quarta-feira, 13 de julho de 2011

Carta Aberta à Veja

Por Barbara Freitag-Rouanet

Quem afirmar, em 2011, que a universidade criada por Darcy Ribeiro, há cinquenta anos atrás, agora está sendo "palco das piores cenas de intolerância", tendo sido “tomada por um patrulhamento ideológico tácito”, só pode ser muito desinformado ou muito jovem, ou quem sabe ambas as coisas.
Seja como for, conheço um remédio infalível para suprir essa falta de informação: assistir ao documentário de Vladimir Carvalho Barra/68 – “Sem Perder a Ternura” (2000), que mostra os vários momentos da formação da UnB através de quatro décadas. O filme deu a volta ao mundo, tendo sido exibido em Paris, Havana, Fribourg e em várias capitais brasileiras, entre elas Rio, São Paulo, Salvador, Porto Alegre e, obviamente, Brasília. Aqui foi exibido no Cine Brasília, no Auditório dos Dois Candangos, no campus da UnB, e em salas de aula do Minhocão.
O filme começa e termina com longas entrevistas com o fundador, Darcy Ribeiro, que forneceu um "retrato falado" da UnB, mostrando as dificuldades de sua fundação em que teve que apelar até mesmo à ajuda do Papa João XXIII, vencer a oposição política feita à sua ideia revolucionária e lutar pela sobrevivência dessa ideia durante a ditadura militar.
Vladimir Carvalho mostra através de vários testemunhos de pessoas envolvidas com a UnB, como desde 1964 o campus da UnB foi invadido pela polícia e pelo exército sucessivamente (em 1964, 1965, 1967, 1968, 1977), levando em 1968 à prisão de Honestino Guimarães, o líder do movimento de resistência, e à demissão coletiva de mais de 200 professores, em protesto à brutalidade demonstrada pelos invasores das tropas de choque. Vladimir Carvalho capta com sua câmara, até mesmo um depoimento do então reitor, José Carlos Azevedo, capitão-de-mar-e-guerra, imposto à comunidade acadêmica pelo braço forte dos generais no poder.
Quem viveu ou viu essas cenas de brutalidade com que a universidade da NOVACAP foi mal-tratada destruindo-se laboratórios, bibliotecas, salas de aula, pisoteadas pelas botas da ignorância e do autoritarismo durante os anos sessenta e setenta, jamais cometeria a leviandade de falar hoje da UnB como sendo "palco das piores cenas de intolerância", de "perseguição" ou "patrulhamento ideológico". Sem falar do paralelo de má fé e mau gosto traçado entre o capitão-de-mar-e-guerra, Azevedo, empossado pelos seus superiores da hierarquia militar, com o reitor atual, José Geraldo de Souza, eleito democraticamente pela comunidade acadêmica e cujo único "defeito" é ser tolerante e respeitosamente democrático.
Falo aqui, com conhecimento de causa e na qualidade de professora contratada em 1972, hoje emérita da UnB, que ao combater a ditadura dentro e fora da UnB, foi efetivamente perseguida,pelo então reitor, que quando não vinha pessoalmente assistir cursos, palestras, manifestações, mandava os seus "observadores" à paisana entrar em sala de aula (em que supostamente o professor é soberano e autônomo) para efetivamente "patrulhar" a bibliografia, as palavras ditas, os programas acadêmicos sugeridos e perseguir. Exemplo: meu pedido de ascensão funcional de colaboradora (com Doutorado defendido na Universidade Livre de Berlim em 1972) ficou "depositado" por sete anos na Reitoria e devolvido, sem ser tocado, com o argumento de que estava “ocupando espaço indevido” no local.
Somente fui nomeada "professora titular" depois da redemocratização da sociedade e da universidade brasileiras. Quando pedi licença (não remunerada) para acompanhar meu marido, brasileiro, diplomata, para o exterior, como permitia a lei, fui intimada a pedir demissão. De volta a Brasília, seis anos depois, com pós-doutorado financiado pela Deutsche Forschungsgemeinschaft Bonn, somente fui readmitida na UnB como "colaboradora", recomeçando a carreira a partir da estaca zero. Alunos e colegas meus foram coagidos pela estrutura universitária autoritária a não aceitar minha orientação, ou somente informalmente, pois foi exigido "de cima" que na hora da banca outro professor "politicamente correto" me substituísse.
Somente exponho aqui meu caso pessoal para dizer que essa opressão e esse patrulhamento vieram comprovadamente "de cima", sendo amplamente divulgados na imprensa da época, que reproduziu nas palavras do então reitor Azevedo, que "a dama de Berlim", que criticara numa SBPC o sistema educacional brasileiro, com recurso aos dados do IBGE e de pensadores como Florestan Fernandes, Celso Furtado e Gilberto Freyre, faria melhor deixar o país e não intrometer-se em assuntos internos do Brasil. Nessa época, fui protegida pela maioria dos meus colegas, alunos, leitores, amigos. Entre eles encontravam-se nomes como José Geraldo de Souza, Nair Bicalho, Safira Ammann, Aldayr Barthy Brasil, Marco Antônio, Roque Laraia, Roberto Cardoso de Oliveira, Nadya Castro Guimarães. Alguns entre eles já faleceram, outros se tornaram professores titulares, diretores da Capes, altos funcionários do MEC, do CNPq ou do Itamaraty.
Sabendo, por experiência própria, o que é patrulhamento ideológico autoritário, intolerância política, xenofobia, machismo e opressão, venho com esta carta aberta REPUDIAR ENFATICAMENTE a matéria tendenciosa, superficial, injusta e pouco comprovada, veiculada pela Veja, procurando desqualificar a UnB como um centro de qualificação e excelência das novas gerações brasileiras e denegrir a imagem do seu Reitor, José Geraldo de Sousa Junior, equiparando a instituição e seu representante máximo aos tempos negros da ditadura militar no Brasil.
Rio de Janeiro, 4 de julho de 2011
Barbara Freitag-Rouanet
Professora Emérita da UnB

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