sexta-feira, 27 de maio de 2011

Palocci e o método Lula

Por Janio de Freitas em 27/5/2011
Reproduzido da Folha de S. Paulo, 26/5/2011; intertítulos do OI
O Lula que reaparece para "assumir a defesa" de Antônio Palocci, o qual já precisou afastar do governo por atitude delinquente e imoralidade administrativa, é um dos piores Lulas: o Lula que faz calúnias fáceis e desumanas.
"A imprensa" a que Lula volta a atribuir conduta de má-fé, com as notícias sobre o enriquecimento peculiar de Palocci, é uma forma verbal que se presta à dispensa cômoda de referir-se aos jornalistas ligados ao assunto em questão. As revelações, antes de o serem da imprensa, que as veicula, o são dos jornalistas. Nunca os que prestem serviços palacianos e partidários, menos ou mais disfarçados, ou façam "jornalismo" mais de ficções que da disposição de expor-se às adversidades da profissão. Não é a estes que Lula se dirige.
Exaltado, diz Lula que o bombardeio da imprensa a Dilma começou muito antes do que ocorreu à sua Presidência. De fato, demorou um pouco a revelação ao país, por intermédio da Folha, do tráfico de dinheiro entre políticos operado pelo conluio de parte da cúpula petista com Marcos Valério. E, é certo, tardou mais ainda a revelação da casa utilizada por lobistas com o então ministro principal de Lula.
Acusação caluniosa Mas não é verdade, e é caluniosa, a acusação de Lula a propósitos de bombardear Dilma e, para tanto, valer-se das revelações sobre os negócios inconfessados, e até agora inconfessáveis, de Palocci outra vez feito ministro por Lula, apesar de tudo. Nem, muito menos, tais revelações têm o objetivo político de "testar a Dilma". Excetuado Fernando Henrique Cardoso, e por motivos óbvios, Lula não demonstraria que algum outro presidente, desde o fim da ditadura de Getúlio, fosse tratado com mais consideração pessoal e cuidado crítico do que Dilma Rousseff em seus cinco meses iniciais (ao que acrescento: tratada como fez por merecer).
As duas revelações fundamentais do novo caso Palocci − a compra multimilionária de imóveis e a colheita gênero megassena logo em seguida à eleição de Dilma − foram publicadas pela Folha e elaboradas como notícias objetivas. Sem qualquer extrapolação excedente aos fatos. Nada do publicado ali foi desmentido. A nota de defesa de Palocci, para que senadores, deputados e ministros falassem por ele, foi confirmação inequívoca das revelações. Até com um acréscimo inábil, constatado por artigo nesta coluna, que levava à revelação de posse, além dos imóveis, de riqueza em espécie posta sob guarda e aplicações de empresa especializada.
Fins intimidatórios A atribuição de segundas e outras intenções a jornalistas sérios, como Lula praticou quando presidente e volta a fazer, é caluniosa para com profissionais que se esforçam por um jornalismo honesto. E, sem motivo algum, desumanamente desrespeitosa com eles como pessoas. Os quais nem ao menos são citados nominalmente, para justificar uma defesa.
Com o tempo de vida passado como testemunha e partícipe daquele esforço, não dá mais para ver, como se nada significassem, essas violências e injustiças de fins intimidatórios. E não exclusivas de Lula, apesar de sua especialidade. Nunca estive e não estou nem perto das linhas de frente dos defensores da imprensa, brasileira ou outra. Mesmo quando Lula me atribuiu a intenção de causar prejuízo eleitoral ao PT, por ter revelado uma fraude (comprovada) em concorrência na então prefeitura petista de Campinas, apenas assinalei sua atitude. Mas o golpe da calúnia se tornou hábito. Os aborrecimentos para dentro do jornalismo não cabem mais só nele. Se posso usar este para protestar, é o que faço.
O leitor que ache nada ter com isso, e ainda assim chegou até aqui, queira desculpar. Mas tem muito mais a ver com isso do que pode supor.

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