sábado, 29 de janeiro de 2011

O post-it de Mainardi

De como as fontes italianas falavam o português

Por Luis Nassif

Terminei o capítulo anterior narrando a  tentativa de chantagem de Diogo Mainardi, em seu podcast semanal na Veja. Nele, o colunista afirmava dispor de informações que comprometeriam jornalistas, mas não as divulgava. Apenas ameaçava quem se metesse com ele.
Na semana seguinte (atual edição da revista), Mainardi avançaria alguns pontos em sua chantagem Na quinta, em novo podcast que reiterava as ameaças. Ora, se possuía as informações, por que não as divulgava?
Três pontos chamavam a atenção:
Ponto 1 - Dizia que graças ao fato de ter morado na Itália tinha muitas fontes italianas. “Meus sete informantes italianos continuam a me mandar documentos referentes ao processo por espionagem contra a Telecom Italia, conduzido pelo Procurador da República Fabio Napoleone”. Informação falsa.
Para ouvir, clique aqui

Um pequeno detalhe liquidava com sua versão: o post-it do arquivo PDF (chamado de bookmark, anotação que se coloca na barra do documento).
122 - Grampos: De Marco e Angra Partners
Como se sabe, o arquivo PDF pode ser editado, mas as alterações ficam registradas. No caso do relatório, alguém pegou partes do inquérito (que é sigiloso), scaneou e imprimiu.
Fez mais. Anotou os comentários dos principais trechos com a ferramenta. Depois, eliminou todos os bookmarks, mas esqueceu um: aquele que indicava, na página 122, "Grampos - De Marco e Angra Partners", no mais puro português do Brasil. Nas "Propriedades do Documento" havia as informações de que ele fora criado em 21 de janeiro de 2008 e modificado em 22 de janeiro - antes da data que Mainardi informava tê-lo recebido.
É evidente que não era nenhuma das "sete fontes italianas" que enviara a documentação para Mainardi, mas uma fonte brasileira. Por que a insistência em mentir sobre a origem da fonte?
Por que todas as indicações são de que sua fonte é Daniel Dantas - o mesmo Dantas que, quando foi desmascarado o dossiê falso sobre as contas fantasmas, Mainardi foi incumbido de acudir (clique aqui).
Pior: os grampos eram em cima de adversários de Dantas. Logo, as vítimas eram os adversários de Dantas, não o banqueiro. Quem encaminhou o arquivo para Mainardi deixou escapar não apenas o post-it como a informação. Mainardi obviamente nem leu o cartapácio: limitou-se a se deixar cavalgar.
(O arquivo pode ser encontrado no seguinte link, indicado na coluna dele, na última Veja (clique aqui). Para evitar alguma mudança no documento original, baixei o arquivo e o coloquei em outro endereço (clique aqui).)
Ponto 2 - “Assim que os documentos chegam aqui em casa, eu os encaminho à magistratura brasileira.. Se o Brasil tem uma saída, só pode ser através das leis”. A troco de que um jornalista ou para-jornalista recebe informações e, em vez de divulgá-las, as encaminha ao judiciário? Isso é papel de advogado. Tenho algumas hipóteses que analisarei no próximo capítulo.
Ponto 3 -  Mencionava o fato do empresário Luiz Roberto Demarco ter recebido US$ 1 milhão. E dava detalhes da conta que mantinha em Miami, em nome de um sócio, e que teria recebido US$ 100 mil.
Lembrava as relações de Demarco com fundos e imprensa. Sugere, obviamente, que parte desse dinheiro veio para a imprensa. Mas não ousava uma acusação, nomes, detalhes, nada. Também será analisado no próximo capítulo.
Finalmente, dizia que o nome do Presidente da República tinha sido mencionado no inquérito.
Guarde essas informações, por enquanto. Para melhor facilitar o entendimento, antes de avançar na análise vamos a uma pequena coleção de episódios jornalísticos, para explicar didaticamente - como estudo de caso - como ocorre a manipulação da notícia no mundo das disputas jurídico-empresariais.

Imprensa e Judiciário

Um dos pontos principais do manual de guerrilha nas disputas corporativas, é o uso das notícias como ferramenta auxiliar – seja para “assassinar reputações” ou "plantar" matérias para influenciar (ou fornecer álibis) para as sentenças dos juízes.

Episódio 1: o caso Lauro Jardim


Em agosto de 2000, por exemplo, os advogados dos fundos de pensão, liderados pelo ex-presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) Francisco da Costa e Silva, conseguiram realizar uma Assembléia Geral Extraordinária (AGE) do CVC-Opportunity – o fundo que controlava a Brasil Telecom. Foi a primeira vez que isso ocorreu, apesar de parte relevante do capital do CVC ser dos fundos. 
Com o controle da AGE, os fundos indicaram o advogado Fernando Albino para presidi-la. Albino autorizou que Costa e Silva retirasse as atas e documentos do CVC, para que pudesse xeroca-los. No dia seguinte, os documentos foram devolvidos, tudo de acordo com a lei e com as decisões da AGE.
A resposta de Dantas foi imediata, através da revista Veja.

Trombadas e trombadinhas

São cada vez menos elegantes as ações de certos advogados em defesa de seus clientes. Na semana passada, depois de uma tensa reunião entre os fundos de pensão e o banco Opportunity – que andam se estapeando em público há meses –, Francisco da Costa e Silva, advogado da Previ e ex-presidente da CVM, surrupiou a ata do encontro e se mandou. Supõe-se que ele saiba que o que fez é proibido pela legislação.
A nota saiu na edição de 16 de agosto de 2000 (clique aqui). Seção: Radar. Colunista: Lauro Jardim, o mesmo jornalista que aproximou o quarteto de Veja de Dantas.
Costa e Silva precisou enviar e-mail para cada um de seus clientes, para reduzir o estrago provocado pela nota. Mandou uma carta de esclarecimentos para a Veja - que não foi publicada.

Episódio 2: o caso Attuch-Rocha Mattos

Uma segunda manipulação da imprensa consiste na articulação entre diversos jornalistas, para dar foro de verdade a qualquer boato e, com isso, álibi para uma sentença favorável de algum juiz. Um jornalista divulga o primeiro boato ou notícia, verdadeira ou não, obtida por meios legais ou ilegais. Depois, outros jornalistas cooptados promovem a repercussão, garantindo o álibi para a sentença ou despacho do juiz. Esse modelo foi utilizado várias vezes no decorrer do último ano.
Em 8 de maio de 2002, despacho do notório juiz João Carlos da Rocha Mattos, da Quarta Vara Criminal de São Paulo para o Delegado Ariovaldo Peixoto dos Anjos, Superintendente da Policia Federal em São Paulo determina o seguinte:

“Senhor superintendente,

Pelo presente, encaminho a Vossa Senhoria, em anexo, matérias veiculadas nas edições 242, de 17.04.2002 e 244, de 01.05.2002, da revista “IstoÉ Dinheiro”, ambos os episódios (ilegível)  o controle (ilegível) das empresas de telefonia celular Telemig Celular e Tele Amazônia,  com menção inclusive a altos funcionários do Banco do Brasil e do Fundo de Pensão Previ, decorrentes de gravações de diálogos telefônicos mantidos entre as partes interessadas, envolvendo, em especial,  o presidente da empresa canadense TIW, Bruno Ducharme”.

Matérias jornalísticas semelhantes às mencionadas foram publicadas em outros órgãos de imprensa e, ao menos em princípio, constitui indício de credibilidade dos graves acontecimentos veiculados nas gravações das conversas telefônicas, se não se sabe se teriam ou não sido obtidas licitamente (...)"
(clique aqui).
A matéria, em questão, era de Leonardo Attuch. Houve repercussão em alguns outros órgãos de mídia, o suficiente para garantir o álibi para o despacho do juiz.


Rocha Mattos tornou-se, anos depois, um dos símbolos máximos da corrupção do Judiciário em São Paulo. Está preso até hoje.
Episódio 3: o caso Janaína Leite

Esse caso é relevante por estar inserido na atual onda midiática de Dantas. Antes de contar, algumas explicações para facilitar o entendimento de atos e respectivas conseqüências.

Primeiro, entenda qual é o objetivo jurídico do Opportunity quando articula sua rede de colaboradores em torno do inquérito sobre a Telecom Itália, que corre na justiça italiana. A partir daí ficará mais fácil compreender os movimentos de Diogo Mainardi e de outros jornalistas que trabalham de forma articulada em torno do tema.

Houve duas investigações sobre Dantas: uma legal, conduzida pelo Ministério Público e pela Policia Federal, com grampos, quebras de sigilo, tudo ao amparo da lei.

Paralelamente, aqui no Brasil, houve investigações da Telecom Itália – na gestão do cappo Marco Tronchetti Provera, no começo adversário, depois aliado de Dantas. Foram investigações ilegais, criminosas, sem autorização judicial.

É importante não entender a Telecom Itália como uma empresa com continuidade de ação. A empresa passou por vários controladores nos últimos anos. Todos os episódios relatados se referem à era Provera (que já foi afastado do seu comando), que começou combatendo Dantas e terminou se aliando a ele.

O que os advogados de Dantas buscam é a chamada “contaminação do inquérito” – isto é, trazer para o inquérito da PF o inquérito da Telecom Itália e as vinculações brasileiras. Fazendo isso, Dantas se livra. Qualquer juiz considerará que o inquérito se baseou em práticas ilegais. Daí o termo “contaminação”: as ilegalidades da Telecom Itália no Brasil (sob Tronchetti Provera) comprometerão os trabalhos legais da Policia Federal e do MP, porque estarão ambos reunidos no mesmo inquérito. E tudo terminará em pizza.

Insisto: anote bem essas observações, porque ficará mais fácil entender os caminhos que Diogo Mainardi passou a trilhar.


No julgamento de 12/12/2006, a Segunda Turma do Tribunal Federal Regional da 3a Região, acompanhou o voto da relatora – desembargadora Cecília Mello – e exigiu a incorporação do inquérito italiano ao inquérito brasileiro contra o Opportunity.

No seu voto, a relatora sustenta que o argumento dos advogados do Opportunity é que o inquérito da PF teve origem em prova ilícita, gravação de uma conversa entre Ângelo Jannone (chefe dos arapongas italianos) e Tiago Verdial (o português que tinha trabalhado na Kroll).

A desembargadora levou em conta reportagens jornalísticas que, segundo a desembargadora, noticiam “fatos gravíssimos”.

As reportagens são de Janaína Leite, da “Folha” de São Paulo, repórter que ganhou espaço no jornal no longo período, na grande noite que  acompanhou a agonia e falecimento do grande reformador do jornal Otávio Frias de Oliveira.

Até então, a área de telefonia e esses embates corporativos eram cobertos por Elvira Lobato – de longe a mais preparada e isenta repórter investigativa da área. De repente, o tema passa para a instância de Janaína Leite.

A matéria mencionada pela desembargadora  é de  21 de setembro de 2006 
(clique aqui), e diz o seguinte:

Segundo a Folha apurou junto a pessoas que colaboram nas investigações italianas, não está descartada a possibilidade de ramificações do caso acabarem no Brasil, onde a Telecom Italia participa de duas operadoras: a fixa Brasil Telecom e a móvel TIM Brasil.

Reparem no modelo de atuação:

1.    A repórter Janaína Leite publica uma matéria dizendo que há probabilidade das investigações sobre a Telecom Itália terem ramificações no Brasil. Diz que a "Folha" apurou.

2.    Com base nessa matéria, os advogados do Opportunity pedem que os inquéritos italianos sejam anexados aos da PF. Com isso conseguiriam “contaminar” o inquérito brasileiro.

3.    A desembargadora Cecília Mello aprova o pedido, citando como elemento os “fatos gravíssimos” que constam da matéria de Janaína

4.    Na semana passada, a Justiça (de Primeira Instância) tomou o depoimento de Rodrigo Andrade, que trabalha para o Opportunity. Pressionado a revelar seus contatos na imprensa, inclusive sob ameaça de prisão, Rodrigo informou que era Janaína Leite.
E, agora, se entra no desfecho desse xadrez. Um trabalho investigativo, conduzido pelos próprios leitores do Blog, permitiram descobrir as seguintes relações entre Mainardi e Janaína.
1. O leitor Aton Fon abriu as propriedades do PDF com o relatório sobre a Telecom Italia, e descobriu a data em que o documento foi preparado: criado em 21 de janeiro e modificado pela última vez no dia 22 de janeiro.

2. O leitor Salles pegou a dica e foi até o blog de Janaína Leite - que já admitiu ter como fonte Rodrigo Andrade, do Opportunity. Lá, ele levantou um post que falava sobre os problemas da Telecom Itália. Endossava todas as hipóteses do Opportunity, mas não mencionava a fonte de suas informações.
O nome do post era estranho: gOOdbOys, assim mesmo, com zero em lugar do O. E foi publicado no dia 21 de janeiro, mesmo dia em que o PDF foi criado.
3. Aí, consultou o texto da jornalista para entender o que vinha a ser esse g00db0ys.
4. Curioso, foi até o relatório sobre a Telecom Itália, indicado por Mainardi na sua última coluna. E o que achou?
A expressão era a mesma do relatório sigiloso sobre a Telecom Itália, inclusive com os zeros em lugar do "0". Janaína tinha se baseado no mesmo relatório de Mainardi.
A rede ajudou a desmascarar a pantomima em torno do relatório que Mainardi garantia ter recebido da Itália.
Orquestração
Não apenas Janaína, mas outros membros da rede se incorporaram à trama. A orquestração era clara.
No dia 11 de outubro de 2006, Diogo Mainardi publicava a coluna "Notícias da Itália", com o seguinte intertítulo (clique aqui ou clique aqui):
"O caso estourou duas semanas atrás. Os promotorespúblicos milaneses descobriram que a Telecom Italia tinha um esquema de pagamentos ilegais a autoridadesbrasileiras. O lulismo realmente ganhou o mundo. Em sua forma mais autêntica:o dinheiro sujo"

Na edição da "IstoÉ Dinheiro" de 4 de outubro de 2006 (da mesma semana), o enviado especial a Milão, Leonardo Attuch, bateu na mesma tecla (clique aqui).

"Caso Kroll: foi armação? Investigação na Itália aponta que políticos e policiais podem ter recebido dinheiro para deflagrar ação contra o grupo Opportunity".
A única diferença é que, para disfarçar sua atuação, Mainardi sempre trata de incluir Lula na história. Poderia lançar um segundo livro, "Lula, Meu Álibi".
Attuch nunca teve esses cuidados.
Hoje em dia, Janaína não mais trabalha na “Folha”. Os demais jornalistas e parajornalista continuam atuantes em seus respectivos órgãos de imprensa. 
Esse modelo de articulação advogados-jornalistas ocorreu em todo esse período e continua a ocorrer, mas com novos personagens se incorporando ao círculo.
Como o capítulo está longo, deixaremos os detalhes para o próximo.
Uma dúvida fica no ar. Com todo a movimentação em cima do tema, com a série provocando repercussões no meio jornalístico, empresarial e na própria Abril, por que Mainardi insistiu no assunto, com a sutileza de um "prego sobre vinil"? Tenho hipóteses. A resposta quem tem é ele - e suas fontes.

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