sábado, 17 de março de 2012

Folha, TV Cultura e as más notícias

Por Alberto Dines em 14/03/2012 

 A inglesa BBC ou a americana PBS armariam parcerias de longo prazo com emissoras privadas dos respectivos países? Dificilmente. Mas sentem-se à vontade para associar-se entre si. A Fundação Ford, por sua vez, bancou o projeto de Fred W. Friendly (1915-1998) para a criação do Public Broadcasting System e anos mais tarde financiou a entrada da British Broadcasting Corporation nos Estados Unidos.
O sistema televisivo em países democráticos é um tabuleiro com vetores diferenciados, claramente identificados e distribuídos equitativamente com o objetivo de equilibrar conteúdos. A iniciativa privada disputa a concessão de canais para explorá-los comercialmente dentro de normas e regulamentos aprovados pela sociedade – e, para contrabalançar seu potencial econômico e político, o poder público cria canais públicos de TV (caso dos EUA e Reino Unido) ou estatais de interesse público (caso do Brasil). Uma terceira alternativa é o projeto de TV comunitária que ainda não conseguiu viabilizar-se como alternativa plena.
Cada vetor tem funções e papéis específicos funcionando dentro dos princípios democráticos de poder e contrapoder. Esse conflito funcional e orgânico funciona como a plataforma de uma sociedade estável, equilibrada e dinâmica.
Fato consumado
A parceria do Grupo Folha com a TV Cultura de São Paulo é, paradoxalmente, boa para o telespectador e ruim para a TV brasileira. Simplesmente porque anula as imperiosas diferenciações entre os parceiros. A TV pública é uma alternativa à TV comercial. Seu papel é eminentemente crítico, sua função é, digamos, “republicana” para promover um equilíbrio entre o interesse público e os demais interesses que envolvem a TV comercial. E esta também tem importante função crítica opondo-se aos interesses políticos, culturais ou religiosos das TVs públicas e/ou estatais.
O programa TV Folha que a TV Cultura passou a apresentar aos domingos anula a diferenciação e o contraditório. É mais um produto saído da nossa usina de “cordialidades” e complacências. Transforma uma emissora pública em um prolongamento da mídia privada, emascula afetivamente a sua independência, poda o seu DNA alternativo, contestador e cidadão. Simultaneamente, elimina da pauta de um jornal intransigente como a Folha de S.Paulo apreciável coleção de palpitantes assuntos na esfera cultural e política.
A anunciada adesão da Editora Abril a este perigoso esquema federativo (com um programa às terças-feiras) só confirma esta análise. O programa da Folha é pago pela montadora Renault, os comerciais exibidos não são de caráter institucional – como se espera da propaganda em redes públicas –, vendem carros ostensivamente.
Folha e TV Cultura certamente dividirão o faturamento, isso significa que não se trata de mero intercâmbio entre produtores de conteúdo e plataformas divulgadoras. A TV Cultura transfere-se com armas e bagagens para o campo comercial. É uma péssima notícia para todas as partes. Inclusive para as emissoras comerciais, que passam a contar com concorrentes inesperados.
O Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta aprovou a metamorfose ou terá que engoli-la como fato consumado? Houve tentativas de aproximação da TV Cultura com a outra rede pública, a TV Brasil?

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