quarta-feira, 16 de março de 2011

A sucursal da Casa Branca


Por Leandro Fortes


Entre todas as bizarrices expostas pelo WikiLeaks, a mais interessante é a revelação, sem cerimônias, de que a Embaixada dos Estados Unidos mantinha (mantém?) uma verdadeira sucursal informal no Brasil, na qual se revezavam jornalistas (de uma só tendência, é verdade), a elaborar análises políticas – todas furadas, diga-se de passagem.


Na redação da embaixada brilharam, primeiro, os colunistas Diogo Mainardi, da Veja, e Merval Pereira, de O Globo. Segundo despacho de Arturo Valenzuela, secretário adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, em 2009, o “renomado colunista político” Mainardi, em almoço privado (?), disse que uma coluna propondo que a ex-candidata presidencial do Partido Verde (PV) e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva se tornasse candidata a vice do tucano José Serra havia nascido “de uma longa conversa” entre os dois, Serra e Mainardi, na qual o ex-governador de São Paulo afirmara que Marina seria sua “companheira de chapa dos sonhos”. De acordo com Valenzuela, Serra alinhou naquela conversa com Mainardi as mesmas vantagens que o colunista, mais tarde, iria listar em sua coluna: a história de vida e as “credenciais esquerdistas impecáveisï �½ �� de Marina poderiam bater o apelo pessoal de Lula aos brasileiros pobres e colocar Dilma Rousseff em desvantagem com a esquerda. Ao mesmo tempo, a vice verde ajudaria Serra a “mitigar” sua associação com o governo de Fernando Henrique Cardoso. Mainardi ainda preconizou que, mesmo sem sair como vice, Marina poderia apoiar Serra num segundo turno contra Dilma. Também apostou que Aécio Neves iria se juntar à chapa de Serra. Um profeta, como se vê.


A mesma lengalenga Arturo Valenzuela ouviu do colunista Merval Pereira, que rememorou uma conversa tida entre ele, Merval, e Aécio Neves, um dia antes do jornalista se reportar à Embaixada dos EUA, em 21 de janeiro de 2010. Ou seja, informação quentíssima! A Merval, informou Valenzuela à Casa Branca, Aécio Neves teria dito estar “firmemente compromissado” em ajudar Serra de qualquer maneira, inclusive se juntando à chapa. Uma chapa Serra-Neves, opinou Merval Pereira ao interlocutor americano, venceria fácil. “(Merval) Pereira pessoalmente acredita que não só Neves concorreria com Serra, mas que Marina também apoiaria Serra em um segundo turno”. Outro profeta.


Agora, sabemos pelo WikiLeaks que Humberto Saccomandi, editor de notícias internacionais do jornal Valor Econômico, acompanhado do analista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, também foram convocados pela sucursal da Embaixada a analisar a candidatura de Dilma, mas estes acertaram: a subida de Dilma Rousseff nas pesquisas iria favorecê-la no congresso nacional do PT, no fim de fevereiro de 2010, onde se esperava que ela anunciasse sua candidatura oficialmente.


Classificados de “críticos mais duros de Rousseff”, os jornalistas William Waack, da TV Globo, e Hélio Gurovitz, da revista Época, também foram à Embaixada dos Estados Unidos dar pitaco, mas em clima de torcida organizada pró-Serra. Waack descreveu para o Consulado Geral, em São Paulo, sua ida a um fórum de negócios do qual José Serra, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Ciro Gomes tinham participado. A análise, não fosse surreal, é pouco mais do que rasa. “De acordo com Waack, Gomes foi o mais forte no geral, Neves o mais carismático, Serra desligado, mas claramente competente (grifo meu), e Rousseff, a menos coerente”, escreveu, à Casa Branca, o embaixador Thomas Shannon, editor-chefe da sucursal. Crítica duríssima, essa de Waack.


Helio Gurovitz, diretor da Época, foi mais adiante ao se reportar à Embaixada do EUA. Descreveu o Brasil como similar ao Chile (onde a esquerdista Michelle Bachelet perdeu a eleição para o direitista Sebastián Piñera). Argumentou que a “base social do país” se desenvolveu de maneira que esta “base” – seja lá o que for isso, o povo é que não era – preferiria alternar partidos no poder para manter continuidade (sic), em vez de manter um partido no poder no longo prazo, “com isso provocando uma guinada na direção daquele partido no espectro político”. O embaixador, creio, não entendeu nada. Mas registrou, por via das dúvidas.


Com analistas assim, não é à toa que o governo Obama se encontra na situação que está.

segunda-feira, 7 de março de 2011

FHC cita méritos e omite erros



Tucano propõe comparação bizantina entre o seu programa de obras e o PAC
GUSTAVO PATU

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Não é difícil, para FHC, listar corretamente méritos de seu governo negados pela retórica palanqueira de Lula. Mais complicado é revisitar o período sem provocar a lembrança de erros e deficiências, também reais, que contribuíram para afastar os tucanos do Planalto.
“Sem medo do passado” é o título do artigo que o ex-presidente escreveu em defesa de seus dois mandatos. Se não há mesmo medo, as entrelinhas deixam transparecer que persiste, pelo menos, desconforto. Omissões e meias verdades contrastam com a defesa, alardeada no texto, de uma “política mais consciente e benéfica para todos”.
Em exatas 998 palavras e cifras que descem a minúcias, não há uma única menção, no exemplo mais flagrante, ao crescimento econômico -goste-se ou não, o indicador mais universalmente utilizado para mensurar o sucesso das administrações nacionais.
No mais perto que chega do tema, FHC propõe uma comparação bizantina entre o seu programa de obras Avança Brasil e o PAC petista, ambos conhecidos pela discrepância entre metas e realizações. E, claro, sem falar na crise de abastecimento de energia elétrica.
A renda nacional cresceu à média de 2,2% ao ano sob FHC e deve encerrar o período lulista com taxa anual de 3,7%, se confirmadas as expectativas dos analistas. Mais importante politicamente, o primeiro começou seu governo com expansão acelerada e terminou em estagnação, enquanto o segundo obteve o resultado inverso.
Nos últimos anos, os tucanos, com boa dose de razão, vinham atribuindo a vantagem de Lula à sorte de governar em um período de rara prosperidade internacional, livre das turbulências financeiras da década passada. Essa argumentação perdeu charme, no entanto, com o colapso global do final de 2008, do qual o Brasil saiu com perspectivas de rápida recuperação.
No artigo do ex-presidente, a única razão apresentada para a crise herdada por Lula é o temor provocado nos credores e investidores “por anos de “bravata” do PT e dele próprio” -nada se diz sobre a escalada das dívidas interna e externa nos anos anteriores, consequência de políticas do primeiro mandato tucano, corrigidas tardiamente no segundo.
Dólar barato e gasto público sem amarras sustentaram a popularidade inicial de FHC e garantiram sua reeleição no primeiro turno, mas levaram o endividamento público de menos de 30% para quase 50% do Produto Interno Bruto.
Câmbio e superávit
As medidas de ajuste adotadas a partir de 1999 -câmbio flutuante e metas de superavit fiscal- foram mantidas pelos petistas, como gostam de lembrar os tucanos. Mas tampouco o crédito, nesse caso, cabe à gestão FHC: tratou-se de uma imposição do FMI (Fundo Monetário Internacional).
Não por acaso, os indicadores mais palpáveis de melhora social do texto do ex-presidente estão circunscritos a seu primeiro governo. É o caso da queda aguda da pobreza, do aumento do rendimento médio mensal dos trabalhadores, do reajuste mais generoso do salário mínimo.
O artigo dribla o inconveniente com saltos nas datas. Recorda-se, por exemplo, que, “com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total” e depois menciona-se a taxa de 18% registrada em 2007, já sob o governo Lula. Não se menciona que, após a queda brusca do primeiro ano, a pobreza permaneceu nos mesmos patamares no restante do governo tucano.
Iniciativas celebradas do segundo mandato geraram mais frutos sociais, econômicos e políticos para Lula que para FHC. Além das correções da política econômica, o exemplo clássico é a criação do Bolsa Escola, depois ampliado e rebatizado como Bolsa Família.

Comentário de Luis Nassif - Mais alguns dados para reforçar a análise do Patú.
O Avança Brasil foi a primeira tentativa de organizar o orçamento federal em torno de programas horizontais – por exemplo, juntando todas as verbas da educação em um mesmo programa, todas da saúde etc. Entregou-se a gestão de cada programa a um gerente incumbido de levantar indicadores e fazer as cobranças. Depois, montou-se uma agenda de projetos privados em torno de cada investimento público realizado.
Falhou por três motivos. Gerentes não tinham ascendência sobre ministros. Os investimentos não foram realiados porque FHC não os colocou a salvo do contingenciamento – como no PAC. E, mais importante, FHC jamais se envolveu com o projeto.
Havia todo um sistema de acompanhamento em Lotus Notes. FHC podia acompanhar a situação de cada projeto. Uma vez Silveira me disse: Se o presidente entrar uma vez só no sistema e mandar um recado para um gerente, a coisa embala. Era a maneira de todo gerente saber que estava sendo acompanhado pelo Presidente.
Logo depois da tragédia do câmbio em 1999, participei de uma entrevista com FHC e perguntei se sabia do sistema e se tinha ligado alguma vez o computador para acompanhar um projeto. E ele: “Imagina!”.
Tempos depois escrevi uma coluna considerando Silveira um dos brasileiros da década, por seu esforço em racionalizar a gestão. FHC se entusiasmou e mandou um bilhete consagrador para ele. Qual a razão? O trabalho de Silveira começava a gerar bom marketing para seu governo. Apenas isso. Foi um Presidente absolutamente desinteressado não apenas de governar, mas do seu próprio país.

A propagada imparcialidade da grande imprensa é uma "ilusão de óticas"


Para jornalista de O Globo, blogosfera é parcial, imprensa não

E se os porta-vozes da opinião da grande imprensa tivessem seus contratos rompidos pelas "bolas-fora" que constantemente emitem?
Aí se os donos da grande imprensa considerassem a realidade como ponto de partida da construção da informação, não somente partindo do alinhamento ideológico que alicerçam uma disseminação comprometida?
Estas duas questões se anulariam...

Análises de expoentes da mídia como Alexandre Garcia, ex-porta voz do presidente Figueiredo, Jabour, Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Lúcia Hipólito entre outros, não fornecem o perigo contido na primeira pergunta, porque estes bebem sedentos da fonte da segunda questão...

A imprensa brasileira sofre de uma grave crise de credibilidade, acentuada pelo surgimento da blogosfera independente, notadamente protagonizada por blogueiros progressistas, opositores da desinformação vigente nas redações dos gigantes veículos de comunicação, construtores de uma nova pauta: livre, diversa, analítica, real.

A imprensa brasileira pratica a memória seletiva: esconde seus erros e golpismos nos cortes editoriais e pelos intervalos comerciais...
A opinião da imprensa brasileira é um vaticínio, não tem como errar, pois tem todo o tempo do mundo para comprovar que estava certa "desde o início", mesmo que para isso precise desinformar, mentir ou manipular os fatos...Honduras, Chávez, Morales, Lula, Wikileaks, enchentes, futebol brasileiro e Dunga são alguns exemplos clássicos de que, em algum momento, a mídia dirá que estava certa em seus prognósticos, porque "são incapazes" de falhar!

Ler o que a imprensa brasileira diz, em geral, é um exercício de leituras inóspitas para o bom senso, ou para a convergência com a realidade e o momento histórico captados.  Tais textos publicados pela grande imprensa beiram, quase sempre, as armadilhas das chamadas que se contradizem no miolo dos próprios textos.  Não servem como informação, apenas como artefatos, muitas vezes políticos, para incriminar ou recriminar seus adversários em benefício de seus aliados.

"O Globo serve a sociedade, a blogosfera ao governo"
Durante a posse de Dilma um jornalista do diário O Globo se aproximou de mim e de alguns amigos para colher algumas impressões para sua cobertura sobre aquele fato.  Quando perguntei de que órgão ele era e respondeu que era de O Globo, brincamos em perguntar o que O Globo fazia ali.  Respondeu-nos que não era bem "assim", que a mídia teria que cobrir o governo e investigar seus erros.  E que se só existisse Paulo Henrique Amorim, Record, Azenha e Carta Capital o governo "faria o que quisesse, sem a sociedade tomar conhecimento".  Ele desistiu da matéria conosco, não servíamos para a sua pauta...
A idéia de que a imprensa age como órgão oficial de oposição já está incrustada na cabeça de seus mais comuns colaboradores.  E que órgãos livres, segundo o catequismo das redações da grande imprensa, fazem apenas o trabalho de "ajudar o governo", pois não se interessam em informar a sociedade, tal qual fazem, "exemplar e imparcialmente", O Globo, Folha, Estadão, Veja, Época etc...

Miguel Nicolelis afirma que, destruindo o castelo de areia das redações conservadoras:  "...Não existe imparcialidade nem jornalística nem científica(...)O que aconteceu no Brasil na eleição passada foi a demonstração da falácia de certos meios de imprensa e do partidarismo que invadiu essa opinião dita imparcial. Mas o desmentido só ocorreu nesse lugar capilarizado chamado blogosfera. A guerra da informação foi travada aí. A eleição foi ganha na trincheira da blogosfera, porque os desmentidos eram instantâneos”.

terça-feira, 1 de março de 2011

Doutrina do Choque, Estados Unidos

Por PAUL KRUGMAN

Aqui vai uma reflexão: talvez Madison, Wisconsin, não seja mesmo o Cairo. Talvez seja Bagdá — especificamente, Bagdá em 2003, quando o governo Bush colocou o Iraque sob o controle de autoridades escolhidas mais pela lealdade e confiabilidade políticas do que pela experiência ou competência.
Como muitos leitores vão lembrar, os resultados foram espetaculares — no mau sentido. Em vez de focar nos problemas urgentes de uma economia e sociedade destroçadas, que em breve mergulhariam em uma guerra civil assassina, os nomeados por Bush estavam obcecados com a imposição de sua visão ideológica conservadora. De fato, com saqueadores ainda soltos pelas ruas de Bagdá, L. Paul Bremer, o vice-rei americano, disse a um repórter do Washington Post que uma de suas maiores prioridades era “corporificar e privatizar as entidades estatais [iraquianas]“– palavras do sr. Bremer, não do repórter — e “afastar das pessoas a ideia de que o estado está presente em tudo”.
A história da obsessão privatista da Autoridade Provisória de Coalizão é central no best seller de Naomi Klein, “A Doutrina do Choque”, que argumentou que o Iraque fazia  parte de uma tendência mais ampla. Desde o Chile nos anos 70, ela sugeriu, ideólogos da direita exploram crises para empurrar sua agenda, que não tem nada a ver com a resolução das crises, mas tudo a ver com a imposição de uma sociedade mais dura, mais desigual, menos democrática.
O que nos leva a Wisconsin 2011, onde a doutrina do choque está sendo demonstrada em seu conjunto.
Em semanas recentes, Madison é o cenário de grandes demonstrações contra o orçamento do governador, que negaria o direito de barganha coletiva aos trabalhadores do setor público. O governador Scott Walker alega que precisa aprovar a lei para lidar com os problemas fiscais do estado. Mas seu ataque aos sindicatos não tem nada a ver com o orçamento. Na verdade, os sindicatos já deixaram clara sua posição de fazer substanciais concessões financeiras — uma oferta que o governador rejeitou.
O que está acontecendo em Wisconsin é, na verdade, uma jogada de poder — uma tentativa de explorar a crise fiscal para destruir o último contrapeso ao poder político das corporações e dos ricos. E a jogada de poder vai além de destruir os sindicatos. A lei em questão tem 144 páginas e há algumas coisas extraordinárias encondidas nela.
Por exemplo, a lei inclui linguagem que permitiria a autoridades nomeadas pelo governador fazer grandes cortes no seguro de saúde de famílias de baixa renda sem passar pelo processo legislativo normal.
E então há isso: “Sem considerar ss. 13.48 (14)(am) e 16.705 (1), o departamento pode vender qualquer usina de aquecimento, esfriamento ou hidrelétrica ou pode contratar entidade privada para a operação de tal usina, com ou sem concorrência pública, por qualquer valor que o departamento determinar ser o melhor para os interesses do estado. Apesar da ss. 196.49 e 196.80, nenhum aprovação ou certificação de uma comissão de serviço público é necessária para que uma empresa pública compre ou contrate para a operação de tal usina, e qualquer compra é considerada de interesse público desde que considere os critérios de certificação do projeto sob s. 196.49 (3)(b)”.
O que significa isso? O estado de Wisconsin é dono de um certo número de usinas que fornecem aquecimento, refrigeração e eletricidade a entidades estatais (como a Universidade de Wisconsin). A linguagem na lei do orçamento permite, na verdade, que o governador privatize qualquer uma delas. Não apenas isso, ele poderia vendê-las, sem concorrência, a quem ele escolher. E note que qualquer venda destas, por definição, seria “considerada de interesse público”.
Se parece a você a perfeita armação para compadrio e lucro — lembram-se daqueles bilhões sumidos no Iraque? — você não está só. Na verdade, existem tantas cabeças suspeitando da Koch Industries, de propriedade dos irmãos bilionários que jogam um papel decisivo na ofensiva do sr. Walker contra os sindicatos, que a empresa se sentiu forçada a emitir uma nota dizendo que não está interessada na compra das usinas. Você se sente seguro disso?
A boa nova de Wisconsin é que o ultraje público — ajudado pelas manobras dos democratas no Senado estadual, que se ausentaram para negar quorum aos republicanos — reduziu a marcha dos lerdos. Se o plano do sr. Walker era aprovar a lei antes que as pessoas tivessem noção de seus reais objetivos, aquele plano fracassou. E os eventos em Wisconsin podem ter impactado outros governadores republicanos, que pareciam a caminho de apoiar jogadas parecidas.
Mas não esperem que o sr. Walker ou o resto de seu partido mudem seus objetivos. Destruir os sindicatos e privatizar continuam sendo prioridades e os republicanos vão continuar a esconder estas prioridades sob o discurso de “equilibrar o orçamento”.