sexta-feira, 27 de maio de 2011

As mesquinharias e a história

Para Foucault, sempre houve alguma "mesquinharia" na origem de todos os grandes acontecimentos históricos. O Brasil está vivendo uma experiência epistemológica interessante e ilustrativa a respeito deste assunto. O caso de um mesmo personagem político, que comete duas vezes duas “mesquinharias” parecidas, mas com conseqüências opostas.

[...] foi de mesquinharia em mesquinharia, de pequena em pequena coisa, que finalmente as grandes coisas se formaram.”
M. Foucault, “A verdade e as formas jurídicas” p: 16, 2003, Nau Editora, RJ

O filósofo francês, Michel Foucault (1926-1984), teve participação decisiva no debate epistemológico da segunda metade do século XX, questionando de cima a baixo, a visão clássica da filosofia ocidental, a respeito da ciência e da história. Junto com vários outros pensadores europeus e norte-americanos, colocou sob suspeita a existência de um conhecimento e de um “método científico” universal, e criticou a idéia de uma história humana evolutiva, progressiva e teleológica. Para Foucault, a história é descontínua, plural e dispersa, e “as coisas que parecem ser as mais evidentes, nascem sempre da confluência de encontros, acasos, ao longo de uma história frágil e precária.”

A visão da ciência e do conhecimento de Michel Foucault remete à uma discussão epistemológica extremamente complexa. Mas sua visão da história acabou se popularizando, ao se associar de forma simplificada à sua própria afirmação de que sempre houve alguma “mesquinharia” na origem de todos os grandes acontecimentos históricos. Como ele dizia, toda grande mudança teve “pequenos começos, baixos, mesquinhos, inconfessáveis.” O que Foulcault nunca explicou foi como identificar e distinguir uma “mesquinharia” que terá “grandes conseqüências”, de uma “mesquinharia” que será esquecida imediatamente pelos seus contemporâneos.

Com certeza, o problema não é simples nem fácil de responder. Basta comparar alguns acontecimentos bem conhecidos. Por exemplo, todos os que assistiram pela televisão, os atentados de 11 de setembro de 2001, tiveram certeza imediata de que estavam frente à uma “mesquinharia” que mudaria o rumo da história. Mas quase ninguém conseguiu perceber – na hora - a importância e as conseqüências catastróficas do tiro que foi dado pelo estudante Gavrilo Princip, de 19 anos de idade, no dia 28 de junto de 1914, na cidade de Sarajevo, na Boznia-Hersogovina, responsável pela morte do arquiduque Francisco Ferdinando, e de sua esposa, Sofia Chotek, herdeiros do trono da Áustria. Uma micro-história rocambolesca, que deu origem à Primeira Guerra Mundial, foi responsável por um dos maiores genocídios da história humana, e mudou radicalmente a história da Europa e do Mundo.

Outra dificuldade aparece quando se compara uma mesma “mesquinharia” e suas conseqüências, em momentos e contextos distintos. Como é o caso, por exemplo, da “compulsão sexual” do presidente Kennedy, que contribuiu para sua aura de jovem rico, de sucesso e traquinas. Ao contrário do presidente Clinton, que tinha o mesmo entusiasmo sexual, e quase sofreu um impeachement por conta de sua relação com Monica Lewinski, que paralisou inteiramente o seu segundo mandato. Para não falar do caso mais recente do senhor Dominique Strauss-Kahn, que perdeu a presidência do FMI e da França (provavelmente), graças às suas “mesquinharias sexuais”. Ou seja, como se pode ver, não é fácil de saber, de antemão, quais mesquinharias ficarão e quais irão para a lata de lixo da história.

Agora mesmo, o Brasil está vivendo uma experiência epistemológica extremamente interessante e ilustrativa a respeito deste assunto. O caso de um mesmo personagem político, que comete duas vezes duas “mesquinharias” parecidas, mas com conseqüências opostas.

Primeiro, foi a quebra do sigilo bancário do jardineiro Francenildo, e agora foi a denúncia do seu enriquecimento súbito, segundo parece, no tráfico de influências dentro do setor público. O mais provável é que estas duas mesquinharias tivessem passado desapercebidas, caso se tratasse apenas de um homem comum, sanitarista de interior, ou representante de algum laboratório produtor de vacinas, com grande compulsão financeira e que subiu rápido na vida fazendo uso de suas boas relações publicas. Mas tudo isto muda obviamente de figura e importância quando se está falando de um homem de Estado, que esteve situado no epicentro da política econômica, e agora supervisiona as nomeações e decisões estratégicas de um governo em pleno processo de formação.

No caso do jardineiro Fracenildo, o afastamento do Ministro da Fazenda permitiu uma virada à esquerda que abriu as portas para o sucesso do segundo governo Lula. Mas neste segundo caso, as conseqüências que estão em pleno curso estão apontando numa direção absolutamente oposta. Graças às novas “mesquinharias financeiras” do mesmo personagem, o que vinha sendo apenas um governo insípido e tecnocrático – de economistas para economistas – agora está assumindo a imagem do seu principal condutor político: a de um velho lobbista do setor privado, junto aos centros de poder responsáveis pelas compras, vendas e investimentos do setor público; e a de um representante político ativo, e membro novo-rico da direita econômica.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Palocci e o método Lula

Por Janio de Freitas em 27/5/2011
Reproduzido da Folha de S. Paulo, 26/5/2011; intertítulos do OI
O Lula que reaparece para "assumir a defesa" de Antônio Palocci, o qual já precisou afastar do governo por atitude delinquente e imoralidade administrativa, é um dos piores Lulas: o Lula que faz calúnias fáceis e desumanas.
"A imprensa" a que Lula volta a atribuir conduta de má-fé, com as notícias sobre o enriquecimento peculiar de Palocci, é uma forma verbal que se presta à dispensa cômoda de referir-se aos jornalistas ligados ao assunto em questão. As revelações, antes de o serem da imprensa, que as veicula, o são dos jornalistas. Nunca os que prestem serviços palacianos e partidários, menos ou mais disfarçados, ou façam "jornalismo" mais de ficções que da disposição de expor-se às adversidades da profissão. Não é a estes que Lula se dirige.
Exaltado, diz Lula que o bombardeio da imprensa a Dilma começou muito antes do que ocorreu à sua Presidência. De fato, demorou um pouco a revelação ao país, por intermédio da Folha, do tráfico de dinheiro entre políticos operado pelo conluio de parte da cúpula petista com Marcos Valério. E, é certo, tardou mais ainda a revelação da casa utilizada por lobistas com o então ministro principal de Lula.
Acusação caluniosa Mas não é verdade, e é caluniosa, a acusação de Lula a propósitos de bombardear Dilma e, para tanto, valer-se das revelações sobre os negócios inconfessados, e até agora inconfessáveis, de Palocci outra vez feito ministro por Lula, apesar de tudo. Nem, muito menos, tais revelações têm o objetivo político de "testar a Dilma". Excetuado Fernando Henrique Cardoso, e por motivos óbvios, Lula não demonstraria que algum outro presidente, desde o fim da ditadura de Getúlio, fosse tratado com mais consideração pessoal e cuidado crítico do que Dilma Rousseff em seus cinco meses iniciais (ao que acrescento: tratada como fez por merecer).
As duas revelações fundamentais do novo caso Palocci − a compra multimilionária de imóveis e a colheita gênero megassena logo em seguida à eleição de Dilma − foram publicadas pela Folha e elaboradas como notícias objetivas. Sem qualquer extrapolação excedente aos fatos. Nada do publicado ali foi desmentido. A nota de defesa de Palocci, para que senadores, deputados e ministros falassem por ele, foi confirmação inequívoca das revelações. Até com um acréscimo inábil, constatado por artigo nesta coluna, que levava à revelação de posse, além dos imóveis, de riqueza em espécie posta sob guarda e aplicações de empresa especializada.
Fins intimidatórios A atribuição de segundas e outras intenções a jornalistas sérios, como Lula praticou quando presidente e volta a fazer, é caluniosa para com profissionais que se esforçam por um jornalismo honesto. E, sem motivo algum, desumanamente desrespeitosa com eles como pessoas. Os quais nem ao menos são citados nominalmente, para justificar uma defesa.
Com o tempo de vida passado como testemunha e partícipe daquele esforço, não dá mais para ver, como se nada significassem, essas violências e injustiças de fins intimidatórios. E não exclusivas de Lula, apesar de sua especialidade. Nunca estive e não estou nem perto das linhas de frente dos defensores da imprensa, brasileira ou outra. Mesmo quando Lula me atribuiu a intenção de causar prejuízo eleitoral ao PT, por ter revelado uma fraude (comprovada) em concorrência na então prefeitura petista de Campinas, apenas assinalei sua atitude. Mas o golpe da calúnia se tornou hábito. Os aborrecimentos para dentro do jornalismo não cabem mais só nele. Se posso usar este para protestar, é o que faço.
O leitor que ache nada ter com isso, e ainda assim chegou até aqui, queira desculpar. Mas tem muito mais a ver com isso do que pode supor.

Empresa da filha do José Serra cresceu 50.000 vezes em apenas 42 dias

Empresa da filha do José Serra cresceu 50.000 vezes em apenas 42 dias

A imprensa brasileira que divulgou o dossiê Palocci, noticiando que seu patrimônio aumentou 20 vezes em 4 anos, o que dirá do aumento vertiginoso de 50.000 vezes da empresa da filha de José Serra (PSDB/SP) em 42 dias?


Verônica Allende Serra, filha de José Serra, era sócia da empresa DECIDIR.COM BRASIL, já conhecida de outras reportagens.


A empresa teve seu capital multiplicado por 50.000 (cinquenta mil vezes)… repetindo para você ter certeza do que está lendo: 50 MIL VEZES!


E isso em apenas 42 dias.


A empresa foi criada no dia 8 de fevereiro de 2000, com capital de R$ 100,00 (cem reais).


Quinze dias depois, no dia 22 de fevereiro de 2000, o nome da empresa mudou para “Decidir.com Brasil S.A.” e a sócia Verônica Allende Serra (filha de José Serra) assumiu o cargo de Diretora e de Vice-presidente da empresa.


Em 21 de março de 2000, passados 42 dias da criação da empresa, o capital foi aumentado para R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais), ou seja 50 mil vezes o valor incial.


Detalhes:


Verônica Allende Serra não era apenas filha de José Serra. Também era sócia do pai em outra empresa, de consultoria, simultaneamente: na ACP – ANÁLISE DA CONJUNTURA ECONÔMICA E PERSPECTIVAS LTDA (conforme citado na ação proposta do Ministério Público Federal, aqui)


José Serra era ministro da Saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso, nesta época, e pré-candidato à presidência da República.


O Ministério Público Federal apurou que José Serra NÃO DECLAROU sua empresa de consultoria à Justiça Eleitoral, nas eleições em que concorreu em 1994, 1996 e 2002.

Documentação comprova:


Nosso blog não precisou bisbilhotar o sigilo fiscal na Secretaria de Fazenda de São Paulo (comanda pelo serrista Mauro Ricardo), para obter os documentos abaixo:


quinta-feira, 19 de maio de 2011

O declínio do império de Dantas

A trajetória do banqueiro que surgiu junto com o novo capitalismo financeiro, cresceu nas privatizações e se instalou na estrutura do Estado

Por Anselmo Massad e Glauco Faria
Atribuir a Daniel Dantas o papel de simples corruptor é ignorar o ambiente extremamente favorável em que ele adquiriu e consolidou seu poder. Mais que isso, ele é fruto e também agente das concepções financistas que dominaram os debates econômicos mundiais na década de 80, e que posteriormente fincariam suas raízes no Brasil.
Tido como “gênio” por Mário Henrique Simonsen, conselheiro mundial do Citigroup e responsável pela apresentação de Dantas ao mercado, o banqueiro baiano é um economista que se adaptou com maestria às engenharias criadas pelo capitalismo contemporâneo, além da necessária aproximação com o poder político. Em 1989, ele fez parte, junto com Eliana Cardoso, da delegação do país que participou do famoso seminário promovido pelo professor John Williamson, do Institute for International Economics (IIE) de Washington D.C., sendo um dos responsáveis pelo diagnóstico do caso brasileiro. Na ocasião, foi realizado um balanço das reformas econômicas promovidas na América Latina, chegando-se a uma agenda comum de medidas a serem implementadas pelos países da região. Assim surgia o famoso Consenso de Washington, que receitava, no geral, desregulamentação da economia, abertura de mercado, privatizações e controle da inflação. Na prática, as “recomendações” eram uma forma pouco sutil de organismos multilaterais como o Banco Mundial e o FMI dizerem aos latino-americanos o que fazer para renegociarem suas dívidas externas.
Àquela altura, Dantas já não era um novato no mundo das finanças. Doutor em economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), já havia participado de uma espécie de “privatização branca” do sistema Telebrás, promovida pelo governo Sarney. Como lembra o jornalista Luís Nassif, em seu livro Os Cabeças de Planilha, Dantas, junto com Citigroup, consegue comprar ações a US$ 1, valor 20 a 30 vezes inferior ao praticado no mercado. Com a operação, o grupo estadunidense obtém um lucro de centenas de milhões de dólares, o que solidifica a relação entre os dois parceiros, que seria vital no processo de privatização engendrado na era FHC.
A 15 de março de 1990, Fernando Collor tomou posse como presidente da República e, em seu primeiro discurso, revelou: “essa proposta de modernização econômica pela privatização e abertura é a esperança de completar a liberdade política, reconquistada com a transição democrática, com a mais ampla e efetiva liberdade econômica”. No governo anterior, José Sarney já havia instituído o Programa Federal de Desestatização, que tinha como objetivo “transferir para a iniciativa privada atividades econômicas exploradas pelo setor público”, visando a “concorrer para a diminuição do déficit público” e “propiciar a conversão de parte da dívida externa do setor público federal em investimentos de risco, resguardado o interesse nacional”. Collor aprimorou a receita com o Programa Nacional de Desestatização, cuja execução passa a ser responsabilidade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
No segundo semestre de 1991, o governo federal tocou a privatização da Usiminas e entregou uma nova “carta de intenções” ao FMI, em uma clara aceitação aos ditames do Consenso de Washington. “Está lá bem claro na carta de intenções: em troca de um empréstimo stand by (crédito de curto prazo) no valor de US$ 2 bilhões, destinado à rolagem da dívida externa junto aos credores internacionais, o governo brasileiro está se comprometendo a manter firmemente a atual política recessiva, baseada na manutenção de altíssimas taxas de juros, arrocho salarial sem precedentes, contenção inédita dos gastos públicos e transferência do patrimônio público ao capital privado”, comentava à época o economista Luiz Carlos Gomes em artigo da Revista Princípios.
E é dentro desse contexto que o Banco Icatu, do qual Dantas era presidente, começa a se destacar. Aqui aparece a figura do padrinho Simonsen, que havia indicado o jovem ao empresário Antônio Carlos Almeida Braga, dono da Seguradora Atlântica Boavista. Seus filhos Kati e Luis Antônio formaram com Dantas o Icatu, que, logo após a edição do Plano Collor, realizaria um dos seus negócios mais ruidosos. Pouco antes do confisco, investiu na compra de estoques de soja e café, exportando os estoques enquanto a maioria do mercado penava com a falta de liquidez. A jogada teria sido realizada em função de informações privilegiadas.
Ainda por meio do padrinho, aproximou-se do PFL e de Antônio Carlos Magalhães. O fato é que o trânsito de Dantas no Planalto era bom, tanto que Collor chegou a cogitar seu nome para ministro. O jornalista Cláudio Humberto, no seu livro Mil dias de Solidão, narra: “No dia seguinte à sua chegada [a Roma, Itália], em janeiro de 1990, Collor convidaria os economistas Zélia Cardoso de Mello e Daniel Dantas para a conversa sobre a economia brasileira. Impressionado com as propostas algo malucas, desconcertantes, de Dantas, enfant terrible do mercado financeiro e muito bem recomendado pelo ex-ministro Mário Henrique Simonsen, Collor aproveitou o ensejo para mostrar a Zélia que ela não tinha motivos para se considerar a titular do cargo de ministra da Fazenda ou da Economia do futuro governo”.
Se os anos Collor (e também os do governo Itamar que, apesar da aparente divergência em relação a seu antecessor, continuou com parte do ideário e com o programa de privatizações) foram árduos para o país, Dantas conseguiu se sobressair. O Equity, fundo de ações do banco Icatu, tornou-se o mais rentável do planeta em 1993, quando seus rendimentos ficaram 156% acima do dólar.
A parceria com a família Braga no Icatu duraria até 1994, quando Dantas fundou o grupo Opportunity. Vôos mais altos estavam sendo preparados.
O pulo do gato: as privatizações
Na elaboração do Plano Real, lançado em 1993, estavam pessoas próximas a Dantas. A mesma Eliana Cardoso do Consenso de Washington estava lá, assim como Pérsio Arida. Este foi diretor do Banco Central no governo Sarney e, no governo Itamar, ocupou a presidência do BNDES até 1995, quando se tornou o primeiro presidente do BC na era FHC.
Sua esposa, Elena Landau, foi diretora de Desestatização do BNDES, posto assumido ainda no governo Itamar. Em entrevista ao site Bolsa Mulher realizada em janeiro de 2001, em que fala do seu gosto por casamentos, sobre como manter a forma e cuidar dos filhos na “loucura do dia-a-dia”, Landau arranja um espacinho para falar das privatizações: “Foi uma fase interessante porque precisávamos dar um empurrão. O negócio tinha que pegar e pegou. Aí eu fico muito satisfeita”, conta. “Tinha uma certa dúvida se o Itamar Franco ia dar continuidade. A gente começou a pensar em serviços públicos, começou a discutir a questão das agências reguladoras. Então, teve uma parte conceitual muito interessante de trabalhar e uma parte mesmo do dia-a-dia. É um desespero o dia-a-dia da privatização. Ela era uma coisa assim. Ao mesmo tempo que você tinha que vender uma empresa, você tinha que entender de avião e, do outro lado, você tem que entender de ferrovia. Você tinha que aprender um pouco de tudo. Era legal porque era uma época em que tinha uma confiança na questão da privatização.”
A saída do casal do governo (primeiro Arida, depois Landau) mostra como no Brasil a relação entre o público e o privado é algo sombrio. Arida, dez meses após deixar a presidência do Banco Central, passou a ser sócio de Dantas no Opportunity e a ocupar uma cadeira no Conselho da Vale do Rio Doce como representante do grupo. Já Landau ocupou uma vaga como representante da Southern Electric Participações do Brasil, consórcio formado pela Southern, AES e o grupo Opportunity, no conselho da Companhia Energética do Estado de Minas Gerais (Cemig) em 1997 (veja na pág. 13).
Mas Landau tinha razão quanto à popularidade da privatização à época do primeiro mandato de FHC. As estatais vendidas anteriormente eram tidas como modelo, já que seus balanços apresentavam números excelentes. Claro que não se incluía na discussão outros dados, como o investimento feito antes da venda e nem as condições pra lá de favoráveis proporcionadas aos compradores. Mas a opinião pública não tinha a aversão de hoje, que fez até o candidato tucano Geraldo Alckmin contradizer, nas eleições de 2006, o passado privatista de seu partido no poder.
Com a estabilidade econômica, FHC estava à vontade para aprovar no Congresso as mudanças necessárias para incrementar o programa instituído por Collor. Mas os mecanismos precisavam ser aperfeiçoados e, para isso, o governo conta com a colaboração do próprio Daniel Dantas, de acordo com relato dele próprio na CPI conjunta dos Correios/Mensalão, em 21 de setembro de 2005. O banqueiro contou que foi procurado em 1996 pelo Citibank, que estaria interessado em formar um fundo para investir no Brasil. “Foi-nos então dito que, para que essa iniciativa pudesse se concretizar, era necessário captar recursos institucionais, outros adicionais aos recursos que seriam investidos pelo Citibank. O volume de investimentos que eles fariam era expressivo e catalisaria e fomentaria outros investidores que nos acompanhariam nessas iniciativas. Havia uma perspectiva, que foi concretizada, de que pudéssemos trazer para o Brasil algo em torno de US$ 3 bilhões”, explicou Dantas à comissão. “Eu, em conjunto com os representantes do Citibank, fomos ao governo brasileiro, inicialmente ao presidente Fernando Henrique Cardoso, e pedimos e sugerimos que, se fosse possível, criar uma linha e uma estrutura que pudesse apoiar esse tipo de iniciativa. Fizemos uma primeira explanação do que se tratava esse tipo de fundo, que, em inglês, chama-se um fundo de private equity, mas como acho melhor usar o termo em português, se pudesse arriscar uma tradução, um fundo de participações privadas.”
Sugestão aceita, Dantas pôde viabilizar investimentos e consolidar seus negócios participando de boa parte das privatizações feitas no governo FHC. O que deveria ser gestão de recursos se tornou controle absoluto de empresas a partir de uma minoria acionária e um emaranhado de confecções de estruturas societárias. Mas contando também com a providencial ajuda dos fundos de pensão, uma relação que se explicitou a partir do chamado “escândalo dos grampos”.
Um diálogo gravado ilegalmente mostrava a disposição do governo em resolver os “problemas” decorrentes da negociação envolvendo a venda das empresas da área de telefonia.


Está tudo acertado – dizia o então ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros – Mas o Opportunity está com um problema de fiança. Não dá para o Banco do Brasil dar?

Acabei de dar – assegurava Ricardo Sérgio de Oliveira, diretor de relações internacionais do Banco do Brasil e com extrema influência na atuação do fundo de pensão do banco, a Previ.

Não é para a Embratel, é para a Telemar.

Dei para a Embratel e 874 milhões para a Telemar. Nós estamos no limite da nossa irresponsabilidade. São três dias de fiança para ele – responde Ricardo Sérgio.

No caso da Telemar, a manobra não foi bem sucedida, mas Dantas conseguiu, com o apoio da Previ – fundo previdenciário dos funcionários do Banco do Brasil, o maior do país – e de outros fundos de estatais, arrematar o controle, até 1998, do porto de Santos, da Brasil Telecom, do Metrô do Rio, da Sanepar e da Cemig.
Mas a relação não seria um mar de rosas. Muitos conheceram a voracidade de Dantas no episódio da compra da Tele Centro-Sul, em que os fundos entraram com o dinheiro necessário para comprar ações preferenciais (sem direito a voto), a R$ 1 mil cada, enquanto uma empresa controlada “virtualmente” pelo advogado Luiz Raymundo Tourinho Dantas, pai do banqueiro, pagava R$ 1 por ação ordinária (com direito a voto), abocanhando 62% delas e o controle da companhia. Os fundos não gostaram do passa-moleque.
Em 2000, as relações iriam azedar ainda mais, em especial com a Previ. O fundo de pensão do Banco do Brasil viu assumir, pela primeira vez em sua história, os primeiros diretores eleitos entre os participantes – para administrar passivos, enquanto os negócios futuros se mantêm nas mãos dos indicados pelo governo até hoje. Essa possibilidade levou diretores ligados à oposição ao governo federal da época para cargos como a diretoria de Participações e de Administração.
Tal movimento foi responsável pelo início da briga para tirar do Opportunity o controle das empresas, efetivado mesmo na condição de sócio minoritário. As tentativas judiciais avançaram até junho de 2002. Um mês depois de uma reunião entre Dantas e o presidente da República Fernando Henrique Cardoso, foi divulgada a decisão de dissolver a diretoria da Previ. Entre os destituídos estavam três diretores eleitos, Sérgio Rosa, Arlindo Oliveira e Henrique Pizzolato, que depois seria diretor de marketing do Banco do Brasil e acusado de receber R$ 300 mil do valerioduto em 2005.
Depois da mudança de governo, Rosa assumiu a presidência do fundo e novas investidas foram feitas. Ainda em 2003, os fundos conseguem tirar Dantas do controle do CVC/Nacional e romper o “acordo guarda-chuva” que mantinha todos os votos de acionistas alinhados e exigia 90% dos votos para modificar a estrutura. No caso da Brasil Telecom, apesar de os fundos terem 49% das ações, não tinham sequer direito a voto no conselho de administração.

Os inimigos e a Justiça Não eram apenas os fundos que tinham em Dantas um inimigo. Seu estilo, no mínimo, “agressivo” nos negócios fez com que ele colecionasse desafetos. E é justamente um deles que aparece como fundamental para trazer uma série de dores de cabeça ao banqueiro.
Luiz Roberto Demarco entrou no Opportunity em 1997 por meio de Pérsio Arida, o que incluía uma sociedade minoritária. Saiu em fevereiro de 1999 e, cinco meses depois, iniciou uma briga judicial contra o ex-sócio, que começou no paraíso fiscal das Ilhas Cayman, sede do Opportunity Fund, e chegou até a corte britânica. Paralelamente à ação na Justiça, Demarco passou a se associar a adversários de Dantas nos negócios e também começou a miná-lo pela imprensa.
Em novembro de 2000, Demarco concedeu entrevista à CartaCapital em que descreveu o banco como uma empresa controlada por uma família e um Daniel Dantas obcecado pelo trabalho e costurando acordos pouco transparentes, com pouco diálogo e emaranhado em processos judiciais. Mas a denúncia mais séria feita por Demarco dizia respeito justamente ao Opportunity Fund. O fundo investia no Brasil dinheiro de brasileiros – clientes e sócios do banco –, sem que estes soubessem tratar-se de uma operação ilegal, já que como fundo offshore só poderia aplicar dinheiro de investidores estrangeiros.
Em outubro de 2006, o Conselho Privado da Rainha, na Corte de Londres, decidiu a pendenga judicial em favor de Demarco, comprovando seu direito de propriedade de 3,5% na gestão de recursos do Opportunity. Mas Dantas não assistiu às movimentações do ex-sócio quieto. Demarco foi grampeado de forma ilegal no ruidoso caso Kroll, desvendado pela Polícia Federal na Operação Chacal e considerado o maior caso de espionagem ilegal da história do país. A intenção do banqueiro era monitorar desafetos e evitar a perda de controle da Brasil Telecom, mas o relatório da PF diz que ele foi além.
“Há quase uma fixação de Dantas em monitorar os contatos de Demarco com integrantes dos meios de comunicação”, dizia o segundo relatório da inteligência da PF. Provavelmente, Dantas deve ter detectado a aproximação dele com Luiz Gushiken, antes mesmo de Lula ser eleito. Segundo Ozéas Duarte, coordenador de comunicação da campanha de Lula em 2002, em duas entrevistas ao jornal O Povo, de Fortaleza, Gushiken havia acertado com Demarco a construção de uma loja virtual que chegou a arrecadar R$ 2 milhões via brindes e doações. Segundo Duarte, que não respondeu aos contatos da Fórum, José Dirceu teria vetado a divulgação da loja virtual no horário eleitoral por envolver Demarco.
De origem sindical, Gushiken se posicionou desde o início do governo Lula de modo bem próximo a Sérgio Rosa na Previ, defendendo os interesses dos fundos contra o controle de Dantas. Na secretaria de Comunicação do governo, sempre foi apontado como a pedra no sapato do Opportunity, tanto que também foi alvo de escutas telefônicas da Kroll.
O jornalista Ney Figueiredo trabalhou de 2003 a 2004 como consultor de marketing e comunicação do banco Opportunity. Ainda antes de abandonar inconclusa a “missão impossível”, como ele mesmo define, de reverter a imagem negativa do banqueiro na mídia, ele publicou o livro Diálogos com o Poder (Editora de Cultura, 2004). No livro, descreve Dantas como alguém que acreditava haver uma conspiração de jornalistas para prejudicá-lo.
Para Figueiredo, são as privatizações que marcam uma mudança no perfil de Dantas, que transformam o personagem de expoente a vilão. “Para agravar um panorama já bastante complexo, o problema das privatizações no Brasil – esta é a minha opinião – passa pelo financiamento das campanhas eleitorais”, escreveu. E vai além, considera que o banqueiro aparece como vilão também por não se dispor a dar sua versão da história, em um enredo em que “os mocinhos são raros”. “Ao defender seus ativos, Daniel muitas vezes adota os mesmos métodos dos seus adversários”, arrematou.
O caso Kroll e agora as acusações da Operação Satiagraha renderam e ainda vão render inúmeros processos na Justiça, tanto na área cível como na penal. Mas o jogo de Dantas no meio jurídico é pesado, como os fatos recentes mostraram. Em setembro de 2004, o procurador federal Luiz Francisco de Souza entrou com uma ação de improbidade administrativa, combinada com ação civil pública, contra o Opportunity, Daniel e Verônica Dantas, Luis Leonardo Cantidiano (ex-advogado do Opportunity e ex-presidente da CVM), Citibank, Dório Ferman e Pérsio Arida (sócios no Opportunity). Nas 65 páginas da denúncia, ele tenta reconstituir o processo que levou os recursos dos fundos de pensão para o controle do banco em diversos processos de privatização. A ação pede que os réus sejam condenados a pagar indenização em função dos prejuízos causados aos fundos de pensão públicos e ao BNDESPAR, estimados em R$ 300 milhões.
À época, Luiz Francisco foi acusado de ter produzido uma denúncia com base em um texto elaborado pelo advogado Marcello Elias, contratado pelos fundos, por ter entregue um arquivo em cujas propriedades constava a gravação do arquivo no computador do advogado. “Claro que fui eu quem escreveu, tanto que o Opportunity não levou o caso à Corregedoria porque todos conhecem o meu estilo, fiz dezenas de ações que seguem esse estilo”, defende-se.
Ele diz que teve de conversar com o advogado contratado pelos fundos para entender as complexas estruturas societárias, desafiadoras até para especialistas em mercado financeiro. A partir de um arquivo enviado, por ter gostado da fonte empregada, ele teria redigido a ação, sem atentar aos atributos de propriedade do arquivo. Hoje, ele comemora a operação Satiagraha que o fez sentir-se “com a alma lavada”, porque “se o Opportunity for demolido, abre-se caminho para que parte das estatais voltem ao poder público”, referindo-se especialmente à Vale, as teles e os terminais portuários.
Quem sofreu acusação semelhante à do procurador foi a juíza Márcia Cunha, da Segunda Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Ela foi autora da sentença que cancelou o acordo guarda-chuva no conselho da Brasil Telecom, a pedido dos fundos de pensão, e permitiu a destituição do Opportunity.
A partir daí, uma série de acusações surgiram – e tiveram repercussão na mídia – contra a juíza, incluindo a insinuação de que a sentença não teria sido escrita por ela. Um processo na corregedoria foi analisado e arquivado. Em entrevista a O Globo em setembro de 2005, ela revelou que seu marido, dono de um escritório de advocacia recém-aberto, foi procurado para assessorar o Opportunity por um valor fixo, havendo ou não ação, “no caso, um grande mensalão”, definiu a magistrada. Procurada, a assessoria do Tribunal informou à Fórum que Márcia Cunha está licenciada por motivos de saúde.

O futuro de Dantas Solto após dois habeas corpus e passado o vendaval midiático, Dantas saiu do noticiário, mas sua vida está longe de ser tranqüila. Ricardo Saadi, delegado que substituiu Protógenes Queiroz no comando das investigações do caso, tem boas referências junto ao Ministério Público, já que foi o responsável pela operação que levou ao indiciamento de Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, por lavagem de dinheiro. Também esteve à frente da Operação Santa Tereza, que, entre outros crimes, apurou as fraudes em concessão de empréstimos do BNDES, em que apareceu o nome do deputado federal Paulinho Pereira (PDT-SP).
Saadi deve ter como principal tarefa a análise do material apreendido na casa de Daniel Dantas, que pode resultar em outras linhas de investigação e provavelmente novos nomes virão à tona, além daqueles que já constam no relatório da Polícia Federal. A denúncia em si deve demorar de seis meses a um ano para ser enviada à Justiça, segundo apurou Fórum. A idéia principal é evitar brechas que os advogados de Dantas possam explorar como pode acontecer no caso Kroll.
“Aconteceram alguns erros, e em um caso desses é preciso ter tolerância zero a erros. O próprio Heráclito Fortes pode reverter uma operação que foi bem encaminhada”, argumenta a senadora Ideli Salvatti, fazendo referência à possível tentativa do senador do Piauí de remeter o inquérito do caso ao STF. Ela mesma descreve o quão difícil foi investigar o banqueiro durante os trabalhos da CPI. “Tivemos resistência em nosso trabalho no que diz respeito a Dantas durante todo o processo, principalmente em termos de convocações e quebra de sigilo. Na reta final da Comissão, preparamos o voto em separado, mas não tinha conhecimento do que viria no relatório e na primeira versão, não havia sequer citação do nome de Daniel Dantas”, lembra. “O Serraglio [Osmar, presidente da CPI] absorveu nosso voto e a proposta de indiciá-lo, mas quando ele incluiu o Dantas no texto esqueceu os documentos anexos. Hoje julgo que o mais importante não foi a inclusão do seu nome, mas sim a aprovação da quebra do sigilo do disco rígido [apreendido em 2004 na Operação Chacal].” A senadora também faz uma mea culpa em relação ao fato do procurador-geral Antonio Fernando de Souza não ter incluído o nome de Dantas na denúncia. “Ele mandou a investigação correr na Justiça de São Paulo, o que foi o mais acertado.”
Tratada em conversas interceptadas pela PF entre Arthur Joaquim de Carvalho e Guilherme Henrique Sodré Martins, assessores de Dantas, como alguém que poderia fazer “desandar tudo”, Salvatti relata o que passou em função do caso. “Uma organização criminosa que oferece US$ 1 milhão a um delegado é uma organização que pode muito, o poder não tem limites para quem grampeia até ministro de Estado. A minha vida foi devassada, tinha gente fazendo plantão na frente do edifício do meu filho, na porta da empresa onde minha nora trabalhava, na escola da minha filha”, conta.
Mesmo ciente das dificuldades, Salvatti acredita que Dantas possa de fato responder por seus atos. “Quando se mexe em coisas muito cabeludas, é difícil avançar, mas não é possível abafar totalmente”, garante. “A maneira do Dantas operar é repetitiva: seduz, se aproxima das personalidades, coopta. Ele reproduziu isso junto ao governo Lula, não tenho dúvidas que algumas pessoas do PT se aproximaram dele. Ele sempre se aproxima do aparelho do Estado, é o maior corruptor da história do Brasil.”
Mais do que um mero julgamento das ações de Dantas, necessário e salutar à democracia, é preciso que sejam revistos os mecanismos financeiros que lhe permitiram acumular tanto poder e se imiscuir no Estado de modo tão fácil e profundo. Ou então correremos o risco de produzir outros Dantas, se é que já não estamos produzindo.
Cemig, um revés e um empréstimo que nunca foi pago
Poucos brasileiros se deram conta, ou poucos brasileiros acreditam que isso tenha sido realmente possível, mas o fato é que o governo abriu mão, deixou de opinar sobre a administração até mesmo de empresas em que ele continuou a possuir a maioria das ações com direito a voto... empresas ditas ‘privatizadas’, mas que ainda eram do governo. (...) Foi assim que a Cemig, da qual um grupo norte-americano, financiado pelo BNDES, participou da compra de apenas um terço das ações com direito a voto...”.
Era assim que o jornalista Aloysio Biondi falava a respeito do processo de privatização de estatais ocorrido no fim dos anos 90. Nesse caso específico, a empresa em questão era a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). O que ocorreu, na prática, foi uma “privatização branca”, um modelo algo exacerbado do que foram as privatizações ocorridas no governo FHC, com apoio do BNDES.
Em maio de 1997 as empresas estadunidenses Southern Electric e AES formaram um consórcio com o Opportunity, de Dantas. Em um leilão que durou dois minutos, na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, arremataram as 18.719.600 debêntures conversíveis em ações da Cemig postas à venda pelo governo de Eduardo Azeredo, o que equivalia a 33% do capital votante da empresa. As condições do negócio beiravam a obscenidade. O valor investido foi de US$ 1,1 bilhão. Mas nenhum tostão precisou ser pago à vista. Metade foi liquidada apenas um ano depois, sem juros ou correção monetária, com uma nota promissória; sendo que a outra parte foi financiada pelo BNDES (à época presidido por Luiz Carlos Mendonça de Barros) em dez anos com juros camaradas de 3,5% ao ano.
As vantagens não paravam aí. Mesmo sócio minoritário, o consórcio foi beneficiado pelo governo tucano que passou o controle estratégico das decisões da Cemig ao grupo do qual Dantas fazia parte. Mesmo com o estado tendo 51% das ações, o consórcio tinha poder de veto em relação a qualquer investimento acima de R$ 1 mil.
No entanto, a operação sofreu um revés em 1999. O governador Itamar Franco, eleito no ano anterior ao evitar a reeleição de Azeredo, entrou na Justiça para que o governo estadual retomasse o controle da empresa. Com isso, conseguiu anular o acordo e demitiu os três diretores indicados pelos sócios minoritários. A briga judicial contou com interferências externas. Algumas poderosas, como mostra a declaração do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, que durante uma reunião do Conselho das Américas recomendou aos investidores que investissem em qualquer estado do Brasil, menos Minas Gerais. O tempo mostrou quem estava com a razão.
No consórcio Southern Electric Brasil, a AES tinha 65% de participação, enquanto a americana Mirant (ex-Southern Electric) respondia por 25% e o Banco Opportunity contava com 10%. Hoje, o BNDES tem uma dívida estimada em US$ 1 bilhão a receber da americana AES, em função da operação da Cemig, já que nenhuma parcela do empréstimo foi paga até hoje.
A Cemig aparecerá depois na denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sobre o mensalão mineiro, a “origem e laboratório” do outro mensalão. A PF constatou que houve desvio de recursos públicos da Cemig, no montante de R$ 1.673.981,90, para financiamento da campanha de Eduardo Azeredo a governador em 1998.

“ Não tenho relações com o senhor Daniel Dantas” Depois da Operação Satiagraha, virou mantra repetir: “não tenho qualquer relação com o senhor Daniel Dantas”. O auge do movimento foi o sócio majoritário do Opportunity, Dório Ferman, divulgar que Dantas seria apenas um cliente, e não dono do banco.
A alegação já constava na defesa do Opportunity no processo movido pelo Citi na corte de Nova Iorque foi reiterado. “Dantas não é acionista, não é diretor, não participa de nenhuma decisão de investimento, não participa de decisões estratégicas e apesar de o banco estar no mesmo endereço dos demais escritórios do grupo Opportunity (com variação apenas do andar), o contato entre os funcionários do banco e as demais empresas do grupo Opportunity é esporádico e se limita ao compartilhamento de alguma infra-estrutura física, como a parte de tecnologia de informação”, escreveu Rubens Glasberg, em março deste ano.
No mundo político, entre citados nos diálogos gravados pela PF e os lembrados na cobertura nem sempre precisa da mídia, está Heráclito Fortes (DEM). Ele admitiu que viajou algumas vezes em aviões do Consórcio Voa em 2004, um conjunto de aeronaves mantidos pela Brasil Telecom mas que, conforme constataram auditorias posteriores à destituição do Opportunity, servia aos interesses do banco e era controlado por ele. O senador alegou ter se encontrado cinco vezes com Daniel Dantas e ser amigo apenas de seu concunhado.
Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado federal, ex-advogado de Lula e do PT, negou ter feito lobby pró-fusão da Oi/Telemar com a BrT, mas admitiu ter trabalhado como advogado. O que incluiu visitas a Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, e a Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete da Presidência. Procurado pela Fórum, não quis conceder entrevista. Em reportagem ao jornal Valor Econômico de 16 de julho, deu sua versão do caso, negando ter pedido propina ou cometido irregularidades. Seu nome estava entre os pedidos de prisão temporária da Operação Satiagraha, mas ela não foi autorizada.
Uma das conversas gravadas de Greenhalgh foi com Evanise Santos, namorada de José Dirceu e funcionária da Secretaria de Administração da Presidência. Um encontro entre ambos teria ocorrido em maio. A polícia cita Dirceu, mas não afirma haver indícios de envolvimento. O ex-ministro ainda é lembrado na mídia por ser amigo do advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, contratado pelo banco. Isso o levou a publicar, em seu blogue, uma nota condenando os vazamentos, além dos “abusos” na autorização a escutas telefônicas. Ele nega que Greenhalgh tenha conversado sobre Dantas no encontro.
Luiz Eduardo Cardozo é lembrado na mídia, e não no inquérito policial. Em entrevista por e-mail, ele relata que seus dois únicos contatos pessoais com o acusado foram na CPMI dos Correios em 2005 – quando foi o último parlamentar a interrogá-lo – e em um encontro na casa do senador Heráclito Fortes para “testemunhar”, junto com Sigmaringa Seixas, o encontro entre o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e Dantas. “Nunca fui advogado do Opportunity ou do próprio senhor Daniel Dantas”, sustenta. “Nunca tomei nenhuma iniciativa visando atender a interesses do senhor Daniel Dantas.”
Cardozo ainda representou ao Ministério Público Federal (MPF) indícios de irregularidades na compra da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) pela Brasil Telecom por valor acima do de mercado, US$ 850 milhões. O entrevero era entre o Opportunity, que queria pagar US$ 200 milhões a menos, e a Telecom Itália, que defendeu a realização do negócio a qualquer preço, segundo o livro O Caso Telecom (Objetiva, 2004), dos jornalistas italianos Giuseppe Oddo e Giovanni Pons.
O episódio, que motivou uma reportagem na Folha de S.Paulo, dizendo que Cardozo usou seu mandato a favor dos interesses do banco foi motivo de duas notas na seção “Erramos”, uma das quais lembrando que apresentar uma representação ao MPF é algo que pode ser feito por qualquer cidadão, não é prerrogativa de mandato parlamentar, o que desmente o título da matéria. Ele afirma estudar “medidas judiciais cabíveis” contra “os que têm tentado indevidamente me associar ao senhor Daniel Dantas com finalidade claramente difamatória”.
Outro que é sempre lembrado é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, citado em diálogo de Dantas com a diretora jurídica do Opportunity, Danielle Silbergleide Ninnio na montagem da estratégia de defesa no processo com o Citi na Corte de Nova Iorque, segundo revelou Bob Fernandes, do Terramagazine. O empresário descreve uma reunião com o presidente e representantes do banco estadunidense às vésperas de se montar o CVC Opportunity, o fundo internacional que participou da privatização das teles, e diz que usou a influência do então presidente para conquistar investidores.
Fernando Henrique, em entrevista ao mesmo jornalista, diz que recebia investidores no Palácio do Planalto, mas nega que tenha apoiado pessoalmente a formação do fundo. “Isso já é conversa dele, já é usar o santo nome em vão (risos).” Ele ainda negou qualquer vínculo entre o jantar com Dantas em maio de 2002 e a dissolução da diretoria da Previ, em junho daquele ano.
Pagar para se livrar do “parceiro”
Nas telecomunicações, Daniel Dantas aparece como personagem nas negociações da fusão entre a Brasil Telecom e a Oi. Por ter participação em ambas as companhias, a transação, se confirmada, renderia R$ 1 bilhão ao Opportunity, segundo a revista Teletime. A decisão passa por dois parceiros de negócios, a Previ e o Citibank, sendo que as relações entre cada um deles e o banco estão deterioradas e se arrastam disputas judiciais.
Segundo Rubens Glasberg, a fusão foi pensada em função dos controladores, divididos entre os que querem sair do negócio e os que querem ampliar participação. Juntar as empresas permite que todos terminem bem a operação, porque cria uma posição quase monopolista em telefonia fixa. “Não é assim que se faz políticas públicas”, critica. “Os interesses dos acionistas devem ser respeitados, são importantes, mas o interesse do consumidor é mais importante.” Os fundos e o BNDES garantiriam recursos para a operação de troca de ações, o que permite traçar semelhanças com o processo de privatização – com a diferença de que se trata de uma empresa privada e não de desestatização.
Há quem acredite que a Previ vê como vantagem na BrOi, além de a empresa aumentar de valor por operar quase toda telefonia fixa fora de São Paulo, o simples fato de se ver livre de Dantas. Para isso, se disporia a abrir mão de processos judiciais e a garantir que o adversário recebesse sua parte. Os diretores da Previ estão proibidos de falar à imprensa para confirmar ou desmentir a versão. Os demais presidentes de fundos de pensão também se abstêm.
Do outro lado, o Citi foi o único investidor internacional trazido pelo Opportunity para as telecomunicações diretamente (Telecom Itália e TIW também são operadores). Esteve com o Opportunity até 2005, quando aderiu à destituição de Dantas da Brasil Telecom a partir da alegação de que ele teria tentado vender seus ativos contra sua vontade. Estabeleceu-se um processo na corte de Nova Iorque entre as partes. O juiz Lewis Kaplan, do Tribunal Distrital Federal usou, em 2005, o termo “stinks” (fede) para se referir ao motivo da queixa. Tanto que deu ganho de causa ao Citi.
Junto com a “mudança de lado” de 2005, foi definida uma opção de venda ao banco, quer dizer, o compromisso de que, caso a Brasil Telecom não fosse vendida a outro grupo até 2007, os fundos se comprometeriam a pagar R$ 1,045 bilhão pelas ações de controle do Citi. Isto representaria um ágio de 240% em relação ao preço das ações de mercado. Esse valor era equivalente ao que Dantas havia oferecido pela parte do banco estadunidense. Na discussão da fusão entre BrT e Oi/Telemar, o Citi está próximo dos fundos, o que significa que é favorável à venda.
Se a opção for pagar para se livrar do “parceiro”, ela pode não ser inédita. Durante o interrogatório conjunto das CPIs do Mensalão e dos Correios, o deputado Paulo Baltazar (PSB-RJ) lembrou que a relação com a Telecom Itália se resolveu com o Opportunity vendendo suas ações que não davam controle da Brasil Telecom por um valor 3,5 vezes superior ao cotado em bolsa. “Há informações de que ela preferiu pagar um preço tão alto para não vê-lo na administração junto da Telecom Itália”, declarou.
Assim como com os fundos brasileiros, a empresa italiana teve momentos de conflito extremo com Dantas, por considerar que o Opportunity trabalhava contra seus interesses, no caso, o lançamento da operadora TIM. Há complicadores no caso, decorrentes das mudanças de controladores da matriz que aproximaram e afastaram os sócios – de Marco Tronchetti Provera, da Pirelli, para Roberto Colanino, da Olivetti, para um grupo financeiro.
Um dos momentos de tensão foi a compra da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) pela Brasil Telecom. A versão do Opportunity é de que os sócios fixaram a oferta máxima à dona da empresa, a Telefônica, em US$ 730 milhões, mas o negócio foi acertado secretamente por US$ 850 milhões, segundo o livro O Caso Telecom.
A canadense Telesystem International Wireless (TIW) se associou ao Opportunity na Telemig e na Amazônia Celular. Em 2003, deixou as atividades no país ao vender sua participação ao ex-aliado que, mesmo com um percentual baixo de ações, controlava as empresas. A queixa dos canadenses era que o Opportunity jogava contra seus interesses. Na disputa de três anos, houve grampeados como o empresário Nelson Tanure, controlador do Jornal do Brasil – e depois da Gazeta Mercantil – e seu vice, Paulo Marinho, e o presidente da empresa no Brasil, Bruno Ducharme. O grupo de Dantas considerava-os a serviço da TIW, tentando influenciar a opinião pública.

Escândalos que marcaram o governo FHC: grampos telefônicos

Privatização do sistema Telebras gerou um prejuízo para o povo brasileiro de R$ 11,7 bilhões


Fernando Henrique Cardoso participou diretamente da operação destinada a favorecer o consórcio liderado pelo Banco Opportunity no leilão da Telebrás, realizado em julho de 98.
A confirmação veio com a divulgação  pelo Jornal Folha de São Paulo, de 46 novas fitas com gravações de conversas telefônicas entre membros do alto escalão do governo, incluindo o presidente da República. Quem leu a transcrição das fitas – a maioria dos telefonemas gravados foram ligações do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) – não tem dúvida sobre a promiscuidade das relações entre o
governo federal e a iniciativa privada.
O ex-ministro das Comunicações, Luis Carlos Mendonça de Barros aparece falando como um assessor empresarial dos consórcios e não como um coordenador de um leilão público com impessoalidade.
Ex-diretor do BNDES sócio do Opportunity.
A Folha, que já havia denunciado a interferência de outros altos funcionários do governo, entre eles o ex-ministro das Comunicações, e o ex-presidente da BNDES, André Lara Resende, no processo de privatização da Telebrás, agora mostra que o presidente Fernando Henrique Cardoso, pessoalmente, autorizou a utilização do seu nome para pressionar o Fundo de Pensão do Banco do Brasil – Previ – a aderir ao consórcio comandado pelo Opportunity e pela empresa italiana Stet, tentando facilitar a vitória deste grupo no leilão da Tele Norte Leste. A divulgação das primeiras fitas, no final do ano passado, levou à queda de Mendonça de Barros e Lara Resende. O Opportunity tem entre seus sócios fundadores o ex- presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central, Pérsio Arida, e sua mulher, a economista Elena Landau, que antes de ir para o Opportunity, coordenou, como funcionária do BNDES, todo esquema de privatização do setor de telefonia.
O material publicado pela Folha mostra que todo este processo foi manipulado por ministros, dirigentes de bancos oficiais e pelo próprio presidente da República, de forma a conduzir o leilão das Teles conforme com os interesses do governo federal.
Crime de responsabilidade
O governo cometeu crimes, pois infringiu a Lei dos Crimes de Responsabilidade e a Lei das Licitações. Esta última legislação determina pena de detenção de dois a quatro anos e multa para quem “frustar ou fraudar, mediante ajuste, combinação ou qualquer outro expediente, o caráter competitivo do procedimento licitatório com o intuito de obter, para si ou para outrem, vantagem decorrente da adjudicação do objeto da licitação.
No caso da Telebrás, o fato foi comprovado.
Maior negócio do mundo
A venda das Teles no Brasil foi o maior processo de privatização realizado no mundo, num montante de R$ 85 bilhões, desde o governo Collor até agora. As revelações demonstram que esta privatização foi, além de tudo, uma enorme operação de favorecimento de grupos privados que têm ligações íntimas com o tucanato instalado no poder.
As fitas esclarecem que o governo agiu para garantir recursos financeiros e operacionais, através da intervenção do Fundo de Pensão dos funcionários do Banco do Brasil e da concessão de aval (carta de fiança) por parte do BB para que os consórcios pudessem montar a engenharia financeira necessária para a compra das Teles. Desta forma, o governo FHC trabalhou de forma intencional, não apenas para garantir o melhor preço na privatização, como eles argumentaram, mas também para definir os ganhadores dos leilões.
Ao determinar quem tinha o dinheiro e os avais, o governo estabeleceu indiretamente quem teria as condições de disputar de fato os leilões. Esta é a realidade do governo Fernando Henrique Cardoso, que a CPI dos Bancos mostrou ser defensor dos interesses dos banqueiros e dos especuladores e que fez o Brasil perder R$ 10 bilhões no processo de desvalorização do real, entregando este dinheiro para os grandes bancos internacionais.

Daniel Dantas, Gilmar Mendes e FHC- Que timaço!

Por Leandro Fortes

Como é sabido até pelo mundo mineral, como diz Mino Carta, sou processado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, por ter revelado, em reportagem publicada por CartaCapital, em 6 de outubro de 2008, o funcionamento do Instituto Brasiliense de Direito Público, o IDP. Na ação indenizatória movida contra mim, Gilmar Mendes pede 100 mil reais porque, entre outras alegações, o referido instituto teria sido prejudicado financeiramente pela matéria. Curioso, fui pedir a ajuda da organização não governamental Contas Abertas para atualizar os ganhos do IDP e dimensionar o tamanho do prejuízo que causei. Estupefato, constatei que o instituto não parou de faturar. Aliás, pelo andar da carruagem, deve dobrar a receita, até o fim do ano.
Confiram comigo as atualizações feitas pelo Contas Abertas e tirem suas conclusões:
- Em 2008, o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), do qual Mendes é sócio-fundador, faturou 577,8 mil reais com contratos, sem licitação, firmados com órgãos federais. Isso equivale a um aumento de receita de 167% em relação a 2007, quando o IDP faturou 216,3 mil reais.
- Em 2009, as perspectivas são ainda melhores. Até com a Polícia Federal, corporação à qual Mendes reputava a presença de “gângsteres”, durante a gestão do ex-diretor geral Paulo Lacerda, o IDP emplacou dois contratos – secretamente e sem licitação – no valor de 17,4 mil.
- Este ano, apenas no primeiro semestre, o Tesouro Nacional empenhou 597,8 mil reais dos cofres da União para pagar cursos de servidores federais na escola de Gilmar Mendes. Tudo ou por dispensa, ou por inexigibilidade de licitação, graças a uma brecha da Lei 8.666, sobre concorrência pública. Isso porque, ao compor os quadros do IDP, Mendes praticamente monopolizou esse tipo de negócio em Brasília. Não é por menos. No corpo docente há mais de 80 professores entre advogados, economistas, procuradores, auditores fiscais, promotores, assessores e ministros do Tribunal de Contas da União (TCU), Tribunal Superior do Trabalho (TST), Supremo Tribunal Federal (STF), Superior Tribunal de Justiça (STJ) e dois ministros de Estado, Nelson Jobim, da Defesa, e Jorge Hage Sobrinho, da Controladoria Geral da União (CGU). Outros dois ministros do governo Lula fazem palestras eventuais no IDP, José Antônio Dias Toffoli, da Advocacia Geral da União, e Mangabeira Unger, do Planejamento Estratégico.
- Segundo levantamento feito pelo Contas Abertas, com base em dados retirados do sistema de controle de gastos da administração federal, o Siafi, do total empenhado pelo governo, em 2009, 341,2 mil reais foram pagos até o dia 16 de junho.
- Apenas durante o governo Lula, de 2003 até agora, o IDP faturou 2,17 milhões de reais em contratos com órgãos federais e tribunais.
- Entre 1998, ano da fundação do Instituto, até hoje, esse faturamento chega a 2,95 milhões de reais. O Siafi, cujo acesso é permitido somente a deputados e senadores, cobre apenas os contratos da administração direta. Eventuais negócios do IDP com estados, municípios e estatais, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, não são rastreados pelo sistema.
- Gilmar Mendes não gostava da Polícia Federal do delegado Paulo Lacerda, a quem ajudou a derrubar graças àquela história do grampo fajuto – sem áudio nem transcrição – publicado pela revista Veja. Na gestão do atual diretor-geral, Luiz Fernando Corrêa, a relação com a PF parece ter mudado bastante: nos dias 12 e 13 de março, sob a rubrica de “Coordenação de Administração – COAD”, e sem nenhuma especificação sobre o órgão de origem nem sobre os beneficiários, a Polícia Federal firmou dois contratos com o IDP. Ambos, na categoria licitatória “inexigível”. Apenas por meio de uma pesquisa avançada, feito dentro do Siafi, foi possível determinar a rubrica da PF.
- Ambos os contratos são de 8.736 reais cada. O primeiro, de 12 de março, trata de um curso de pós-graduação em direito penal e processo penal para o delegado Flávio Maltez Coca. Ele foi presidente do inquérito que investigou irregularidades na Infraero, estatal dos aeroportos brasileiros, durante o chamado “caos aéreo”. O outro, assinado no dia seguinte, também diz respeito ao mesmo curso, mas para o agente federal Leo Garrido de Salles Meira.
- A pesquisa do Contas Abertas localizou outros contratos firmados, esse ano, com o IDP por órgãos federais acolhidos, no Siafi, alguns sob siglas genéricas e não identificáveis. Entre eles:
a) Três contratos no valor de 8,5 mil reais com o Ministério da Justiça sob a rubrica de “Coordenação Geral de Recursos Humanos”.
b) Quatro contratos da Advocacia Geral da União (AGU), no total de 10,5 mil reais, pela “Coordenação de Execução Orçamentária e Financeira”. No caso da AGU, vale lembrar que o titular da pasta, José Toffoli, é palestrante eventual do IDP e candidato declarado a uma vaga no STF.
c) Um contrato de 10,9 mil reais do Ministério do Planejamento (“Coordenação Geral de Gestão de Pessoas”) e outro do Comando do Exército (“Comando Logístico”), também de 10,9 mil reais.
d) Dois contratos, no valor total de 28,3 mil reais, com o Comando do Exército, subordinado a outro professor – este, pioneiro – do IDP, o ministro da Defesa, Nelson Jobim.
e) Também empenharam dinheiro para pagar contratos com o IDP as agências reguladoras de energia elétrica (Aneel – 7,2 mil reais) e de telefonia (Anatel – 13,5 mil reais). O mesmo caminho seguiu o Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas (Ipea – 32,7 mil reais), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa – 10,9 mil reais) e a Secretaria de Receita Federal (72,9 mil reais).
f) Nos primeiros seis meses de 2009 há, ainda, contratos com os ministérios da Saúde, Previdência e Fazenda, e outros com o STJ (sete professores do IDP são de lá), Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Corpo de Bombeiros de Brasília.
- O instituto de Gilmar Mendes também conseguiu empenhar verbas para contratos no Legislativo. O Senado Federal, sob a presidência de José Sarney (PMDB-MA-AP) empenhou, no primeiro semestre de 2009, 252 mil reais para contratos com o IDP. Apenas à guisa de curiosidade, leia-se o elogio feito por Mendes a Sarney, o Senhor dos Atos Secretos, há poucos dias: “Tenho o maior respeito pelo presidente Sarney. Temos um diálogo constante. Acho que é uma pessoa importante na história do Brasil, conduziu a transição democrática com grande habilidade.”
- Na Câmara dos Deputados, por meio do fundo rotativo da Casa, foram disponibilizados, no mesmo período, 28,5 mil reais reservados para o IDP.
- Além de Gilmar Mendes, são sócios do negócio o procurador regional da República Paulo Gustavo Gonet Branco e o advogado Inocêncio Mártires Coelho, último procurador-geral da República da ditadura militar, nomeado pelo general-presidente João Baptista Figueiredo, em junho de 1981. De acordo com a Junta Comercial do DF, cada sócio desembolsou 402 mil reais, num total de 1,2 milhão de reais, para fundar o IDP. Na época da criação do IDP, Mendes era subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil do governo Fernando Henrique Cardoso.
- A sede do IDP, um luxuoso prédio espelhado de quatro andares na avenida L2 Sul de Brasília, foi construído graças a um financiamento de 3 milhões de reais conseguidos, em 2006, junto ao Fundo Constitucional do Centro Oeste (FCO), do Banco do Brasil.
- O terreno onde o IDP foi construído também foi conseguido graças a uma ajuda do poder público. Em setembro de 2004, os três sócios do instituto assinaram um contrato com o Programa de Promoção do Desenvolvimento Econômico Integrado e Sustentável (Pró-DF II), criado pelo ex-governador Joaquim Roriz (PMDB), quando Mendes já estava no STF. Conseguiram, então, um desconto de 80%. Ou seja, um terreno que tinha o preço original de 2,2 milhões foi financiado, em cinco anos, por 440 mil reais – o preço de um apartamento de quatro quartos, no mesmo bairro.

Corrupção na imprensa: noticiário lobista na privatização das Teles, em causa própria

"A imprensa está muito favorável, com editoriais",
diz Mendonça de Barros.
"Está demais, né?", diz FHC em tom de brincadeira.
"Estão exagerando, até."


Diálogo telefônico
durante as negociatas prévias
à privatização das teles em 1998
entre FHC
e o então ministro das comunicações,
Mendonça de Barros (PSDB,
levado para governo por indicação de José Serra),
..

O diálogo completo acima pode ser lido aqui, nos arquivos de Carta
Capital.

Por quê a imprensa estava até "exagerando" nos editoriais e na
cobertura do noticiário na privataria das teles, em 1998?

Os "impolutos" lobistas da família Mesquita, do Estadão, saíram do
processo sócios da empresa de telefonia celular BCP (atualmente
comprada pela Claro), na região Metropolina de São Paulo, com o Grupo
OESP (Estadão) participando com 6% do consórcio:

Banco Safra (44%)
Bell South - EUA (44%)
OESP (6%)
Splice (6%)

O lobby dos Mesquita junto com lobby da família Sirotsky (Grupo gaúcho
RBS) pela privataria, também resultou em 6% e 7% de participação de
cada grupo, no consórcio BSE (Estados do Nordeste à exceção da BA e
SE):

Banco Safra (40,5%);
OESP (6%);
Splice (6%);
RBS (7%)

Os "impolutos" lobistas da família Frias, mais cautelosos, saíram do
processo com opção compra de 5%, do consórcio Avantel Comunicações
(disputava telefonia celular no interior do estado de SP), que ficou
em 2º lugar no leilão, mas ganhou com a desclassificação do 1º
(Consócio Tess), mas o Avantel acabou desistindo em fins de 1998:

Air Touch - EUA (25%);
Stelar (25%);
Camargo Correa (25%);
Unibanco(25%);
Jornal Folha de São Paulo (opção de compra de 5%)

Opção de compra significa que se o Grupo Folha achasse o negócio bom
depois de algum tempo, poderia exercer o direito de ser sócio de 5%.
Se não achasse o negócio bom o suficiente, não compraria os 5%, não
correndo nenhum risco.

Os "impolutos" lobistas da família Marinho (Globopar), participaram do
consórcio TT2, que disputava a telefonia celular nas áreas dos estados
de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo:

Globopar (40%);
ATT - EUA (37%);
Bradesco (20%);
Stet - Itália (3%)

O consórcio acima perdeu o leilão para o Grupo Telefonica da Espanha,
mas a família Marinho não ficou no sereno. Ganharam com o consórcio
Vicunha Telecomunicações, a telefonia celular na Bahia e Sergipe:

Stet - Itália (44%);
Grupo Vicunha (37%);
Globopar e Bradesco (20%)

Corrupção na imprensa paulista: esconderam as milionárias transações de Marcos Valério com a TELESP em 1997

Xii... Eduardo Azeredo (PSDB/SP) pode ser o pai do mensalão, mas parece que a mãe foram os demo-tucano paulistas. Pois os primórdios foram em São Paulo, em 1997, estendendo até 1998, quando ocorreu um esquema milionário dentro da TELESP com a empresa de Marcos Valério.

Deu no Jornal do Brasil (RJ), de 20/01/2006:



Entidades públicas administradas pelo PSDB teriam depositado R$ 104 milhões na conta de empresa de Marcos Valério

Daniel Pereira e Tina Vieira

BRASÍLIA - A CPI dos Correios demonstrou ontem que tem munição contra o PSDB. Uma nota técnica à disposição da comissão revela que uma conta no Banco Industrial e Comercial S/A (Bicbanco), da agência SMPB São Paulo, de propriedade de Marcos Valério Fernandes de Souza, recebeu em 1997 e 1998 cerca de R$ 104 milhões, em valores atualizados em novembro de 2005, de duas entidades públicas sob responsabilidade de governantes tucanos. Como no caso das operações efetuadas no governo atual, a CPI suspeita de desvio de recursos públicos para alimentar partidos políticos.

Além disso, vislumbra a possibilidade de comprovar que Marcos Valério opera esquemas de drenagem do erário pelo menos desde meados da década passada. Obtida pelo Jornal do Brasil, a nota técnica aponta depósitos e ordens de crédito a favor da SMPB São Paulo efetuados pela TELESP, então empresa de telecomunicações do Estado de São Paulo, e pela Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego.

Em ambos os casos, o enredo não é original e envolve, por exemplo, pagamentos superfaturados por serviços não comprovados e saques em dinheiro vivo. A atenção da CPI dos Correios está voltada, sobretudo, para o relacionamento entre a Telesp e a agência de Marcos Valério.

Entre abril de 1997 e setembro de 1998, a empresa [TELESP] despejou na conta da SMPB São Paulo cerca de R$ 41 milhões, em valores da época, ou R$ 73,3 milhões, em números atualizados em novembro de 2005 com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

A maioria dos depósitos ocorreu antes das eleições gerais de 1998 e da privatização da Telesp, realizada em julho daquele ano. A nota técnica menciona indícios de que os depósitos ''podem ter apresentado irregularidades na sua utilização capazes de caracterizar desvio de recursos públicos''. Entre os indícios, destaca-se o fato de o contrato entre a Telesp e a SMPB São Paulo prever o pagamento de, no máximo, R$ 4 milhões. Ou seja, dez vezes menos do que o total depositado na conta da agência de Marcos Valério.

Diante da disparidade dos números, o presidente da CPI dos Correios, Delcídio Amaral (PT-MS), enviou ofício à Telesp questionando se foram fechados outros contratos de prestação de serviço no período sob investigação e a relação discriminada dos pagamentos deles resultantes. Em resposta à CPI, a empresa declarou a existência apenas do contrato de R$ 4 milhões, assinado pelo então diretor Carlos Eduardo Sampaio Doria. Eleito deputado federal pelo PSDB em 1998, Sampaio Doria também foi presidente da Telesp.

Hoje, ocupa o cargo de diretor de controle econômico e financeiro da Agência de Transportes do Estado de São Paulo e tem assento no conselho consultivo da Fundação Mário Covas, governador de São Paulo entre 1995 e 2001, quando faleceu. Na resposta à CPI dos Correios, a Telesp reconheceu ainda que ''para alguns dos pagamentos realizados não estão disponíveis as informações sobre subcontratada, tipo de serviço e valor dos honorários, em razão do modo de arquivamento anterior ao período de privatização e além do prazo legal de sua manutenção''.

- Isso é gravíssimo, é um crime - disse o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), sobre os desembolsos realizados sem previsão contratual comprovada e sem a respectiva prestação de serviço.

Também causa espécie aos técnicos da comissão o fato de a SMPB ter repassado recursos para seis empresas que teriam sido abertas apenas para receber dinheiro oriundo do caixa da Telesp. As notas emitidas pelas empresas eram seqüenciais, ou seja, sinalizam que a então estatal era a única cliente delas. Todas as empresas são controladas pelos irmãos Ricardo...


Duplicatas da TELESP aparecem na denúncia do PGR contra Eduardo Azeredo

Na denúncia apresentada ao STF pelo Procurador-Geral da República contra Eduardo Azeredo, devido mensalão tucano, já aparecem duplicatas da TELESP sendo oferecidas como garantia ao Banco Rural pela SMPB para retirar empréstimos, que foram usados para financiar a campanha eleitoral.

PIG escondeu a notícia e blindou governo tucano paulista

Quantos dos amigos leitores tomaram conhecimento desta notícia?

E quem souber de alguma nota publicada sobre o assunto no PIG (Folha, Estadão, Veja ou Globo) favor avisar ao blog.

Ganha um doce quem conseguir garimpar uma nota no Estadão. O Grupo tinha contrato de fornecimento de Lista Telefônica para a TELESP, sem licitação, na época dos supostos ilíticos.

A ideologia e a privatização das teles

por Sergio Leo – Já pensou se não tivessem privatizado a indústria automobilística? Ainda estaríamos usando aquelas carroças que o Collor xingou na década de 90, lembra?

O quê? A indústria automobilística já era privatizada? Hummm…
… Mas e as companhias aéreas, hein? Lembra como era caro andar de avião? Só rico conseguia ir ao exterior. Depois da privatização, hoje qualquer um faz crediário e viaja a Buenos Aires, viu a matéria sobre a nova classe média viajando, na Globo?
O quê? As aéreas também já eram privadas?
Mas, então, o que aconteceu com as telecomunicações, hein? É consenso que graças à privatização, tudo mudou, e só a desestatização nos permite ter isso, hoje, esses telefones à disposição de todos, quando antes era coisa caríssima, declarada até no imposto de renda.
Não, comigo essa fábula não vinga.
Nos anos 90, em que os telefones se espalharam pelo país, houve uma revolução, um salto quântico na tecnologia de telecomunicações, e foi isso, não a venda da Telebras, as companhias financiadas pelo público BNDES, que barateou custos, simplificou o acesso, e popularizou o telefone. Boa parte do dinheiro investido veio do banco público, aliás. Os ganhos, claro, foram para os acionistas privados.
Só a fé cega em tabus ideológicos permite falar, sem piscar, que foi a privatição que fez isso tudo. Dê uma olhada na telefonia privada no México, da Telmex, e verá que o capital privado não garante eficiência.
Outro chavão é dizer que só a privatização garantiu recursos que o setor estatal não teria para investir. Ora, grande parte do dinheiro que financiou a compra das estatais e que financia os investimentos das privatizadas veio do setor público. Uma consulta ao site do BNDES mostra isso. Aliás, o setor público, com o BNDES e os fundos de pensão estatais, ainda detém boa parte do capital dessas empresas de controle privado.
Hoje, na TV — poderia ter sido em qualquer outro lugar — repórteres comentavam os dados da Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios, e, comparando o mau desempenho do saneamento com a diseminação dos telefones, claro, saíram com esse chavão: ah, é claro, na telefonia privatizaram.
Pois bem, passou batido aos repórteres um pequeno dado: o grande crescimento na disponibilidade de telefone ocorreu na telefonia móvel, não na fixa, que tem caído em termos proporcionais: 49% das casas têm só o celular como telefone. Eram só 16% em 2004.
A quantidade de casas com telefone fixo (com ou sem celular) caiu, e chegou a 43,6% dos domicílios — eram 51,1% em 2001. E as casas só com fixo caíram proporcionalmente mais da metade, de mais de 14% para menos de 6%. Alguns noticiosos contaram essa história como “avanço do celular nas preferências do consumidor”. Prefiro pensar que é a consequência da tecnologia, que foi a principal responsável pela melhoria na distribuição de telefones no país.
A ligação de telefone fixo é mais barata que a de celular. Por que tão pouca gente (em geral, empresas e famílias de maior renda) opta pela telefonia fixa? Ora, porque ter um celular é bem mais fácil (e era impossível na Telebras estatal, porque não existiam celulares). Num mundo desses, claro que a tendência da telefonia seria tornar-se mais barata e acabar problemas como a compra da linha a preços caríssimos.
Agora, tenha a curiosidade de consultar os serviços de proteção ao consumidor. Quem está nas cabeças, como péssimo prestador de serviços à população? Ora, quem diria, as companhias de telefonia. Qualquer um que precisou trocar de linha, substituir o telefone, queixar-se de contas erradas sabe disso muito bem. Isso sem falar no próximo salto tecnológico, a banda larga, para o qual as empresas privadas, teoricamente, deveriam estar bem mais preparadas.
Se a telefonia fosse ainda estatal, esse problema estaria sendo jogado na conta do Estado. Como não é, é assunto tabu entre os profetas da privatização.
Meu amigo Vinod Thomas, insuspeito funcionário graduadíssimo do Fundo Monetário Internacional (e que provavelmente não concordaria com esse post), fez um belo estudo sobre o Brasil, recentemente, e, com sua experiência de funcionário de instituição financeira multilateral, comentava, em certo trecho: o que garante eficiência não é a propriedade ser estatal ou privada, é a existência de competição.
Por isso têm razão todos aqueles que dizem que eu exagero, que claramente houve melhoria após a privatização. Houve, e, em parte, devido a certas características do setor privado (encontráveis em boas estatais, como a Embrapa e a Petrobras, para dar dois exemplos). Mas não têm razão os que, ideologicamente, atribuem a mudança exclusivamente à privatização, como se ela fosse panaceia e o Estado, sempre um gerador de problemas.
Melhorou onde se impôs a competição (preocupação, registre-se, do tucano privatista Sérgio Motta, que Deus o tenha no confortável inferno dos ateus). E geraram-se fortunas até hoje envolvidas em escândalos que pipocam vez por outra, como se fossem indesejáveis chamadas de telemarketing.
Então, da próxima vez em que algum deslumbrado vier defendera privatização com esse exemplo falso aí da telefonia, concorde. E emende: “Sem falar no sucesso da privatização das montadoras de automóveis e das companhias aéreas, hein?”.
Sergio Leo, Brasília-DF, é escritor e jornalista. Blog: verbeatblogs.org/sergioleo.

sábado, 7 de maio de 2011

A “crise” dos carrinhos. E a oposição com isso?

por Luiz Carlos Azenha
Fui hoje a um daqueles hipermercados gigantescos (desculpem o pleonasmo) de São Paulo, comprar os aparatos necessários à replicação, no Brasil, da doutrina Hans Bintje*.
Na entrada, crise. Faltavam carrinhos de compras para atender a todos os clientes. Os funcionários da loja, desesperados, despencavam escada rolante abaixo para recuperar os carrinhos deixados por consumidores que desembarcavam as mercadorias no estacionamento, em seus automóveis.
Entrei bisbilhotando os carrinhos alheios: comida, comida, muita comida.
Um funcionário do mercado anunciava que o preço da picanha congelada tinha baixado de 34 para 16 reais o quilo. Coisa de gringo esperto: provocar aquele fuzuê que estimula as pessoas a comprar coisas que não haviam planejado comprar (já notaram que não tem janela, nem relógio em supermercado? Parece cassino). Nessa, tem gente que nem se liga na qualidade, nem na data de validade do produto.
Uma família deixava o lugar com uma TV de 42 polegadas em um carrinho, protegendo o objeto como se fosse algum santuário.
Uma outra discutia diante de cartazes gigantes que anunciavam um novo navio de uma empresa de cruzeiros. Era a porta de uma agencia de viagens, que estava cheia. O jovem argumentava que era muito difícil conseguir visto para os Estados Unidos, que a mãe deveria desistir do sonho de conhecer a Disney e fazer um cruzeiro no Caribe. Como argumento, apontou para o novo navio: “Tem até pista de patinação, mãe!”.
Meu impulso de repórter foi de perguntar se algum dos três sabia patinar no gelo.
Duvido que algumas das centenas de pessoas que vi no hipermercado, consultadas, diriam que são eleitoras do PT. Mas é óbvio que uma boa parte delas, inclusive da perseguida nova classe média, identifica o quadro econômico com o “governo que está aí”. Disputar eleição com o “governo que está aí” equivale, assim, a suicídio político.
Aos tucanos resta, portanto, inventar a hiperinflação. Na falta de uma proposta alternativa, o medo é o menos ruim dos cabos eleitorais. Lembram de 2010? Medo do aborto, medo da guerrilheira, do sapo cururu e do Zé Dirceu. Sobrou até para os blogueiros sujos…
*A doutrina Hans Bintje consiste em “plantar” minhocas. Os bichos cavam como se fossem Navy SEALs descontrolados, arejam a terra, ajudam a fortalecer plantas e raízes. As frutíferas produzem mais, atraindo mais abelhas e pássaros, que se divertem com as minhocas desprevinidas. Um círculo virtuoso, como o que os tucanos querem desfazer agora na economia pregando juros, juros e mais juros.