1979, Battisti foi detido e julgado pelos crimes de possuir armas não registradas e associação para cometer atos subversivos. Ele foi condenado a mais de 12 anos de prisão, sentença considerada exagerada por Carlos Lungarzo. “Durante o julgamento terminado em 1981, o Tribunal do Jurí de Milão não tem nenhum plano contra Battisti, os magistrados ainda não tinham decidido acusá-lo de nenhum homicídio. Ele foi julgado porque era conhecido como membro dos PAC, porém um membro pouco importante, e ele foi encontrado numa casa onde se guardavam algumas armas. O fato de que ele pegasse uma pena enorme (13 anos e 5 meses, depois reduzidos para 12 e 10 meses) se deve ao fato de que qualquer militante da esquerda armada tinha penas muito maiores que os autores de delitos comuns equivalentes”, afirma.
Em 4 de outubro de 1978, o serviço de inteligência da polícia de Milão identifica Pietro Mutti, um dos líderes do PAC, como autor da morte de Santoro, junto com uma mulher que seria sua escolta. Mutti, procurado durante mais de um ano, é capturado em janeiro de 1982, quando Battisti já não estava na Itália. Nessa época, a sentença de 1981 estava sendo apreciada em segunda instância e depois foi parcialmente confirmada pelo tribunal de apelações. Ou seja, o caso de Cesare estava fechado.
Por conta da presença de Mutti, e outros que foram capturados com ele, se abre um segundo processo, chamado PAC BIS, no qual Battisti é julgado de novo. Pelo acordo em que delata Battisti, Mutti teve sua pena reduzida de prisão perpétua para 8 anos. Neste período, Battisti já estava longe da Itália. O escritor foge da prisão em outubro 1981, atravessando os Alpes a pé rumo França. Lá ele permanece por alguns meses até se refugiar no México.
“Ele já está longe quando começa o segundo processo do PAC, em 1982, do qual ele seria informado apenas em 1990, quando retorna a França. Depois, ele vive durante 13 anos lá legalmente, sendo escritor e porteiro. Tem uma mulher e duas filhas”, conta Fred Vargas.
Battisti vive na França durante os anos da chamada Doutrina Miterrand, quando em 1985, o presidente francês François Mitterrand oferece proteção aos militantes da esquerda armada italiana. O pacto foi rompido, entretanto, pelo governo de direita de Jaques Chirac, e atualmente também por Nicolas Sarkozy.
Com isso, Battisti continua em sua fuga sem fim e, em 2005, se refugia no Brasil. A Itália pede a extradição do escritor e, em novembro de 2009, o Supremo Tribunal Federal decide por cinco votos a quatro pela extradição de Battisti, mas deixa palavra final para o presidente da República. Lula, no último dia de seu mandato, decide negar a extradição. A Itália contesta a decisão no STF, que voltará se manifestar sobre o tema. Enquanto isso, Battisti segue preso.
Em uma carta divulgada recentemente no Brasil, Battisti afirma:
“Depois de 14 anos de asilo, a França de Sarkozi me vendeu Itália de Berlusconi em troca do trembala [comboio de grande velocidade] de Lyon-Turin. Desde o ano 2000, estamos assistindo impiedosa tentativa do Estado italiano enterrar definitivamente a tragédia dos anos de chumbo, jogando na prisão e levando à morte o bode expiatório Cesare Battisti. Entre centenas de refugiados dos anos 1970 que se encontram em vários países do mundo, não fui escolhido eu por acaso nem pela importância do papel de militante, mas pela imagem pública que eu tinha enquanto escritor, o que me dava o acesso à grande mídia para denunciar os crimes de Estado naquela época e os atuais”.